B. E. VIDOS

 

 

 

MANUAL DE LINGÜÍSTICA ROMÂNICA

Vol. I

História e Metodologia

 

2ª edição corrigida e atualizada

Tradução de José Pereira da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição do Tratudor
2001


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FICHA CATALOGRÁFICA

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

 

Apresentação [da primeira edição] - Evanildo Bechara

Sobre o Autor - Maximim P. A. M. Kerkhof

Prefácio

Nota do tradutor

PRIMEIRA PARTE

Primeiro Capítulo

Considerações Metodológicas

Segundo Capítulo

O Nascimento da Lingüística Românica

Terceiro Capitulo

A Lingüística Românica como Ciência Histórica

O método histórico- comparativo

Quarto Capítulo

A Lingüística Românica no Século XX

I. Geografia Lingüística

1. Wörter und Sachen e Onomasiologia

2. Geologia lingüística e estratigrafia

3. Neolingüística ou lingüística espacial

4. A importância da geografia lingüística

II. O método idealista

III. Língua e linguagem
Lingüística sincrônica e diacrônica

IV. Lingüística estrutural, fonologia,estruturalismo

Quinto Capítulo

Revisão e Previsões

Referências Bibliográficas

 

 

 

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO DA PRIMEIRA EDIÇÃO

SUMÁRIO

 

Depois de um período de “quarentena” em círculos universitários brasileiros começam a reconquistar seu lugar de direito os estudos históricos, e, no caso em tela, a Filologia e a Lingüística Românicas. Este movimento – que nunca cessou nos países onde também se faziam, e bem, os estudos sincrônicos – começou lá fora e, felizmente, vem atraindo uma nova geração de professores universitários brasileiros, movimento que traz consigo a volta dos estudos de grego e latim, tanto no domínio da literatura – que, verdade seja dita, nunca cessou de todo –, quanto ao domínio da língua.

Esta compreensão melhor de que, como disse Eugenio Coseriu, a descrição “è, infantti contenuta nella storia, anzi, è già storia se storia parziale e provisoria, che vuole essere confermatadalla storia vera e própria”[1], vem chamando a atenção da importância da Lingüística Românica no quadro dos cursos de Letras, particularmente das línguas que continuam o latim.

Daí a oportunidade desta tradução para o português do Manual de B. E. Vidos, levada a bom termo pelo Prof. José Pereira da Silva e agasalhada pela EDUERJ, sob a direção do Prof. Ivo Barbieri e a coordenação de publicações do Prof. Renato Casimiro.

Aqui, como noutras ocasiões, pode-se repetir que habent sua fata libelli, e isto se refere ao fato de que só aparentemente chega atrasada a tradução para o português deste clássico da bibliografia romanística. A verdade é que, tão logo saía a tradução italiana, em 1959, se apressou, já em 1960, o inesquecível romanista brasileiro Serafim da Silva Neto em providenciar uma tradução pela operosa livraria Acadêmica, devida à competência do saudoso latinista Miguel Daddario. Vidos, no prefácio da edição alemã, alude ao fato, e estranha que, estando pronto o manuscrito, que colocaria o Brasil como o segundo tradutor do Manual, depois da versão italiana de 1959 e antes da espanhola de 1963.

O que ocorreu foi que perdíamos Serafim da Silva Neto em setembro de 1960, a quem Vidos se referia, no citado prefácio da tradução alemã de 1968, com “der einzigartige Förderer der portugie linguistischen Studien”, desaparecendo, assim, o grande incentivador da empresa. Em seguida, veja a tradução espanhola devida ao talento e competência do romanista catalão Francisco de B. Moll, a quem já os estudos lingüísticos deviam versões de livros clássicos, com a Introduction to Vulgar Latin do romanista americano C. H. Grandgent (Boston, 1907).

O aparecimento da versão espanhola inviabilizou a empresa editorial da Acadêmica, uma vez que o texto espanhol poderia ser consumido por uma geração de alunos universitários brasileiros que praticamente liam nas principais línguas de cultura, preparados que estavam por bons cursos do então colegial. A versão brasileira não poderia competir com a poderosa editora Aguilar, de Madri. Estes dois fatos foram poderosos para que o sonho de Serafim e o labor do Daddario não tivessem feliz concretização à época.

O advento do Estruturalismo entre nós, especialmente da descrição de línguas, banindo os estudos históricos, impediu a publicação do original ou tradução de manuais de Lingüística Românica, com exceção da excelente Preparação à Lingüística Românica, de mestre Sílvio Elia, saída em 1974.

O avanço recente dos estudos históricos entusiasmou o Prof. Rodolfo Ilari a lançar pela Ática sua Lingüística Românica.

Assim, a presente tradução chega às mãos dos alunos e jovens professores universitários numa hora muito propícia e oportuna.

Há quem irá lamentar que o livro, ao contrário das versões espanholas e alemã, não vem com atualização da bibliografia. Ocorre que numa tentativa neste sentido ficaria sempre a meio caminho, já que a pobreza de nossas bibliotecas não poria ao alcance do nosso tradutor os elementos que necessitaria. Para suprir esta lacuna, pode o interessado consultar o gigantesco Lexikon Romanistischen Linguistik, editado sob a direção de Günter Holtus, Michael Metzeltin e Christian Schmit, (Max Niemeyer Verlay, tübingen), com seis volumes já publicados – e ainda não todo completo –, dos quais o tomo VI, 2 é dedicado exclusivamente ao galego e ao português.

Outro ponto é que o Manual de Vidos é, na versão espanhola de 1963, pela qual se guiou o tradutor brasileiro, um livro carente de atualização. A crítica é só em parte verdadeira. O leitor do Manual encontrará num ou noutro ponto, em estudo mais recente, explicação diferente da que a ministra Vidos; todavia, embora também aí o saldo a favor do Manual seja bastante elevado, o maior mérito do romanista de Nimega é a análise e discussão dos problemas metodológicos, fator que oferece ao aluno estudioso uma boa dose de argumentos para posteriores reflexões pessoais.

Realmente, a tônica de Vidos está encerrada na afirmação de Gundolf: Methode ist Erlebnis, isto é, o método é experiência vivida; e o Manual é um bom exemplo disso, na medida em que, como disse Moll, no prefácio à sua tradução,

Es el resumen de un gran cúmulo de observaciones, redactado a base de experiences vivas y de la lectura vigilante y severamente crítica de una multitud de obras fundamentales para todo romanista. De ellas ha sacado el autor las quintaesencias, que oferece en este manual a la rumia pasada de profesores y alumnos de las Faculdades de Románicas (p. VII)

Por fim, esta tradução não seria possível sem o apoio da viúva do Professor Vidos e, especialmente, do seu discípulo mais dileto, meu amigo Professor Maxim P. A. M. Kerkhof, a quem devo a nímia gentileza de me permitir traduzir para este livro o necrológio em honra ao seu mestre, publicada na Revista de Filología Española, tomo LX VII, 1987, cadernos 1º e 2º, p. 127-129.

Tenho certeza de que está fadada a este clássico de Vidos uma vida longa e frutuosa nos estudos romanísticos do Brasil.

 

Evanildo Bechara
(UERJ e ABF)


 

 

 

 

 

 

SOBRE O AUTOR
Benedek Elemér Vidos (1901-1987)

SUMÁRIO

Maxim. P. A. M. Kerkhof
Universidade Católica de Nimega (Holanda)

 

Nasceu Benedek Elemér Vidos em Budapeste, aos 7 de fevereiro de 1902.

Terminados seus estudos na Faculdade de Letras da Universidade de sua cidade natal, obteve várias bolsas para aperfeiçoar fora de seu país os conhecimentos de lingüística românica. Assistiu a cursos em Bolonha, Roma, Paris e Berlim (nos anos de 1926 e 1927); em Roma estudou com Giulio Bertoni e em Berlim com Ernst Gamillscheg. Em 1928 doutorou-se na Universidade de Budapeste com a tese Szóföldrajzi Kutatások (Investigações sobre Geografia Lingüística).

Até 1932 foi professor de francês e latim em escola de ensino médio em Budapeste. Em 1932 foi nomeado leitor de italiano e de espanhol na Universidade Católica de Nimega (Holanda), onde sucedeu ao professor V. Bertoldi. Tomou posse oficial do leitorado no dia 15 de novembro do mesmo ano, preferindo na ocasião o discurso inaugural intitulado La forza di espancione dela língua italiana. Um ano antes publicara seu Contributo storico-linguistico all espansione della lingua nautica italiana. Com tais estudos, Vidos inicia sua investigação sobre a expansão de termos técnicos – sobretudo náuticos – italianos. Em 1939 publica sobre o mesmo tema a magnífica monografia Storia della parole marinaresche italiane passate in francese. Contributo storico-linguistico all espansione della lingua nautica italiana. Aí Vidos mostra como os focos de expansão de termos náuticos são particularmente Gênova e Veneza, as duas potências marítimas italianas mais importantes do passado; a influência da terminologia marítima genovesa se manifesta quase exclusivamente na parte ocidental do Mediterrâneo (isto é, nas línguas românicas), enquanto a linguagem marítima veneziana influi tanto na parte ocidental, quanto na oriental. Trata-se de um trabalho impressionantemente bem documentado, e cujas conclusões estão solidamente amparadas. E. Gamillscheg falou em sua resenha do livro de uma “wirlich grosse Leistung” (“verdadeira grande obra”) Zeitschrift für französische sprage und literatur LXIII (1939: 86) e M. L. Wagner classificou-o como uma “Leistung von gigantischem Ausmasse” (“obra de gigantesca dimensão”) Voskstum und Kultur de Romanen, XII (1939: 223). Sem nenhum exagero, podemos dizer que com a Storia, Vidos se apresentou como o melhor especialista no terreno da expansão da terminologia náutica italiana.

Continuou elaborando estudos acerca da migração de termos técnicos, de suas etimologias e dos problemas metodológicos conexos; em 1965 reuniu 21 trabalhos publicados num espaço de trinta e dois anos em diferentes revistas científicas, além de dois inéditos “Migração popular e migração erudita” e “Les termes techniques et’emprunt” “Os termos técnicos e o empréstimo”, num volume intitulado Prestito, expansione e megrazione dei termini tecnici nelle lingue romanze e non romanze, Problemi, metodi e risultati. Embora a holandesa náutica continuasse ocupando lugar preponderante, estuda também nosso autor palavras procedentes de outros campos técnicos, como os tecidos, a guerra, a equitação, o comércio, a zoologia, a botânica, a medicina etc., e, no que diz respeito às línguas:

As línguas românicas ocupam naturalmente a posição de maior preponderância, vindo depois, em escala decrescente, as línguas germânicas, o turco, as línguas eslavas, o grego moderno, o árabe da costa setentrional da África etc. (Prólogo, p. VIII).

No plano teórico, Vidos ensina que não há por que considerar o empréstimo como um fenômeno isolado; em geral, ocorre juntamente com outros do mesmo grupo semântico e muitas vezes deve seu aparecimento aos ambientes bilíngües do país de onde procede. Com razão Rohlfs Gerhard qualificou o livro de “Handbuch der europäischen Lehuwortkunde”.

Neste meio tempo Vidos publicara em 1956 seu Handbock tot de Romaanse Taalkunde, traduzido ao italiano (1959), ao espanhol (1963) e ao alemão (1968). Consta a obra de duas partes: na primeira, o autor discute os diferentes métodos utilizados no estudo das línguas românicas até o estruturalismo inclusive, e na segunda, passa revista à romanização, à problemática do substrato e superestrato, ao nascimento e desenvolvimento das línguas românicas, aos dialetos e temas correlatos. Enfoca Vidos sua posição de uma perspectiva diacrônica, porque, segundo ele, a lingüística românica é essencialmente “uma ciência histórica”; entretanto, “já que sincronia e diacronia são inseparáveis, o método sincrônico forma a natural integração do histórico”. Não se trata de um simples “etát de question”; ao contrário, o manual proporciona uma exposição didática e discussão crítica de complexas questões e opiniões encontradas, no que o autor nos oferece muitas vezes idéias pessoais. Vidos manejou impressionante bibliografia, atualizada nas sucessivas traduções. Alarcos Llorach escreveu que “é um dos poucos manuais, no domínio do românico, que reflete verdadeiramente uma situação up to date” (Archivum, X, 1960: 25). O livro foi recebido pelos especialistas com aplauso quase unânime; 34 das 38 resenhas que vi são particulamente elogiosas.

Retornemos ao curriculum vitae do professor Vidos.

Em 1946 foi nomeado catedrático de lingüística românica e espanhola da Universidade Católica de Nimega, onde ensinou até sua jubilação em 1971. Nesse ínterim, em 1968, a Itália e a Espanha o condecoraram, respectivamente, com a ordem “Al mérito della Republica Italiana” e com a de “Alfonso X el Sabio”. Depois de sua jubilação continuou trabalhando intensamente durante uns doze anos. Depois de longa enfermidade, morreu em Nimega, aos 18 de março de 1987.

Com a morte de sábio lingüista a Romanística perdeu um dos seus mais eminentes representantes. Já não o temos entre nós; todavia, continuará vivendo em nossa memória e nos seus escritos. Os amigos e colegas o recordamos com admiração e gratidão.

 

(Trad. Evamildo Bechara)


 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

SUMÁRIO

 

Esta versão constituirá a quinta edição do Handboek tot Romaanse Taalkunde (Manual de Lingüística Românica) do Prof. Benedek Elemér Vidos e a primeira em língua portuguesa.

Vindo à luz em holandês em 1956, foi logo traduzido para o italiano por Giuseppe Francescato e publicado em 1959, completamente atualizado pelo autor, na prestigiosa coleção Archivum Romanicum. Tornava-se, assim, acessível a muitos brasileiros, mas não a todos os estudantes de letras, pois muitos não dominam o italiano em grau suficiente para estudarem sem dificuldade e com proveito um texto tão extenso e tão denso de conteúdo. A versão alemã, de 1968, não teve circulação no Brasil.

Em 1963 saía a segunda versão em língua românica. Desta vez em espanhol e destinada a maior número de leitores, já que traduzia também as notas e citações originais, qualidade didática que não poderíamos desprezar em nossa versão brasileira. Na Europa, uma extensão territorial equivalente à do Brasil, dezenas de línguas e centenas de dialetos são falados, criando uma necessidade vital de dominarem outras línguas.

Como, na prática, menosprezamos o poliglotismo, nossos livros didáticos precisam de tradução também das citações.

Este livro não foi escrito apressadamente nem calcado nos moldes de manuais anteriores. Pelo contrário, nasceu lentamente, como fruto de vários anos de magistério, num refinamento pausado de matérias bem selecionadas e expostas de um modo novo. É o resumo de grande quantidade de observações, com base na experiência viva e na leitura atenciosa e crítica das obras fundamentais para o romanista, de onde tirou o que há de melhor para a reflexão dos professores e alunos de nossas Faculdades de Letras.

Até bem recentemente, só conhecíamos livros de Lingüística Românica organizados segundo o árido método da Gramática Histórica. Até então, um manual de Lingüística Românica podia ser uma introdução sobre o latim vulgar e sobre o românico comum primitivo seguido de um conjunto de sumários ou pequenos tratados sobre a evolução de cada língua românica.

Alguns manuais recentes já superaram este método e concedem um bom espaço para capítulos de orientação metodológica e de história das doutrinas lingüísticas. É o caso, por exemplo, do conhecido Preparação à Lingüística Românica, do Prof. Sílvio Elia. No entanto, nunca se deu a tais capítulos a importância que lhes concede Vidos, quase a metade de seu livro, que tem duas partes: a primeira se constitui dos capítulos de história e crítica das doutrinas, a segunda contém o que antes costumava ocupar a totalidade de qualquer manual desta disciplina.

Este método tem a vantagem de iniciar o estudante nas generalidades doutrinais e na valorização dos sistemas, antes de apresentar-lhe os dados concretos e as particularidades de cada língua.

Do ponto de vista românico, a primeira parte é um resumo de Lingüística Geral e sua história crítica, conhecimentos com que o leitor vai se preparando para entender e assimilar a doutrina de cada língua neolatina e as suas interrelações.

Recomendo, portanto, a leitura atenta da referida primeira parte, que abrirá amplas perspectivas ao estudante, oferecendo-lhe uma visão sintética de todo o processo da Lingüística Moderna desde os tempos de Humboldt e Diez até as recentes novidades do Estruturalismo e da Glossemática. A exposição que Vidos faz de tudo isso é de grande clareza e de uma imparcialidade louvável. O Idealismo de Vossler, a Lingüística Espacial, o Estruturalismo etc., aparecem expostos com um espírito crítico absolutamente sereno e com uma avaliação equilibrada dos aspectos positivos e negativos de cada teoria.

A segunda parte é tão importante quanto a primeira, mas interessa mais diretamente ao romanista ou a quem pretende sê-lo. Ali o autor dá uma visão de conjunto da formação das línguas românicas, desde sua pré-história (o latim e os substratos que nelas influíram). Poucas vezes foram escritos capítulos tão claros como aqueles em que Vidos se dedica a expor a variedade dialetal românica, a origem das línguas literárias da România e as características dessas línguas. Tudo de acordo com a bibliografia acessível sobre cada ponto, com uma amplitude de citações que guia com segurança o estudioso que quiser comprovar e ampliar o que neste livro se afirma ou se discute.

Um mérito especial do presente Manual, para os leitores de língua portuguesa, é o de estudar os romanços que resultaram nas três línguas ibero-românicas em plano de igualdade e de refletir o estado atual dos estudos sobre o galego-português, assim como sobre o castelhano e o catalão.

Apresento-lhes esta versão em língua portuguesa do Manual de Vidos com a segurança de estar prestando um bom serviço ao ensino da romanística nas universidades brasileiras.

 

Rio de Janeiro, 1996.

José Pereira da Silva


 

 

 

 

 

 

NOTA DO TRADUTOR (NA PRIMEIRA EDIÇÃO)

SUMÁRIO

 

Esta obra do mestre da Universidade de Nimega constitui uma das bases mais sólidas da bibliografia de Lingüística Românica até hoje escrita em todo o mundo.

Concluída em janeiro de 1955, como se pode ver no “Woorword” (Prefácio) da primeira edição, foi publicada pela primeira vez, em holandês, no ano de 1956, pela L. C. G. Malmberg. `s-Hertogenbosch; a segunda edição foi em italiano, em 1959, totalmente atualizada pelo autor e preparada pelo professor de língua italiana na Universidade de Utrecht e Leida, Dr. Giuseppe Francescato e editada por Leo S. Olschki – Editore; a terceira foi em espanhol, em 1968, traduzida a partir da versão italiana, pelo professor Francisco de B. Moll, membro correspondente da Real Academia Espanhola e publicada pela Aguilar. Esta é a primeira edição em língua portuguesa, feita a partir da edição italiana, cotejando-se o texto com a versão espanhola, visto que esta apresenta algumas inovações tradutológicas que achamos interessante aproveitar. Além de ser o espanhol mais próximo do português e por ser a versão em que até hoje mais se difundiu a obra, B. Moll teve a preocupação de traduzir quase todas as citações feitas em línguas estrangeiras, principalmente quando tais citações só interessam pelas informações que transmitem.

O cotejo com a primeira edição, em holandês, só foi feita quando as duas anteriores versões românicas discordavam em algum ponto e, mesmo assim, só nas partes relativas a citações ou notas bibliográficas.

Da primeira edição não houve reimpressão, visto que a língua holandesa é pouco difundida, principalmente entre os estudiosos de Lingüística Românica. Da versão italiana e da espanhola já foram feitas várias reimpressões, todas fac-similares e, portanto, sem alterações. Após a atualização feita para a edição italiana, não se tocou mais nos originais, estando a obra intacta a partir daquela época (1959).

Esta tradução foi realizada em 1990 e revista pela Profa. Dra. Darcilia Marindir Pinto Simões, do Departamento de Letras da faculdade de Formação de Professores e do Instituto de Letras, cujas palavras de incentivo agradecemos sinceramente e pelo Prof. Dr. Evanildo Bechara que lhe acrescentou uma apresentação e uma resumida biografia do autor.

 

Rio de Janeiro, 1996.

José Pereira da Silva


 

 

 

 

 

 

PRIMEIRO VOLUME

SUMÁRIO

 

O primeiro volume desta segunda edição do Manual de Lingüística Românica em português, correspondente à primeira parte da obra nas edições anteriores, é um resumo da Lingüística Geral a partir do românico e da história crítica da ciência, conhecimento necessário para se entender e assimilar as informações sobre cada língua românica em especial e sobre suas mútuas relações.

Nesta edição ainda não foram feitas todas as atualizações necessárias relativas aos desenvolvimentos lingüísticos e filológicos ocorredos na segunda metado do século XX e neste início do século XXI e sua adaptação à realidade brasileira e de nossos cursos superiores de Letras; mas fica aqui o seu esboço e a promessa para a próxima edição, que esperamos poder sair muito brevemente, motivo pelo qual esta sai com uma tiragem extremamente reduzida, apenas para atender aos nossos alunos de graduação de 2006.

 


 

 

 

 

 

 

PRIMEIRO CAPÍTULO

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

SUMÁRIO

 

O método e a história da Lingüística Românica não se podem separar. E se alguém deseja ter uma idéia clara da origem e desenvolvimento desta ciência, é necessário que a veja à luz dos vários períodos históricos em que operavam aqueles que a ela se dedicaram. Além disso, não é possível falar propriamente de um método da Lingüística Românica, posto que o método, ou, em outras palavras, a posição pessoal do investigador ao confrontar os fenômenos próprios das línguas românicas, não pode ser constante nem por um momento porque naqueles fenômenos aparece uma contínua variedade e porque não há dois estudiosos que apresentem uma idêntica disposição espiritual e idênticas circunstâncias individuais. Por isso, na Lingüística Românica, podemos reconhecer não o método, mas diversos métodos. Também o reconhecimento das infinitas variedades dos fenômenos e dos investigadores pode fazer evitar uma tendência, tão humana como funesta, à generalização e à esquematização, contra a qual se deve estar sempre prevenido. Portanto, o mesmo fenômeno lingüístico e, provavelmente, também não-lingüístico pode ser explicado por diversos métodos. Isto é, cada investigador pode ter a respeito do método uma experiência diferente – Methode ist Erlebnis, método é experiência, “ele consiste mais em Prática do que em Teoria” (Descartes)[2] – conforme ele seja, pela confluência de circunstâncias, um homem diferente.

Antes do século XIX, ou seja, antes que a Lingüística Românica começasse a existir como ciência, era certamente possível adquirir experiência sobre os fenômenos lingüísticos românicos. Mas semelhante tomada de posição tornava-se completamente pessoal, isto é, não-científica, não-metódica. Já no início do século XIV, por exemplo, em seu tratado De Vulgari Eloquentia, I, VIII, Dante reconheceu o parentesco de algumas línguas românicas, concretamente do espanhol, do provençal, do francês e do italiano, baseando-se no léxico, que mostra uma origem comum. Mas a língua de que se formam as línguas românicas não é, para Dante, o latim, porque, segundo ele, esta língua que é uma criação dos doutos, está fixada há séculos e não pode sofrer nenhuma modificação. O resultado dessa visão pessoal de Dante era equivocado. Com efeito, graças à Lingüística Românica, foi demonstrado que as línguas românicas procedem do latim falado. Para o etimologista francês Gilles Ménage, que viveu no século XVII, a origem latina das línguas românicas é tão evidente, que ele raramente toca neste argumento (BRUNOT, 1905: I, 6 ss. e IV, 1 e ss.; TAGLIAVINI, 1952: 4 e ss.; VITALE, em VISCARDI, 1955: 59-62.). Mas quando, entre outras coisas, afirma que o francês haricot deve provir do latim faba, ou mais exatamente de um faricotus derivado de faba, demonstra não conhecer (e não podia ser de outro modo) os elementos da Lingüística Românica. Com efeito, faricotus não existe em latim, não pode ser derivado de faba, e o f latino não pode dar h em francês; isto, sem falar que, entre outras coisas, haricot (mexicano ayacotli), que não está documentado antes do século XVII, significa uma planta distinta da faba do latim, e precisamente uma planta que se introduziu na Europa, vinda da América nos fins dos séculos XVI.[3] Neste caso, a intuição de Ménage falha, como a de Dante e de outros, porque não está de acordo com a realidade dos fatos. A Lingüística Românica existe há mais de cem anos; por conseguinte, a experimentação dos fatos lingüísticos românicos, a tomada de posição pessoal, tornou-se metodológica, e uma intuição que não esteja embasada nos conceitos fundamentais desta ciência, deve ser considerada errada.

Depois destas considerações, claramente se vê que, na Lingüística Românica, não existe um método como algo particular desta ciência, e que é apenas a tomada de posição pessoal, ou seja, a intuição diante das infinitas variações dos fenômenos lingüísticos românicos, fundamentada na base da ciência lingüística. Nesta tríplice relação, somente o fundamento lingüístico, a concepção metodológica fundamental, é constante, enquanto os outros dois fatores mudam continuamente em correlação com o tempo em que os fenômenos lingüísticos românicos se manifestam e são observados. Também por isto é impossível separar o método e a história da Lingüística Românica, porque a sua história é apenas a resenha histórica dos diversos métodos que, surgidos no clima espiritual dos diferentes períodos, desenvolveram-se em determinadas correntes metodológicas. No interior e, naturalmente, também no exterior destas correntes (o grande lingüista Hugo Schuchardt, por exemplo, ficou fora de toda corrente metodológica), desenvolve-se o jogo das posições individuais, intuitivas e científicas, que não pode ser registrado numa resenha histórica, mas que se manifesta, sem que o método se torne visível, na ilustração e na explicação dos fenômenos da Lingüística Românica, ou seja, nos resultados desta ciência.[4]

À pergunta de quais sejam os fundamentos científicos, as concepções metodológicas fundamentais, de nossa ciência, pode-se responder, na base dos resultados obtidos na prática pelos investigadores, que tais fundamentos e concepções consistem numa intuição baseada em fatos, em cuja indução e dedução se encontram continuamente em estreita correlação, de modo que a dedução só adquire o direito de existir mediante a indução.

 


 

 

 

 

 

 

SEGUNDO CAPÍTULO

O NASCIMENTO DA LINGÜÍSTICA ROMÂNICA

SUMÁRIO

 

No clima espiritual criado pelo romantismo alemão, surgiram, no final do século XVIII, a Filologia Germânica, a Filologia Românica e a Lingüística Moderna. O interesse e a admiração dos românticos alemães por tudo que era exótico e medieval fizeram que não só se ocupassem da civilização e da literatura da antiga Índia e estudassem o sânscrito, mas que se estudassem também os Minnesanger alemães e a literatura românica da Idade Média. Os românticos alemães descobriram o mundo romântico medieval e trouxeram à luz das Vergessene und Verkannte. Mas não se contentaram com um puro prazer estético derivado da descoberta dos tesouros do medievo; desejaram também considerá-lo a partir de um ponto de vista científico, com a publicação de manuscritos e de textos. Depois que Bodmer, Wieland, Herder e Uhland publicaram boa parte daqueles tesouros, tornou-se significativa sobretudo a obra dos irmãos Schlegel.

Friedrich Schlegel contribuiu, com seus estudos sobre o antigo indiano, para o nascimento da Lingüística Comparada. Franz Bopp, com a sua Vergleichende Grammatik, aparecida entre 1833 e 1851, na qual, entre outras coisas, é refutada a idéia equivocada de Schlegel de que o grego, o latim e o germânico derivem do sânscrito,  põe os fundamentos da Lingüística Comparada. Friedrich Schlegel se ocupou da poesia medieval francesa, e durante sua estadia em Paris queria publicar num corpus os numerosos manuscritos provençais que se encontram nas bibliotecas daquela cidade e a totalidade da poesia em provençal antigo. Concebeu também o projeto de se dirigir à Provença para ali associar-se ao filólogo François Raynouard. Mais tarde, entretanto, renunciou a seus planos românticos e desviou sua atenção do Ocidente para o Oriente, para sânscrito. Sob a influência do irmão deste, o romântico Augusto Guilherme von Schlegel, tradutor de poesias italianas, espanholas e portuguesas e autor de notáveis trabalhos no campo da Filologia Românica, Jacob Grimm publica, entre 1819 e 1847, sua Deutsche Grammatik (com a palavra deutsche quer dizer sempre “germânica”), e desta maneira se converte no fundador da Lingüística Histórica. Ainda que esta tenha surgido ao lado da Comparativa, de um ponto de vista metodológico a Lingüística Histórica procede da Comparativa.

Assim, os românticos alemães haviam preparado o terreno para o fundamental trabalho filológico de François Raynouard, que não era um romântico nem um artista, mas que, com sua antologia em seis volumes e com o estudo aprofundado do provençal antigo e da língua dos trovadores (Choix de poésies originales des troubadours, Paris, 1816-21) realizou o que só podia suscitar o entusiasmo nostálgico de Friedrich Shlegel. O primeiro tomo da obra contém a “gramática da língua romana”, o sexto a “gramática comparada das línguas da Europa Latina”, em que ele, ao lado de muitas afirmações corretas sobre a origem das línguas românicas, expressa a teoria completamente errônea de que estas derivem de uma “língua romana” que teria sido falada entre os séculos VII e IX, e que Raynouard identifica com o provençal e chama de langue romane (GRÖBER, 1904-6: 1, 103 e ss.; RICHERT, 1913: 3 e ss., 12 e ss., 26 e ss., 31 e 38 e ss.; WARTBURG, 1931: 5-6; LECOUTERE-GROOTAERS, 1948: 28 e ss.; TERRACINI, 1949: 7 e ss., 61 e ss. e 182; TAGLIAVINI, 1949: 42 e ss, e 1952: 2, 8 e ss., 39; VITALE, 1955: 86-89).

Neste clima espiritual medieval, criado pelo romantismo alemão, Friedrich Diez (1794-1876), que em sua juventude havia estado inteiramente sob a influência dos românticos, fundou não só a Filologia Românica, mas também a Lingüística Românica. Por influência de Jacob Grimm, cujo interesse pelas literaturas românicas medievais é bem conhecido (cf., sobretudo, seu opúsculo Silva de romances viejos, aparecido em Viena em 1815 e que agiu de maneira particularmente inspiradora sobre Diez), e de Augusto Guilherme Shlegel, Diez publicou em Giessen (1817) seus Altspanische Romanzen, (RICHERT, 1913: 31 e ss.) e já em 1816, portanto antes de sua famosa visita de 1818 a Goethe, em Jena, em que este chamou a atenção do jovem Diez sobre os estudos provençais de Raynouard (TOBLER, 1912: 441 e 455), ocupou-se Diez em projetos de estudo sobre a poesia românica de amor CURTIUS, 1947: 389-410) e, entre outras coisas, publicou em Zwickau, em 1826 e 1829, Die Poesie der Troubadours e Leben und Werke der Troubadours. Ein Beitrag zur näheren Kenntnis des Mittelalters. Com estas e outras obras literárias, como também com a publicação de textos e glosas, que mostram traços da profunda escola do filólogo clássico Karl Lachmann (GAUCHAT, 1936: V), Diez criou a Filologia Românica (RICHERT, 1913: 56-59).

Aplicando o método histórico-comparativo de Franz Bopp e de Jacob Grimm às línguas românicas, Diez publicou entre 1836 e 1843 sua Grammatik der romanischen Sprachen e, em 1853, seu Etymologisches Wörterbuch der romanischen Sprachen (este último é ainda hoje uma obra fundamental e indispensável), com os quais, há mais de cem anos, fundou a Lingüística Românica (GAUCHAT, 1936: IV-V). Em sua Grammatik não queria Diez fazer outra coisa (para usar suas mesmas palavras, conservadas até nós graças a seu grande discípulo Gaston Paris) que “aplicar às línguas românicas sua gramática e seu método” (a gramática e o método de Grimm) (TOBLER, 1912: 454). Ele deu uma base científica às concepções diletantísticas que imperavam até seu tempo em torno das línguas românicas, e com a aplicação do método comparativo, sem aceitar a errônea teoria de Raynouard que considerava o provençal como um elo entre o latim e as outras línguas românicas, indicou e demonstrou o parentesco destas e sua derivação, não do latim clássico, mas da língua latina popular e falada. Contudo, ele não podia ter, em seu tempo, um conceito justo, por exemplo, de Fonética e de Dialetologia, e se escusou, às vezes, de ter que dirigir sua atenção também aos dialetos românicos mais importantes, limitando-se exclusivamente a seus traços fonéticos característicos (DIEZ, 1882: I, 60). Por isto, compreende-se que a primeira e a segunda parte de sua Grammatik, dedicadas, respectivamente, à fonética e à morfologia, estejam quase completamente superadas e envelhecidas enquanto a terceira parte, dedicada à sintaxe, conservou seu valor até nossos dias (BOURCIEZ, 1936: 213-14).


 

 

 

 

 

 

TERCEIRO CAPÍTULO

A LINGÜÍSTICA ROMÂNICA COMO CIÊNCIA HISTÓRICA

SUMÁRIO

 

Por influência do Romantismo durante o século XVIII, a Filologia torna-se uma ciência preponderantemente histórica. O conhecimento do passado esquecido, do exótico e do medieval, deve por natureza fundamentar-se na história. O estado de espírito romântico do século XVIII e da primeira metade do XIX só podia ser filológico, isto é, publicar manuscritos e textos, confrontá-los entre si, enriquecê-los com comentários filológicos e lingüísticos e com glossários. Compreende-se, e não só para este período, que quanto mais se pratica a Lingüística, em sentido filológico, mais se encontra ela orientada historicamente (BERTONI, 1941: 47).

Pela própria natureza das coisas, o passado se abre à Lingüística de orientação romântica e filológica, não na língua falada, mas na escrita, nos textos e na literatura. Com efeito, a gramática indo-européia constrói suas comparações, por meio das quais se remonta ao passado, por via indutiva, cada vez mais profundamente, e reconstrói as línguas originárias, em parte sobre línguas que já não são faladas. Para a Lingüística Romântico-filológica, a língua, ou melhor, a língua escrita, é a projeção do passado, algo que na forma escrita se separa dos falantes, algo que vive independentemente, um organismo. Um organismo que evolui, que pode ser posto numa perspectiva histórica, e por meio do qual podemos aprofundar-nos em nossa própria existência histórica[5] e até no anônimo Volksgeist (TERRACINI, 1949: 25; LERCH, 1950: 195). Este organismo, através do véu do Romantismo, é considerado como um produto do espírito criador do homem; por isso, a concepção romântica da língua se embasa ainda num fundamento espiritual. A genealogia, a evolução deste organismo, não pode ser tratada pelos filólogos comparatistas e por gramáticos como Schlegel, Bopp, Grimm e Diez senão historicamente (TERRACINI, 1949: 25, 27, 131; NENCIONI, 1946: 107-9). Contra este excessivo predomínio da língua escrita a reação vem da Itália, o país românico em que os dialetos tiveram sempre uma importância muito grande. Foi, efetivamente, o indo-europeísta e romanista italiano Graziadio Isaia Ascoli com seus Saggi Ladini (ASCOLI: 1873: 1-556), ou seja, com um tratado histórico-geográfico dos dialetos reto-românicos, quem iniciou a Dialetologia Românica e desta maneira sublinhou a importância da língua falada, viva, e da observação direta da mesma (IORDAN-ORR, 1937: 10-11; POP, 1950: I, XXXVII, 487 e ss., 621-2).

Para o desenvolvimento da Lingüística Geral e também da Lingüística Românica tem uma importância decisiva o fato de que, até a metade do século XIX, depois que Bopp e Grimm estabeleceram os fundamentos da Lingüística como ciência histórica e depois que dos trabalhos de Wilhelm von Humboldt surgiu a Lingüística Geral, apesar da influência anti-naturalista e decididamente idealista deste último, a língua já não foi considerada como um organismo sobre base espiritual, mas, ao contrário, sobre base materialista (IORDAN-ORR, 1937: 13-14; NENCIONI, 1946: 107-9; TAGLIAVINI, 1952: 13-14). Na realidade, a Lingüística não pôde livrar-se da poderosa influência das ciências naturais, que fizeram enormes progressos naquele período, nem da influência do Darwinismo. Começa-se a conceber a língua como um organismo material, que se forma independentemente da vontade do homem, cresce, desenvolve-se segundo leis fixas e, por fim, envelhece e morre. Reconhece-se uma particular importância dos sons e se afirma que as mudanças fonéticas devem ter-se desenvolvido segundo leis rigorosas. Embora esta concepção puramente material da linguagem seja fundamentalmente equivocada, porque a língua não pode ser considerada como um organismo vivo independente do homem, do ponto de vista metodológico teve e tem ainda sua importância. Assim como, segundo Darwin, as ciências naturais não pretendem ser somente a descrição dos fenômenos naturais, mas, com a Introdução da causalidade, se convertem em história daqueles fenômenos, os lingüistas daquele tempo, com a colaboração do botânico e germanista August Schleicher, transformam sua ciência em história. Podemos certamente sorrir quando Schleicher reconstrói o indo-europeu primitivo, a extinta Ursprache, e constrói sua teoria da árvore genealógica (IORDAN-ORR, 1937: 13-14; LECOUTERE-GROOTAERS, 1948: 32-3; TAGLIAVINI, 1952: 13-14), e se pode afirmar jocosamente que deste método comparativo-reconstrutivo “sopra o vento dos bosques germânicos” (TERRACHER, 1924: 341); mas também não se pode desconhecer que, com a aplicação do método das ciências naturais à Lingüística, isto é, enquanto aplicou o método empírico-indutivo a Lingüística se dedicou à observação, à descrição e à comparação dos fatos menores e à constatação de sua evolução, foram estabelecidos os fundamentos da técnica histórico-naturalista na Lingüística, inclusive na Lingüística Românica. Esta concepção naturalista, como vimos, já estava presente de uma maneira disfarçada entre os lingüistas românicos. Com efeito, o mesmo Diez, segundo seu discípulo Gaston Paris, caracteriza seu método do modo seguinte: “Os fatos são o meu único assunto; eu os reúno e os julgo da melhor maneira que posso; isso é tudo” (RICHERT, 1913: 76).

Para Diez e para os outros lingüistas que estão sob o influxo do romantismo, a língua, apesar de se manifestar através da matéria, os sons, é um produto psíquico antes de tudo. O objetivo dos lingüistas que atuaram em Leipzig desde o princípio do último quarto do século XIX foi aproximar estas duas concepções contrárias, que consideravam a língua, respectivamente, como um produto físico e como um produto psíquico. Eles, em analogia com o movimento literário das junge Deutschland da primeira metade daquele século, foram chamados neogramáticos. A orientação neogramática, mais concretamente, seus primeiros representantes, A. Leskien, Hermann Osthoff e Karl Brugmann, chegam à evidência teórica de que foi dada atenção demasiada à língua em si e muito pouca ao homem, e que foi dada importância demais ao aspecto físico da língua enquanto se subvalorizou o psíquico, e negam a importância do estudo comparativo das antigas línguas indo-européias com o fim de construir uma Ursprache, reconhecendo o estudo das línguas e dos dialetos vivos, porque através destes estamos mais facilmente em condições de observar o aspecto psíquico da língua. Aceitam como proposição metodológica fundamental a Ausnahmlosigkeit ou falta de exceções das leis fonéticas e ao mesmo tempo atribuem um papel muito importante à analogia. Assim acolhem como princípio, ao lado do organismo, das leis fonéticas que operam cegamente, a grande importância do momento psicológico, individual, humano, da analogia, o que significa que uma modificação na maneira de agir das leis fonéticas deve ser atribuída à influência das formas já presentes na língua (IORDAN-ORR, 1937: 15 e ss.; LECOUTERE-GROOTAERS, 1948: 33-4; TAGLIAVINI, 1949: 75 e ss. e 1952: 15 e ss.).

Uma das chamadas “leis fonéticas” nos diz, por exemplo, que a vogal tônica latina ǒ, latim vulgar deu, em sílaba aberta, antigo francês ue, francês ö, (escrito eu, oeu): por exemplo, do latim cǒr> antigo francês cuer, francês coeur; do latim nǒvum> antigo francês nuef, francês neuf. A mesma vogal latina em sílaba aberta pretônica deu em antigo francês u (graficamente u se alterna com o e ou; na grafia moderna ou), por exemplo, latim prǒbare> antigo francês pruver, francês prouver. No italiano, no entanto, esta lei opera de tal modo que o ǒ latino em sílaba aberta se converte em uo se for tônica e fique inalterada se for pretônica (por exemplo, latim cǒr, nǒvum> italiano cuore, nuovo, mas latim prǒbare> italiano provare). Em conseqüência desta “lei fonética” o presente do indicativo do latim probare, em suas seis formas probo, probas, probat, probamus, probatis, probant, dá, no antigo francês: pruef, prueves, pruevet, provons (ou prouvons), pruvez, pruevent. Atualmente, por causa da analogia, ou seja, por influência das formas prouvons, pruvez, temos em todo o paradigma a vogal u em lugar de ö: prouve, prouves, prouve, prouvons, prouvez, prouvent.Ao contrário, em italiano, o ǒ latino sofre, no paradigma verbal (por exemplo, sono, sonas, sonamus, sonatis, sonant), não a influência analógica das formas cujo ǒ é pretônico, como em francês, mas precisamente a do ǒ em sílaba tônica: italiano suóno, suóni, suóna, suoniámo, suonáte, suónano (BOURCIEZ, 1937: 93, 138; SCHWAN-BEHRENS, 1932: 52, 71, 80, 211, 223, 228; NYROP, 1899-903: II, 21; CLÉDAT, [s. d.]: 572; TAGLIAVINI, 1949: 76-7).

Na prática, porém, os neogramáticos entraram em conflito com a sua teoria. Vale dizer que eles consideravam como o elemento predominante na língua não a analogia, mas as “leis fonéticas”. O lado fisiológico, representado pelas “leis fonéticas”, aquilo que é regular, constitui o fundamento em sua prática. Ainda em 1890 Wilhelm Meyer-Lübke, em Italienische Grammatik, p. VIII-IX, opinava que na analogia “dominam leis” e recomendou “que se encontrem as leis da Umprägung [isto é, da analogia]”. Buscavam refúgio na analogia quando se viam obrigados, pelas leis fonéticas, a fazê-lo; noutras palavras, quando não lhes restava outro remédio. Consideravam a analogia, o lado psíquico-individual, como algo ocasional e acessório, como uma exceção. No que se refere às cegas leis fonéticas que operavam sem exceções, a reação veio precisamente não contra elas, mas contra a denominação e contra sua formulação rígida e um pouco unilateral. “Se se tivesse dito: desenvolvimento regular, marcha constante, ninguém se teria preocupado; mas leis cegas, precisão astronômica, causou estranheza a todo o mundo”, disse M. Bréal (1921: 257.). Hugo Schuchardt nega, em 1885, a existência de leis que operem cegamente na linguagem (veja também em SCHUCHARDT, 1922: 435 e ss.). Segundo ele, as “leis fonéticas” não são leis naturais, porque não agem incondicionalmente, mas porque estão determinadas no espaço e no tempo, e tampouco agem de maneira totalmente inconsciente sobre os falantes. Schuchardt se põe contra as leis e a regularidade em geral, e destaca que numa comunidade lingüística existe uma infinita variedade, que é conseqüência da idade, do sexo, da classe social etc. dos falantes, que sempre deve ser levada em conta a Sprachmischung ou mescla de falares, e que cada palavra se encontra numa situação particular (PUŞCARIU, 1937: 138 e ss.; IORDAN-ORR, 1937: 31 e ss.; BALLY, 1944: 366; TAGLIAVINI, 1949: 75 e ss. e 1952: 15 e ss.).

Outro dos primeiríssimos adversários dos neogramáticos, Graziadio Isaia Ascoli (1886: 18-73.), volta-se contra eles por fazerem tantos discursos em torno do aspecto psicológico da língua, a analogia. Ele considera a analogia não como um fator psíquico, mas como a conseqüência de um fator fonético ainda desconhecido. Na realidade, Ascoli é hostil somente à teoria dos neogramáticos, ao que havia de novo em sua doutrina, mas não é contra a sua prática, e até se considera como um dos precursores da escola neogramática. Acreditava nas leis fonéticas e não via outra coisa na Lingüística além de “história natural demonstrada com evidência matemática”. Como os neogramáticos, não só Ascoli, mas também Schuchardt, havia operado na prática com as leis fonéticas sem exceções (IORDAN-ORR, 1937: 25 e ss.; BOTTIGLIONI, 1947-8: 4; TAGLIAVINI, 1949: 79).

Não levando em conta a primeira reação de P. J. Rousselot e L. Gauchat[6] contra as leis fonéticas que agem cegamente, fundamentada sobre fatos observados num dialeto, a reação mais proveitosa contra os neogramáticos veio ao final do século XIX e início do século XX, através da Geografia Lingüística e do fato de que se vinha delineando cada vez mais claramente a existência de uma Lingüística Estática ao lado da Lingüística Histórica. A distinção introduzida entre língua (langue) e fala (parole) pôs as chamadas “leis fonéticas” em seu devido lugar: na fala. Ou seja, no que é individual na estrutura lingüística, podemos estudar sincronicamente a formação das mudanças fonéticas; enquanto na língua, no que a estrutura lingüística tem de convencional, manifestam-se as mudanças fonéticas já admitidas pela comunidade. Toda a questão das leis fonéticas é uma questão de pontos de vista, como se depreende da oportuna observação de Antoine Meillet (1929:, 16: “A querela não se apaziguará nunca: os partidários da constância das leis fonéticas enfocam ‘a língua’, e seus adversários, ‘a fala’. Não falam de uma mesma coisa”.

Em conclusão, o erro dos neogramáticos não consiste tanto no que fizeram quanto no modo de fazê-lo. Supervalorizam o aspecto material da língua às expensas do aspecto psíquico, o qual, por uma parte, deve ser explicado pelo fato de que, sob o influxo do poderoso florescimento das ciências naturais na segunda metade do século XIX, por terem sido demasiadamente positivistas, e por outra, por ter sido descoberta entre 1870 e 1878 toda uma série de novas leis fonéticas, graças às quais algumas das mudanças fonéticas consultadas até aquele momento como exceções, puderam ser explicadas de maneira admirável (TAGLIAVINI, 1952: 15).

Não obstante, não há dúvida de que a escola dos neogramáticos estabeleceu os fundamentos da Lingüística, inclusive da Lingüística Românica. Introduziu, desenvolveu e precisou o rígido método histórico-comparativo. Recolhendo e explicando uma enorme quantidade de fatos lingüísticos, esta corrente desenvolveu um admirável trabalho de pioneiros, sem o qual seriam inconcebíveis a Lingüística Moderna e a Lingüística Românica. E na realidade, o lingüista cuja influência foi tão decisiva para a Lingüística Moderna, Ferdinand de Saussure, provém da escola de Leipzig dos neogramáticos, de Leskien, de Osthoff e de Brugmann, e lingüistas como Meillet, Grammont e Bally, todos discípulos de Saussure, descendem, definitivamente, da mesma escola (MEILLET, 1936: 174-5; IORDAN-ORR, 1937: 282; TAGLIAVINI, 1952:79 e ss., 117). Também a moderna Lingüística Anglo-saxônica da América respeita, ao menos em teoria, o método dos neogramáticos (ainda que com uma orientação voltada para o human behavior, o comportamento humano,[7] seguindo a teoria de Bloomfield, que tem um caráter naturalista e mecânico-materialista[8]), e o termo ‘neogramático não é, na América, um mote de reprovação ou de insulto, mas indica competência científica em Lingüística Histórica” (HALL, 1952: 2). Como resultado da atitude desta escola, na segunda metade do século XIX e no XX, apareceram para ficar somente no campo indo-europeu e mais particularmente das línguas românicas, entre outras coisas, os numerosos Grundisse e os manuais de gramática histórica e comparada, como são os Grundiss der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprachen de Brugmann-Delbrück para as línguas indo-européias e o Grundiss der romanischen Philologie de Gröber para as românicas etc.

Toda a obra do príncipe da moderna Lingüística Românica, Wilhelm Meyer-Lübke, vem da corrente neogramática, não só de sua prática, mas também de sua teoria. Meyer-Lübke reelabora inteiramente a Grammatik de Diez, faz a síntese detalhada de setenta anos de labor, e entre outras coisas leva em conta não só as línguas literárias, como Diez, mas também os dialetos. Sua Grammatik der romanischen Sprachen, apesar de antiquada em parte, ainda é a base da Lingüística Românica, e até hoje não existe nada melhor. Sua Einführung in das Studium der romanischen Sprachwissenschaft, que nem sempre pode ser seguida por um principiante (p. VII do prólogo), abre ainda hoje imprevisíveis perspectivas para o especialista e lhe permite aprofundar-se nos problemas e nas dificuldades do método histórico (Cf. Battisti, 1937: 13 e ss. da separata). Finalmente, seu Romanisches Etymologisches Worterbuch continua sendo fundamental e indispensável. Da mesma corrente histórica derivam, ainda, numerosas gramáticas, vocabulários, manuais, monografias e investigações de base histórico-comparativa, que são indispensáveis ao trabalho científico de um lingüista moderno no campo da romanística, como, entre outros, NYROP, 1989-903; GAMILLSCHEG, 1928; BOURCIEZ, 1946; WAGNER, 1920; RICHERT, 1934 etc.).

 

 

 

O Método Histórico-Comparativo

SUMÁRIO

Comparar é uma tendência universal dos homens. Experimentamos certo prazer em comparar certos fenômenos com outros; constatamos com satisfação, por exemplo, que duas pessoas se parecem, apesar de não haver entre ambas nenhum vínculo de parentesco, e nos alegramos por poder manifestar nossa constatação. Quando encontramos traços semelhantes em duas pessoas sem saber que são parentes, independente do prazer experimentado, fizemos uma descoberta com essa comparação. Essa tendência a comparar está na origem, certamente, de muitas descobertas científicas (PUŞCARIU, 1937: 13 e ss.). Mas, ao comparar, não estamos obrigados a chegar sempre a descobertas de caráter genealógico; podemos também simplesmente esclarecer certos fenômenos. O método comparativo, em Lingüística, não é necessariamente histórico e, inclusive, pode, apesar das afirmações contrárias de Saussure, ter um objetivo que não seja a reconstrução.[9] O método da Lingüística Histórica, ao contrário, só pode ser comparativo (SAUSSURE, 1949: 16 e ss.; MEILLET, 1925: 10; DAUZAT, 1949: 263-9).

Podemos assegurar, por exemplo, que em princípios do século XII a frase “conquistarei cidades” se dizia no antigo francês conquerrai citez (K. VORETZSCH, 1918: 89-91, 273), enquanto em francês moderno se diz je conquerrai des villes; ou seja, no século XII ainda não era usado o partitivo em francês. É um fato conhecido que o partitivo só aparece excepcionalmente no francês dos séculos XII e XIII (Foulet, 1930: 61 e ss.) e que o uso universal do mesmo em francês moderno se deve, entre outras coisas, ao fato de não existir hoje diferença de pronúncia entre o singular e o plural da maior parte das palavras (ville, villes).[10] Nos séculos XII e XIII, no entanto, ainda existia essa diferença (por exemplo, o singular do antigo francês citét, plural citez), já que em francês o s começou a ser mudo em fim de palavra somente a partir do século XIII. Vê-se claramente que, na realidade, a falta de diferenciação entre o singular e o plural é uma das causas pelas quais hoje necessitamos usar em francês o partitivo, quando confrontamos a tal propósito o francês com outras línguas. Em espanhol, por exemplo, em que não existe propriamente um partitivo (BOURCIEZ. Elém., 459 e 255) e em que se conservou o s em final de palavra, a frase conquistaré ciudades (=antigo francês conquerrai citez) é bem clara por si mesma. O italiano nos esclarece ainda mais, porque esta língua não usa o partitivo com as palavras que distinguem o singular do plural, mas apenas com aquelas que não fazem distinção. Com a palavra città, que é invariável no plural, o antigo francês conquerrai citez se traduz em italiano conquisterò delle città (com o partitivo), como no francês moderno (je conquerrai des villes). Quando, no entanto, em italiano, se distingue o plural do singular, não é necessário empregar o partitivo no plural, e assim se diz, por exemplo, conquisterò villaggi (diferente de villaggio) como no antigo francês.

Neste caso, para ilustrar o uso do partitivo em francês não teríamos tido necessidade de nos servirmos, para a comparação, de uma língua românica, mas poderíamos ter tomado qualquer outra língua a que pudesse ser atribuída a ausência ou a presença do partitivo, ou de uma construção sintática equivalente, à distinção ou à falta de distinção entre singular e plural. O método comparativo não se torna histórico-reconstrutivo neste caso, mas permanece apenas e simplesmente comparativo. Converte-se, ao contrário, em estados lingüísticos precedentes, dos quais devem derivar necessariamente os que são objeto de comparação, isto é, quando da comparação se passa à reconstrução e à genealogia.

A gramática comparativa das línguas indo-européias, por exemplo, que o latim centum, grego HEKATON, antigo irlandês cët, gótico hund, por uma parte, e o antigo indiano śatam e o lituano śimtas, por outra, concordam entre si, e reconstrói um indo-europeu *k@mto-m#. Esta última forma, portanto, é simplesmente a forma abreviada do acordo constatado. Nós dizemos que à palatal indo-européia k correspondem latim c, grego k@, irlandês c, germânico h, por um lado, e antigo indiano s (s ligeiramente palatalizado) e lituano s@ (sibilante palatal), por outro. Esta correspondência ficará como puramente casual enquanto não pudermos demonstrar com a comparação que aquela se repete num grande número de casos análogos, por exemplo, por um lado, o latim octo, grego OKTO, antigo irlandês ocht, gótico ahtau, e por outro, o antigo indiano as@tau e lituano as@tuni. A forma abreviada desta última correspondência é o indo-europeu reconstruído *ok#to[u»] (Cf. TAGLIAVINI, 1949: 138-9). Enquanto a língua originária indo-européia for desconhecida para nós, estas correspondências não ocasionais, mas regulares, se tornam significativas, mas não passam, definitivamente, de correspondências, e a língua indo-européia, de uma hipótese de trabalho. O que ainda era uma hipótese no campo da Lingüística Indo-Européia converteu-se pela primeira vez numa realidade científica na Lingüística Românica. O método comparativo se fez propriamente histórico primeiramente no campo das línguas românicas, pois somente para estas línguas é conhecida a língua originária, o latim, a partir do qual podemos seguir durante um intervalo de dois mil anos a evolução histórica destas línguas (WARTBURG, 1946: 4).

Enquanto as citadas correspondências que existem entre o latim octo, grego OKTO, antigo irlandês ocht, gótico ahtau, antigo indiano astau, lituano as(tuni e entre o latim centum e as outras formas análogas não são mais que correspondências baseadas num fundamento de comparação científica, é um fato que o francês huit, italiano otto, espanhol ocho, catalão vuit, romeno opt derivam do latim octo: um fato evidente historicamente, pois sabemos que as línguas românicas procedem do latim. Mas a evidência não é suficiente; é necessário prová-la cientificamente. Ao considerar que o grupo consonantal -ct- (em octo) deu em francês -it-, em italiano -tt-, em espanhol -ch- e em romeno -pt-, e que em todas as línguas românicas se obtêm sempre os mesmos resultados do latim -ct- (por exemplo, latim nocte(m) > francês nuit, italiano notte, espanhol noche, romeno noapte; latim factu(m) > francês fait, italiano fatto, espanhol hecho, romeno fapt etc.), a realidade de que o francês huit, italiano otto, espanhol ocho e romeno opt derivam do latim fica demonstrada pelo método comparativo (Cf. TAGLIAVINI, 1949: 138-9).

Os exemplos que se seguem pretendem demonstrar a realidade histórica do método comparativo aplicado à Lingüística Românica. Confrontemos o francês oreille, italiano orecchia, espanhol oreja, português orelha e o romeno ureche. Nestas cinco palavras, que apresentam uma evidente semelhança, a primeira sílaba mostra uma correspondência surpreendente (or-, ur-), e as outras, uma grande diferença (-eille, -ecchia, -eja, -elha, -eche). A forma corrente em latim para ‘orelha’ é auris, com a qual não é possível fazer corresponder a segunda parte das palavras românicas. Mas existe também o derivado latino auricula, com o qual poderiam muito bem se relacionar as palavras românicas. Se confrontarmos as denominações românicas da orelha com as do olho, por exemplo, (francês oeil, italiano occhio, espanhol ojo, português olho e romeno ochiu), para as quais é evidente a origem referida ao latim oculus, constatamos que o elemento consonântico da segunda parte das palavras românicas é o mesmo, tanto para ‘orelha’ como para ‘olho’: francês il(le), italiano cch, espanhol j, português lh e romeno ch; e ao mesmo tempo comprovamos que as palavras românicas que designam a orelha vêm do latim auricula e não do latim auris. Outras comparações nos mostram que o francês il(le), italiano cch, espanhol j, português lh e romeno ch não devem remontar-se ao latim -cul- diretamente (como em auricula, oculus), mas ao latim -cl-; e o Appendix Probi (século III), que ao lado das formas latinas registra as formas “incorretas” que estavam em uso no latim vulgar, nos diz, por exemplo, nas glosas 3, 4, 7, 8, 9 e 111, que realmente se deve dizer speculum non speclum, masculus non masclus, vernaculus non vernaclus, articulus non articlus, baculus non baclus e oculus non oclus (GRANDGENT. Introd., 289 e 291). Com o método comparativo nos remontamos, portanto, ao passado, até à forma latina auricla. Mas, com este método, podemos nos aproximar ainda mais da verdade histórica.

Com efeito, ao comparar as línguas românicas, considerando o resultado do ditongo latino au, vemos que deu em francês, italiano, espanhol e catalão o, em português ou, enquanto ao contrário, se conservou em romeno e em provençal (por exemplo, aurum e taurum continuam em francês or, antigo francês tor, italiano oro, toro, espanhol oro, toro, catalão or, toro, mas em português ouro, touro, em romeno aur, taur, e em provençal também aur, taur) (MEYER-LÜBKE, 1890-92: I, 236). O português orelha (cf. português ouvir < latim audire) (NUNES, 1930: 77, 78 e 124) e o romeno ureche (cf. romeno uccid ‘ouvido’<latim occido) (PUŞCARIU, 1943: 217-8) não podem, portanto, vir do latim vulgar auricla, mas do latim vulgar oricla (RICHERT, 1934: 39; PUŞCARIU, 1943: 217-8). Enquanto o francês oreille, italiano orecchia, espanhol oreja e catalão orella poderiam ser continuadores de ambas as formas do latim vulgar, o antigo provençal aurelha e o provençal auriho (WARTBURG, 1928 e ss.: I, 179) vêm do latim auricla. (MEYER-LÜBKE. REW, n° 793) Aplicando o método comparativo, chegamos à conclusão de que as palavras românicas para ‘orelha’ não vêm do latim auris, mas de um latim vulgar oric(u)la, auric(u)la, uma palavra popular que realmente se encontra em Plauto, Cícero, Plínio, Festo[11] e no citado Appendix Probi (glosa 83: auris non oricla),[12] e que já no tempo de Sila era a palavra usual para auris (MARX, 1909: 436-7). Neste caso, o método comparativo significa o mesmo que história lingüística.

Grande número de comparações deste tipo provou que as línguas românicas não procedem do latim clássico, mas do latim vulgar. Assim, em qualquer gramática história se encontra que as vogais do latim clássico ĭ, ē (salvo raras exceções – evoluem para ê no latim vulgar, e que esta vogal, quando é tônica e se encontra em sílaba livre, dá, por sua vez, no rético ei e mais tarde ai (MEYER-LÜBKE, 1890-2: I, 96-7), no italiano e, no siciliano i, no francês ei e mais tarde oi, no espanhol e. Contudo, chegou-se a esta conclusão, comparando palavras românicas entre si e com o latim clássico. Por exemplo, o rético (engadinês) pail, pair, taila, vair, o italiano pêlo, pêra, têla, vêro, o siciliano pilu, pira, tila, viru, o francês poil, poire, toile voire (antigo francês peil, peire, teile, veir), o espanhol pelo, pera, tela, vero, mostram claramente que estas palavras não derivam do latim clássico, de palavras com as vogais ĭ, ē como se encontram em pĭlum, pĭra, tēla, vērum, mas de palavras que apresentam uma idêntica vogal; de outro modo não poderíamos esperar nestas línguas românicas sempre a mesma vogal (ou o mesmo ditongo). A vogal que sugerem foneticamente as palavras italianas como ê, as sicilianas com i, as espanholas com e e as reto-românicas e francesas, respectivamente, com ei>ai e com ei>oi, é uma vogal latina vulgar (ou do românico comum) ê fechado (MEILLET, 1922: 23-4; MEYER-LÜBKE, 1890-92: I, 84). Não importa se esta vogal ê está documentada ou não em latim vulgar; as línguas românicas demonstram sua existência com inúmeros exemplos, como também demonstram a existência de um ô em latim vulgar em vez do ŭ e o@ do latim clássico. Por outra parte, o ê esta documentado na realidade e precisamente nas inscrições e textos semelhantes, onde a língua falada obtém maior dignidade e nas quais, a partir do século III depois de Cristo, encontramos escrito e em vez de ĭ. Por isto, no caso da mudança do ĭ, e em ê, por causa da comparação de inúmeros casos e de sua surpreendente regularidade, fica excluída toda casualidade.

Vejam-se também exemplos no campo da morfologia. Para a terceira pessoa do plural do perfeito do indicativo de dicere e facere existiam em latim clássico, respectivamente, as três formas dixĕrunt, dixēre, dixeērunt e fecĕrunt, fecēre, fecērunt. Se comparamos o antigo francês distrent, francês dirent, antigo francês e francês firent, italiano dissero, fecero, romeno zíseră, feaceră, vemos que o acento recai sobre a primeira sílaba em todas as línguas românicas e que esta acentuação é condição requerida para o desenvolvimento regular das formas românicas. Já que nas palavras latinas polissílabas o acento recaía sobre a penúltima sílaba quando esta era longa e sobre a antepenúltima quando a penúltima era breve, as formas românicas devem proceder do latim vulgar díxĕrunt, fécĕunt (este último se encontra em Plauto, por exemplo), que têm o acento sobre a primeira sílaba (NIEDERMANN, 1953: 18; MEYER-LÜBKE, 1926: 202; GRANDGENT, 1928: 271; BOURCIEZ, 1946: 38; SCHWAN-BEHRENS, 1932: 230; MEILLET, 1922: 29 e ss.).

O rético (engadinês) savair, italiano cadere, sapere, siciliano cadiri, antigo francês cheoir, francês choir, savoir, antigo provençal cazer, saber, catalão saber, espanhol caer, saber, português cair, saber etc., não podem ser as continuações do latim cádere, sápere, entre outras coisas, por causa do acento, que não recai nunca na primeira sílaba, e dos ditongos do francês e do rético, que, como vimos, remontam a um ê tônico. Para poder explicar as formas românicas devemos partir do latim vulgar *cadêre, *sapêre, que devemos postular, embora não estejam documentados, com base nas formas românicas, já que não é possível que a mudança de conjugação -ěre > -ēre e o deslocamento do acento correspondente tenham sido produzidos independentemente nas várias línguas românicas.[13] Com o latim vulgar *cadêre, *sapêre, não supomos a existência de palavras que não tenham existido nunca, mas somente as transformações do latim cádere, sápere no latim vulgar.

Mas, aplicando o método comparativo, podemos confirmar a existência, fundamentados nas línguas românicas, de palavras latinas até hoje duvidosas ou pouco conhecidas, e até descobrir algumas desconhecidas. Assim, por exemplo, guiando-nos pelo sardo ansa, italiano ansia, antigo francês ainse, antigo provençal aisa, espanhol ansia, portugês ânsia, catalão ànsia, todas com o mesmo significado do italiano supôs-se a existência de uma palavra latina vulgar anxia. Esta foi descoberta em realidade, mas até que os latinistas soubessem que esta palavra, que aparece uma só vez, é a base das vozes românicas, eles queriam corrigi-la em angor, angĭna, porque não acreditvam que anxia fosse um vocábulo vivo (GRÖBER, 1884: 242; ROSSBERG, 1884: 564; MEYER-LÜBKE. REW, n° 509; WARTBURG, 1928: I,102; WAGNER, In: VKR, VI: I (da separata) e 1949: 3 e ss.).

A propósito do latim anxia, não podemos esquecer que o tesouro lexical latino não nos é conhecido em sua totalidade, que os dicionários não poderão nunca transmitir-nos todo esse tesouro tal como era, e que tampouco os textos (que têm sempre características mistas e artificiais) estão em situação de representar-nos o léxico integral de um determinado período (Cf. BRUNOT, 1905: I, 102 e ss.).

Existe toda uma série de palavras latinas que, como a citada anxia, apesar de aparecer só por casualidade em um ou dois textos, eram bastante comuns. Assim, por exemplo, o fundamento latino das denominações românicas de uma espécie de doce ou pão cozido ao forno ou na brasa, italiano focaccia, siciliano fuazza, sardo (logudorês) covazza, francês fouace, catalão fogassa, espanhol hogaza, português fogaça, que derivam do latim focacia plural neutro de focacium. Na Itala encontramos duas vezes fǒcacium, mas na Vulgata aparece chamado subcinericium panem parvulum; fora disto, a palavra em questão só se encontra nas Origines de Isidoro de Sevilha (século VII) (SOFER, 1930: 23). Apesar de sua escassíssima documentação, trata-se de um vocábulo bastante vivo no latim falado, como no-lo demonstram as línguas românicas. E se não possuíssemos esta escassíssima documentação, poderíamos supor, pela simples comparação das vozes românicas, primeiramente, que as ditas vozes estão em relação com o latim focus, “lareira”, ‘fogo’, e em segundo lugar, que não podem ser derivações românicas, visto que, sem falar de outras coisas, deveriam ter resultado do francês feu e do espanhol fuego (<latim focus) com o sufixo francês - asse (-ace) ou espanhol -aza (que são os continuadores regulares do sufixo latino -acea), mas não o francês fuace e espanhol hogaza, mas algo assim como o francês *feuasse (*feuace) e espanhol *fuegaza. Daí se conclui que estas vozes românicas estejam certamente em relação com a latina focus, mas que não podem ser derivações dos continuadores românicos desta palavra, a derivação deve ter ocorrido, portanto, não no românico, mas no latim. Se não tivessem aparecido documentados focacium, focacius na Itala e em Santo Isidoro de Sevilha, teríamos podido supor com segurança a existência da palavra latina, baseando-nos nas línguas românicas (DIEZ, 1887: 142; MEYER-LÜBKE, 1890-92: II, 457 e ss. e 1935, n° 3396; NYROP, 1899-1903: III, 96 e ss.; WARTBURG, 1928: 647-8.).

A reconstrução de palavras latinas fundamentada na comparação das línguas românicas é cientificamente tanto mais considerável quanto mais numerosas são as formas românicas que podem ser abarcadas na comparação. Cada caso deve ser considerado como um caso especial e fazer provável a reconstrução com toda classe de dados. Pôde-se considerar provável a existência de uma voz latina *acutiare não documentada porque existem o italiano aguzzare, o sardo (logudorês e galurês) akutare, o francês aiguiser, o antigo provençal aguzar, o espanhol aguzar, o catalão aguar, o português aguçar, e, além disso, porque *acutiare pode ser sem dificuldade um derivado do particípio perfeito acutus do latim acuere, verbo que já não vive em nenhum romance. A derivação indicada é ainda mais provável ao se considerar que acutare está documentado desde o século III e que aparece nas glosas também uma forma latina acutiator. Compreende-se que a evolução fonética de *acutiare nas formas românicas (no que se refere ao grupo -ti-) deve corresponder à das outras palavras românicas usadas para a comparação, que derivem de palavras latinas em que se encontram os mesmos sons ou grupos de sons de *acutiare (GRÖBER, 1884: 235; PIDAL, 1952: 4; MEYER-LÜBKE, 1935, n° 134; WARTBURG, 1928: I, 26-7).

Enquanto, no tocante à fonética, à morfologia, à formação de palavras e ao léxico, estamos em condições de reconstruir, com a comparação das línguas românicas às condições lingüísticas do latim pré-românico (Gemeinromanisch), uma simples reconstrução no campo da sintaxe românica é naturalmente, mais difícil. É bem sabido que a afinidade elementar (elementare Verwandtschaft) é um fenômeno bastante natural e comum, tratando-se de fatos sintáticos (SCHUCHARDT, 1913: 13) e que a innere Sprachform se manifesta sobretudo nessa “faculdade do espírito” (GOSSEN. 1951: 148) que é sintaxe (TERRACINI, 1949: 215, 226 e 227.). Daí que a regularidade que podemos constatar, por exemplo, no campo fonético e morfológico, diminui na sintaxe. Sendo assim, como o método histórico-comparativo se baseia na regularidade e nas correspondências constantes, torna-se mais difícil aplicá-lo à sintaxe. Na realidade, é muito difícil, mediante o método comparativo, estabelecer a antigüidade de um fenômeno sintático (TERRACINI, 1940-1: 8 e ss.; TERRACINI, 1949: 155 e ss.).[14]

Os outros fatores que mais dificultam o trabalho neste campo sobre a base histórico-comparativa são a sintaxe latina e a francesa. Começando por esta última, cuja situação privilegiada é bem conhecida, entre todas as línguas românicas é na francesa onde a sintaxe, tanto histórica como descritiva, tem sido muito mais estudada e conhecida, fato que nasce de motivos, inclusive, estranhos à Lingüística, como é a excepcional riqueza da literatura francesa já a partir da Idade Média e, por conseguinte, o imenso material que, desta maneira, se fazia possível à observação sintática; e também o caráter universal e internacional do francês que fez nascer em toda parte a necessidade de dominar bem esta língua em sua forma falada e, sobretudo, em sua forma escrita. Além de ser o francês, com muita vantagem, a mais estudada das línguas românicas no que se refere à sintaxe, é também uma fonte quase inesgotável para as investigações sintáticas, dada a excepcional variedade de sua sintaxe. Precisamente porque esta é tão conhecida e estudada, enquanto a das outras línguas românicas tem sido até agora só parcialmente examinada, a sintaxe espanhola, por exemplo, foi até tempos recentíssimos, tratada repetidamente sob o modelo da francesa e posta formando um corpo com esta última (CRIADO DE VAL, 1948: 17 e ss. e 1951: 95).

Quanto à influência da sintaxe do latim clássico, podemos afirmar que servia mais de modelo à espanhola melhor do que o francês (CRIADO DE VAL, 1951: 95). A influência da sintaxe latina sobre o italiano é enorme desde o início da língua literária, por exemplo, em Guido de Arezzo, no século XIII (VOSSLER, 1929: 87; HERCZEG, 1951: 159), culmina com Boccaccio (MIGLIORINI, 1943: 116) e é tão perceptível ainda em tempos recentes que as prevenções latinas freqüentemente impossibilitam a observadores italianos e estrangeiros distinguir os fenômenos da sintaxe italiana dos da latina (SPITZER, 1942: 119). Por isso, ainda hoje na Itália, no ensino da sintaxe italiana nas escolas secundárias, se insiste em fazer ressaltar as diferenças entre as sintaxes italiana e latina e em comparar as duas línguas do ponto de vista sintático (ELWERT, 1943: 101 e 106).

Quando se fala da influência da sintaxe latina nas línguas românicas, entende-se naturalmente, a influência dos falantes de línguas românicas que conhecem o latim. Como é sabido, em todas as épocas podem ser observados nessas línguas os chamados latinismos, ou seja, palavras latinas mais ou menos adaptadas. O francês vice, italiano vizio, distinguem-se imediatamente como membros faltos de correspondência no quadro comparativo, se forem confrontados com o francês poil, poire, italiano pelo, pera, espanhol pelo, pera (<latim pĭlum, pĭra): por causa do i da primeira sílaba em vez de e ou oi, tornam-se elementos eruditos, cultismos, que não derivam do latim vulgar (no qual o ĭ e o ē latinos se tornam ê, como já vimos na página 43), mas que foram tomados mais tarde diretamente do latim vitium (MEYER-LÜBKE, 1935, n° 9396.). Contudo, naturalmente, as coisas aparecem de modo muito diferente na sintaxe.

Assim, por exemplo, tem chamado a atenção o fato de que, na frases completivas (subjetivas e objetivas), a justaposição é um fenômeno arcaico e popularizante, não só nas línguas românicas e indo-européias, mas também nas não indo-européias. A sintaxe do húngaro, para citar um caso entre muitos, no período clássico de sua literatura, ou seja, na segunda metade do século passado, está caracterizada pela parataxe das completivas, que se deve a prevalecerem na literatura húngara, naquele período chamado nacional-popular, temas e argumentos tomados da poesia popular. Para as línguas neolatinas já se assinalou que em francês, italiano e romeno, por causa da grande influência da sintaxe do latim clássico, a justaposição pôde ser mantida somente nos casos em que a língua popular fez valer sua influência (LERCH, 1925: I, 36 e ss., 43 e ss.; NILSON-EHLE, 1947; HERCSEG, 1951: 153 e ss.). Se quiséssemos, então, comparar as línguas românicas, sob este aspecto sintático, chegaríamos à conclusão de que a justaposição era menos usada no latim vulgar: uma conclusão completamente equivocada, pois a justaposição era empregada profusamente no latim vulgar como em toda linguagem popular (BOURCIEZ, 1946: 125-6).

Aplicando o método histórico-comparativo é preciso, pois, para chegar à sintaxe do latim vulgar, confrontar antes a sintaxe das línguas românicas com a do latim. Por causa da grande influência latina, que no plano sintático é mais dificilmente perceptível que em qualquer outro plano, esta é uma das primeiras exigências. Contra o desconhecimento desta influência, por exemplo, na língua francesa, são bem oportunas as seguintes palavras do estudioso francês de problemas sintáticos Gougenheim (1934: 173):

Quando de Boer escreve (BOER, 1933: 86): “Um romanista deve certamente saber latim. Mas deve compreender, por fim, que a sintaxe francesa desenvolveu, assim como a do inglês ou do holandês, sem haver imitado nunca a sintaxe do latim clássico”, parece-nos muito absoluto. Como negar que nossa língua escrita foi feita por gente que falava e escrevia o latim? Em particular, o sistema das conjugações, tão pobre no francês mais antigo, foi completado e enriquecido pelos latinistas (remetemo-nos à exposição do Sr. Lerch em sua sua obra supracitada [1925: I, 37 e ss.]).

E a opinião de um especialista italiano seria sem dúvida ainda mais negativa se alguém pretendesse minimizar a mesma influência sobre a sintaxe italiana.

Num estudo sintático em terreno românico, as línguas românicas, além de serem comparadas com o latim, devem ser comparadas não simplesmente com “outras línguas”, mas, sobretudo, umas com as outras.[15] Para ilustrar esse conceito, consideremos o subjuntivo, e mais particularmente o subjuntivo nas frases interrogativas indiretas.

No referente ao subjuntivo em geral, sabe-se que este modo domina a sintaxe latina, e que sua importância começa a diminuir no latim vulgar. Enquanto no francês literário de hoje se diz je doute qu’il vienne, no uso comum existe a tendência de evitar o subjuntivo (je doute s’il viendra), e uma frase do tipo s’il fait cela et qu’il dise ce qu’il pense, il aura tort soa, atualmente, como um pouco antiquada (MEILLET, 1925: 92).

Se pode ser sustentado que o subjuntivo, em francês, nas orações subordinadas, “com exceção da relativa explicativa” (BOER,, 1922: 126-7), só serve para expressar a subordinação (“o subjuntivo serve para subordinar uma idéia a outra e nada mais!”) BOER, 1922: 84-5; BOER, 1947: 269 e ss. e 325), tal afirmação é insustentável para o espanhol. O sistema de subjuntivo especial e complicado desta língua, no qual existem, na competência, quatro formas, ou seja, o futuro, o imperfeito em –ra, o imperfeito em -se e o condicional, reflete, ao contrário do francês, a disposição psicológica de toda a mentalidade espanhola sobre um amplo fundamento afetivo. Em espanhol, o subjuntivo não é somente um “modo” gramatical, mas também uma “modalidade” oposta ao indicativo. O uso do futuro do subjuntivo, uma particularidade do subjuntivo espanhol, está estreitamente ligado, por exemplo, a certas fórmulas da novela cavalheiresca, à literatura mística e à novela picaresca (CRIADO DE VAL, 1948: I, 175 e 1951: 104-5; TOGEBY, 1953: 92-7, 116-7 e passim). Constatamos assim que, enquanto o espanhol, neste aspecto, escolheu um caminho próprio e particular, pode-se sustentar que, tanto na língua francesa de uso comum quanto no latim vulgar, o subjuntivo está em declínio (DAUZAT, 1950: 281-3).

No que diz respeito ao subjuntivo nas interrogativas indiretas, usa-se em francês o indicativo (dis-moi qui est venu), em italiano o indicativo (dimmi chi è venuto) ou o subjuntivo,[16] em espanhol o indicativo (dime quién ha llegado) (TOGEBY, 1953: 16 e ss., 83 e ss., 101 e 108; BADÍA MARGARIT, 1953: 95 e ss.). Mediante esta comparação não podemos nos remontar ao latim clássico, que nas interrogativas indiretas usava o subjuntivo (dic mihi quis venerit, Cícero), mas ao latim vulgar, que nas mesmas frases empregava o indicativo (dic mihi quis venit, Plauto). A respeito deste duplo uso sintático temos o testemunho formal do gramático latino Diomedes (século IV): Inperitia lapsi, cum dicunt nescio quid facis, nescio quid fecisti. Eruditius enim dicetur nescio quid facias, nescio quid feceris (BOURCIEZ, 1946: 123-4). Talvez se objetará que, neste caso, cada língua românica poderia ter-se distanciado do uso do subjuntivo independentemente do latim vulgar ou simplesmente fazer uso do indicativo, como, por exemplo, o húngaro, que também usa o indicativo nas interrogativas indiretas (mondd meg ‘dize’ neken ‘para mim’ ki ‘quem’ jött ‘veio’); mas esta explicação nos parece improvável, mas possível. O fato de, neste caso, o italiano e o espanhol, línguas que em geral são bastante menos contrárias que o francês ao uso do subjuntivo e, nas quais, este modo goza de certa valorização afetiva, terem escolhido o indicativo, é certamente significativo: sobretudo o italiano, que em toda interrogativa indireta anteposta, como também em toda subjetiva ou objetiva anteposta, usa sempre o subjuntivo.[17] Em resumo: não podemos pretender, no campo da sintaxe, a mesma segurança que se tem, por exemplo, no caso do francês poil, poire, italiano pelo, pera, espanhol pelo, pera, rético (engadinês) pail, pair etc., formas que com toda certeza se remontam não ao latim clássico pĭlum, pĭra, mas ao latim vulgar pêlo, pêra.

Em princípio, os fenômenos sintáticos do latim vulgar podem ser reconstruídos no campo da sintaxe como nos outros campos.[18] Mas, realmente, deve-se empregar nessa tarefa muito maior atenção, como se vê pela opinião expressa a este respeito por Meyer-Lübke, que admite, em princípio, também, à semelhança das reconstruções do latim vulgar no que se refere ao léxico, a reconstrução da sintaxe do latim vulgar tendo por base as línguas românicas.[19] O que Meyer-Lübke (1925: I, 20) escreveu em a propósito das Aufsätze zur romanischen Syntax und Stilistik de Léo Spitzer, é talvez, o que mais se aproxima da realidade:

Seguindo sua tendência de ver em todas as partes o universal humano, o autor não investiga aqui nem a questão de por que este universal humano se manifesta aqui de um modo e ali ao contrário, nem como umas línguas desenvolvem, extraordinariamente, certos tipios enquanto outras mal os conhecem.

Por muito importante que possa ser este “universal humano” no campo da sintaxe (hoje em dia deveríamos chamá-lo, com Saussure, “pancrônico” (SAUSSURE, 1949: 134 e ss.; VAN WIJK, 1939: 165-80; cf. também TERRACINI, 1949: 16-3, 183; DEVOTO, 1951: 56 e 83.)[20]), também hoje o método histórico-comparativo mantém seu pleno valor, inclusive para a sintaxe. Seria metodologicamente um erro não exercer historicamente o método comparativo neste terreno, isto é, contentar-se em estabelecer o que é universalmente humano e ter que chegar, antes de tudo, à sintaxe comparada das línguas européias, ou melhor, à das diversas línguas românicas separadamente, comparando-as com as línguas não-românicas (BOER, 1947: 8). Pelo contrário, deve ser estabelecido não o que é “universal humano’ (“pancrônico”), mas o que é panromânico. Noutras palavras: deve-se trabalhar primeiramente sobre o plano histórico-comparativo e depois sobre o puramente comparativo. Se a primeira maneira de trabalhar falhar, isto é, se um fato sintático não puder, historicamente, remontar-se ao latim vulgar, a comparação com outras línguas não-românicas mostrará o que há nele de “universal”. Se a comparação histórica mostrar o contrário, e a comparação com as línguas não-românicas provar que se trata de um fato também universal, como no caso das interrogativas indiretas românicas, a explicação “pancrônica”, embora não seja impossível, terá pouca probabilidade.[21]

Vejamos outro exemplo. Afirma-se que o pronome impessoal francês on, provençal hom, não deriva do latim homo e tampouco foi criado sob a influência do germânico man (MEILLET, 1936: 95; DAUZAT, 1947: 211 e 1948: 43-4), mas que é uma criação literária do antigo francês ou do antigo provençal, e o uso do italiano uomo, espanhol hombre, português homem como pronome impessoal é atribuído à influência francesa e provençal respectivamente (WEERENBECK, 1943: 1-108). Depois que foi demonstrado, mais tarde, que o latim homo aparece já em Catão (Agr., 157, 8 e 48, 1-2) com o sentido indeterminado de “homens”, ou melhor, de “se” (HACAMIES, 1948: 194-6), deve ser rejeitada a explicação galo-românica ou germânica e devem ser considerados os fatos históricos (latinos), além dos pancrônicos.[22]

Aplicando o método histórico-comparativo às línguas românicas pôde ser postulada a existência de toda uma série de palavras e outros elementos no latim vulgar. A existência de muitas destas formas supostas pôde ser provada mais tarde com testemunhos documentais, e, assim, o método teve confirmação. Mas ficou uma parte que deve ser considerada meramente suposta e que é indicada com um asterisco. Assim, por exemplo, Gustav Gröber, entre 1884 e 1889, reconstruiu baseado em comparações românicas em seus Vulgärlateinische Substrate romanischer Wörter, em ALLG, toda uma série de palavras latinas vulgares, cuja existência foi confirmada mais tarde, por exemplo, a de anxia, mas não a de *acutiare. O estudo de Gröber formou o núcleo do Dicionário Etimológico das Línguas Românicas redigido mais tarde por Meyer-Lübke (Cf. SPITZER, 1929-30: II, 335). No REW de Meyer-Lübke, as palavras que levam asterisco, ou seja, reconstruídas, foram aproximadamente 10% das 10.000 que encabeçam os artigos (BATTISTI, 1949: 60; TAGLIAVINI, 1952: 175).

A questão das formas hipotéticas, deduzidas pelo método histórico-comparativo, tem feito gastar muita tinta. O método de Meyer-Lübke toma uma posição chave na discussão. Em seu estudo Die lateinische Sprache in den romanischen Ländern, publicado na primeira edição do Grundriss de Gröber (1883-1888: 359), concede para nosso conhecimento do latim vulgar uma menor importância a todas as outras fontes (vulgarismos dos autores latinos, gramáticos, lexicógrafos latinos, inscrições latinas etc.) que à comparação das próprias línguas românicas, de modo que, segundo ele, no caso de incerteza, esta comparação é mais decisiva do que todas as demais fontes (IORDAN-ORR, 1937: 22). Desta maneira, Meyer-Lübke, como Gröber, quis separar o latim vulgar do latim clássico, e o representou como algo homogêneo, uniforme. Apesar das violentas e justas críticas dos latinistas, que protestaram em termos severos contra a confusão entre este romanisches Konstruktionslatein ou Phantasielatein e o autêntico historisches Volkslatein  e que propuseram a denominação de romanisch zu erschliessendes Quell-latein que não devia confundir-se com o latim vulgar, Meyer-Lübke manteve sua extremíssima posição até em sua Italienische Grammatik (Leipzig, 1890) e em sua Grammatik der romanischen Sprachen (MEIER, 1940: 176-7). Ao final do século XIX e princípio do século XX, Meyer-Lübke modificou sua idéia de um latim vulgar separado e homogêneo, e aceitou a opinião, que é a única correta, ou seja, que só existe uma língua latina, da qual o chamado latim vulgar é apenas um aspecto. Esta modificação de conceito é vista melhor na segunda edição do estudo há pouco citado (cf. Meyer-Lübke, 1904: 451-97 e MEIER, 1940: 178).

Naturalmente, Meyer-Lübke reconstrói continuamente o latim vulgar sempre que existe motivos decisivos para isto. O fato de alcançarem as formas do latim vulgar reconstruídas em seu REW apenas 10% do total demonstra que a reconstrução, nas línguas românicas, tem uma importância relativamente limitada em relação com outros campos lingüísticos (línguas germânicas e eslavas). Portanto, a censura que tem sido feita à Lingüística Românica de que na reconstrução por comparação tenha ido muito longe, imitando demasiadamente a Lingüística Indo-Européia, não está justificada (TERRACHER, 1924: 341).

Sem motivos decisivos, o latim vulgar não é reconstruído. É reconstruído somente quando a palavra suposta em latim é encontrada em diversas línguas românicas e as diferentes formas românicas desta palavra não poderiam ter surgido independentemente em cada língua. Estas duas premissas estão em mútua correlação. Quanto mais numerosas são as línguas neolatinas em que é encontrada uma palavra hipotética, tanto maior é a probabilidade de se tratar de uma palavra do latim vulgar, isto é, que não tenha surgido independentemente nas línguas românicas. Se uma forma hipotética é encontrada somente numa língua românica, então é grande a probabilidade de que tenha surgido nela independentemente. A existência do latim anxia foi postulada com base em sete línguas românicas, e não podia tratar-se de uma palavra surgida independentemente em todas elas. Com efeito, mais tarde foi documentada. A existência de um latim vulgar *acutiare tornou-se provável com base em seis línguas românicas, já que as formas românicas não podem ter surgido independentemente nas seis. O italiano avanzare, francês avancer, provençal avansar, supõem um latim vulgar *abantiare, já que as formas italiana e francesa, por exemplo, por causa da sibilante (cf. *acutiare.), não poderiam ter surgido diretamente do francês avant e italiano avanti (as derivações de avant e avanti teriam sido em francês e italiano *avanter e *avantiare respectivamente) (MEYER-LÜBKE, 1935: X). Mas seria completamente equivocado, por exemplo, supor uma forma latina vulgar nitidiare baseado apenas no francês nettoyer (de nitidus ‘limpo’ com o sufixo -idjare > -oyer) (NYROP, 1899-903: III,  202; MEYER-LÜBKE, 1921: 133-4), já que o francês nettoyer, documentado no século XII, pode ser uma derivação do francês net (GAMILLSCHEG, 1928: 636; BLOCH-WARTBURG, 1932: II, 90), independentemente do latim.[23]

O método histórico-comparativo, partindo das línguas românicas e convergindo para o latim vulgar, pôde demonstrar assim, por indução, que as línguas românicas derivam do latim vulgar. Se, então, ao contrário, partindo do latim vulgar, chegarmos às diversas línguas românicas e desta maneira fizermos história da língua, isto só poderá ser feito também de maneira indutiva, com o método comparativo. Coloquemos, por exemplo, o francês miel ao lado do latim vulgar mel (latim mĕl) e afirmaremos que o ę do latim vulgar passou a ie em francês. Se quisermos saber agora se esta mudança é casual ou não, e em que condições ocorreu, deveremos trabalhar comparativamente. Comparemos o latim vulgar męl > francês miel de um lado com o latim vulgar fęl > francês fiel, latim vulgar cęlu > francês ciel, latim vulgar pęde > francês pied etc., e de outro lado latim vulgar septe > francês sept, latim vulgar tęsta > francês tête, latim vulgar fęrru > francês fer etc., e concluiremos que o ę tônico do latim vulgar passou em francês a ie, não incondicionalmente, mas apenas em sílaba aberta, permanecendo imutável em sílaba fechada. Se compararmos, por exemplo, o latim vulgar męl > espanhol miel, de um lado, com o latim vulgar cęlu > espanhol cielo, latim vulgar fęl > espanhol hiel, latim vulgar pęde > espanhol pie etc., e do outro o latim vulgar septe > espanhol siete, latim vulgar testa > espanhol tiesta, latim vulgar ferru > espanhol hierro etc., chegamos à conclusão de que o e tônico do latim vulgar, em espanhol, diferentemente do francês, se converteu em ie tanto em sílaba aberta quanto em sílaba fechada.[24] Assim vemos que o método histórico em nossa ciência só pode ser comparativo e indutivo.


 

 

 

 

 

 

Quarto Capítulo

A Lingüística Românica no Século XX

SUMÁRIO

 

A Lingüística Românica como ciência histórica, praticada com o método histórico-comparativo, é uma filha do Romantismo, surgida de uma consideração histórico-evolucionista da língua. Toda a atmosfera do século XIX é positivista, e em todos os campos é possível encontrar traços de uma tendência empírica e analítica. A observação dos fenômenos que nos rodeiam, a representação cuidadosa destes segundo a realidade, caracterizam não só as ciências, mas também as artes. Pensemos simplesmente na novela naturalista que contemplava a realidade por via empírica e analítica como “documento humano”, e pensemos no Impressionismo nas artes representativas. Numa época extremamente anti-metafísica, em que se esperava tudo do empirismo, na qual o fim de toda investigação era estabelecer fatos e leis nas quais o mundo nos era representado mecanicamente ordenado e dominado pelo princípio da causalidade, também o espírito, obviamente, estava ligado pela causalidade e, por conseguinte, não era livre. É esta a idade do determinismo e do Naturalismo com suas variantes, o positivismo, o pragmatismo e o monismo naturalista.

Deve-se a W. Windelband, H. Rickert e H. Bergson que a Filosofia se libertasse do influxo das ciências naturais. Os dois primeiros constituíram sua concepção do mundo (sua Kultur-philosophie) sobre valores absolutos, supra-temporais; o último, ao contrário, quer pôr o instinto acima da inteligência, assim como a intuição e a simpatia adivinhadora. No sistema de Bergson, a inteligência opera analiticamente e a intuição sinteticamente, e enquanto a primeira se ocupa dos detalhes, a segunda se concentra na totalidade. Bergson deseja, não obstante, que a intuição se mantenha despertada e dirigida pela inteligência.

A aversão ao Naturalismo e ao modo naturalista e evolucionista de pensar se manifesta sobretudo na reação ao historicismo derivante do Romantismo que pode ser percebido claramente nas correntes artísticas do Expressionismo. Assim, depois de uma época característica do século XIX, de predileção pelas concepções das ciências naturais, pelos fins daquele século e princípios do século XX, transcorre outra época em que a intuição tem o predomínio na ciência (SCHÜRR, 1925: 3-24, 89-90; IORDAN-ORR, 1937: 79-85). Durante todo o século XX pode ser notada na Lingüística, inclusive na Lingüística Românica, uma sensível tendência à síntese e ao requinte do espírito. Esta tendência deve ser considerada como uma reação contra a concepção naturalista, evolucionista, histórica, que havia dominado no século XIX. Não porque o método histórico-comparativo fosse errôneo, de modo algum; mas porque era unilateral. Na realidade, sublinhava demasiadamente o lado material, orgânico, histórico-evolucionista, e operava de maneira demasiadamente analítica e indutiva. O defeito desta tendência estava em se colocar muito cientificamente, num terreno em que têm grande participação os fatores espirituais.

A reação, não obstante, vem também de outras direções. O espírito democrático e socialista, cheio de interesse pelas linguagens populares e desejoso de explicar os fenômenos lingüísticos pela Sociologia, o apego aos usos tradicionais de cada região, o nacionalismo dos pequenos povos, profundamente embasados em sua tradição e em sua língua popular, o interesse que, por motivos de colonialismo, punham as grandes potências a estudar as línguas dos povos primitivos privados de literatura, a própria tendência para tudo que é primitivo, tendência que estava em moda na Europa desde fins do século XIX, tudo isto contribuiu para ressuscitar o interesse pelos dialetos (AUERBACH, 1948: 18). Uma concepção lingüística fundamentada principalmente na intuição e a Dialetologia, que estavam para ter um papel importantíssimo no desenvolvimento da Lingüística, são os fatores mais evidentes que fizeram nascer uma reação contra o espírito racionalista, exclusivista, aristocrático e literário do método histórico-comparativo.

Mas, do ponto de vista estritamente lingüístico, a reação que vem da Dialetologia é a mais importante. Nela, efetivamente, a matéria revela, de modo inesperado, sua mais íntima união com o espiritual, com o individual e pessoal. A razão da unilateralidade do método histórico-comparativo não estava somente no próprio método, mas no material em que se baseava. A matéria era unilateral, porque não levava suficientemente em conta a vida, porque não vinha da língua viva, falada, mas, sobretudo, da escrita, literária. Em meu entender, vemos claramente que não existe nenhum antagonismo entre alma e corpo, entre espírito e matéria, com seus aspectos humanos e metodológicos, intuição-intelecto, síntese-análise, individual-social. Ao contrário, existe uma estreita correlação.

Esta é a chave para todo o posterior desenvolvimento da Lingüística em geral e da Lingüística Românica em particular, ou vice-versa, pois esta última devia também desempenhar aqui a função de modelo.

Por que, no século XIX (e ainda mais tarde) a fonética tem o predomínio? Porque se apresenta com uma admirável regularidade. Esta regularidade se deve ao fato de que a fonética era, ou melhor, estava concebida como a emanação material de uma substância em certo modo abstraída da vida da linguagem, isto é, da língua escrita literária, e sobretudo porque se alicerçava sobre sons e não sobre palavras. Se não abstrairmos a matéria da vida, a fonética se fará tão irregular como a própria vida. Quando, em 1881, Georg Wenker se dispôs, com sua fé na regularidade da fonética, a traçar os limites dos dialetos alemães com a ajuda da mesma fonética, teve de reconhecer com desilusão que as mudanças fonéticas que tinha diante dos olhos eram diferentes, digamos, para cada palavra, e que, por exemplo, uma lei fonética que parecia operar tão regularmente como a segunda Lautverschiebung, pela qual os dialetos alto-alemães são separados dos baixo-alemães, manifestava-se diferentemente nas diferentes palavras (IORDAN-ORR, 1937: 146-47; TAGLIAVINI, 1952: 22-24).

Operou-se uma revolução na Lingüística quando se começou a ampliar a língua literária escrita, abstraída, em certo modo, da vida da língua, por meio dos dialetos, da língua viva. O romanista Jules Gilliéron, fundador da Geografia Lingüística, realizou uma empresa pioneira com seu Atlas Lingüístico da França (ALF), no qual, com ajuda de seu colaborador Edmond Edmont, registrou as respostas a 1920 perguntas, recolhidas in loco, em 639 pontos do território galo-românico, mediante uma coleção de mapas (POP, 1950: 117 e ss.). Depois que este trabalho pôs à disposição dos estudiosos a língua viva, isto é, a enorme massa de materiais que compreendia os dialetos galo-românicos, começou-se, graças aos estudos do próprio Gilliéron e de outros, alicerçados nesse material, a ter uma melhor compreensão do fato já constatado com base nos materiais de Wenker, de que certas mudanças fonéticas são diferentes quase em cada palavra. Mediante o material recolhido da língua viva, começou a ser compreendido como os desenvolvimentos fonéticos, que se mostravam tão regulares, por causa dos diversos fatores (cruzamentos de palavras, etimologias populares, empréstimos etc.), estavam submetidos a contínuas perturbações, e se deu conta de que os sons são alterados nas palavras e que quase cada uma delas tem o seu próprio desenvolvimento fonético: “...que seja mantido um determinado som (latino) sob certas condições, num certo lugar, ou que se torne um novo som determinado, é uma abstração. Na realidade, cada palavra tem sua própria história (JABERG, 1908:. 6; Cf. PIDAL, 1929: 529 e ss.; VOSSLER, 1929: 309-10; WARTBURG., 1946: 31)..[25]

Gilliéron opôs as perturbações do desenvolvimento fonético causadas pela etimologia popular à etimologia “dos etimologistas”. O latim *fimarium ‘esterqueira’, derivado do latim fimus ‘esterco’ com o sufixo coletivo -arium, deu em francês antigo femier, no qual o e evolui para ü por influência do m contíguo. Esta é a explicação fonética. Mas Gilliéron supõe que o antigo francês femier tenha sido convertido em fumier porque o povo relacionou o vocábulo com fumer ‘fumegar’, já que do esterco, que é preparado no outono, queimando restos de folhas e de ervas, sai freqüentemente fumaça. Deixando sem discutir a exatidão da explicação de Gilliéron, que recorre à etimologia popular – pois é bem possível que a influência de fumer sobre fumier tenha ocorrido após o e já ter sido convertido em ü por influência da labial, certamente, deve-se levar em conta também a fantasia popular ao lado da explicação puramente fonética (GILLIÉRON, 1918: 249 e ss.; WARTBURG, 1928 e ss.: III, 542 e 548; BLOCH-WARTBURG, 1932: I, 320; GAMILLSCHEG, 1928: 447; TAGLIAVINI, 1952: 29).

A reação ao método histórico-comparativo do tipo naturalista veio de outras duas partes, além da Dialetologia e da Geografia Lingüística. O primeiro estudo de Geografia Lingüística de Gilliéron apareceu em 1905 (GILLIÉRON-J. MONGIN, 1905); em 1904 Karl Vossler publica seu Positivismo e Idealismo no Desenvolvimento da Linguagem, e em 1906 Ferdinand de Saussure começa seu Curso de Lingüística Geral na Universidade de Genebra, curso preparado já há muito tempo, cuja primeira edição, no entanto, só apareceu em 1916, póstuma, aos cuidados de seus discípulos (WARTBURG, 1931: 14).

Que a reação pudesse manifestar-se ao mesmo tempo de três direções diferentes e independentes, não é, certamente, uma casualidade. Contra o quê reagiram propriamente e ao mesmo tempo o biólogo da língua, Gilliéron, de mentalidade positivista-intelectualista, o esteta da linguagem, Vossler, idealista e intuicionista, e o sociólogo, Saussure, de concepções positivista-estruturalistas? Os três queriam unicamente, em minha opinião, reconstruir a relação entre espírito e matéria, cujo equilíbrio havia sido perturbado pelo método histórico-comparativo do tipo naturalista; queriam, em outras palavras, reintegrar a vida à matéria. Para chegar a este resultado seus olhos se dirigiam para a estreita relação existente entre alma e corpo, espírito e matéria, intuição e intelecto; síntese e análise; individualidade e coletividade.

Já Hugo Schuchardt distinguiu na vida da linguagem dois fatores fundamentais: o Spaltung e o Ausgleich. O Spaltung, a criação na língua, é individual e intuitiva; o Ausgleich, ou seja, a introdução da criação na comunidade, é social e intelectual. A distinção introduzida por Vossler entre “língua como criação” e “língua como evolução” (SCHÜRR, 1925: 57) corresponde definitivamente à de Saussure entre fala (parole), ou seja, o individual, e língua (langue), que é social e convencional na estrutura lingüística. A diferença está em que Saussure, sociólogo da língua, considera a estrutura lingüística como um complexo de signos arbitrários fixado pela exigência da convenção comum, mas sem deixar de considerar a atividade individual, de modo que ele vai do social ao individual, enquanto Vossler, o discípulo de Vico, de Humboldt, de Hegel e de Croce, interpretando a língua como criação, como arte, percorre o caminho oposto, do intuitivo ao intelectual: a “língua como criação” é sancionada pela comunidade (“língua como evolução”) (PAGLIARO, 1930: 94, 99 e 102). Com métodos diferentes, ambos queriam descobrir os caminhos do espírito na vida da linguagem e, desta maneira, fizeram progredir na prática o estudo da sintaxe (Vossler e sua escola), da estilística (Charles Bally, discípulo de Saussure) e da fonética, sendo que nesta o espírito se manifestava melhor, ao menos em aparência (JABERG, 1926: 10; PAGLIARO, 1930: 88, 94 e 101; NENCIONI, 1946: 74, 143 e ss.).

Quanto ao biólogo da língua, Gilliéron, chega também, por meio da massa de materiais que lhe proporcionam os dialetos, à descoberta do espírito na vida lingüística. E sua descoberta, em meu entender, é tão rica de significado que ele trouxe à luz o espírito, ali onde este, ao que parece, mais dificilmente se mostra: não na sintaxe ou na estilística, mas precisamente na fonética. Ele mostra, por exemplo, que a mudança fonética aparentemente impossível de fl- > kl- é possível em certas palavras (GILLIÉRON-ROQUES, 1912: 49-80; Cf. WARTBURG, 1946: 19-20; TAGLIAVINI, 1952: 29) e que ao lado de uma mudança fonética, como a do antigo francês femier > antigo francês fumier, ou do latim firmare > francês fermer, deve-se levar também em conta a etimologia popular, a qual sente fumer em fumier, e fer (< latim ferrum) em fermer (pôr o ferro na porta, fermer la porte) (GILLIÉRON, 1919: 11 e ss.). Noutras palavras, ao lado da mudança fonética naturalista, histórico-evolucionista, existe também a imagem que têm propriamente de um som ou de uma palavra os que pertencem a uma determinada comunidade lingüística (SCHÜRR, 1925: 74 e ss.). Desta maneira, Gilliéron reage não só contra o método histórico, mas também, em minha opinião, é o precursor da fonologia e de nossa moderna concepção dos sons da fala como um produto do espírito.[26]

Depois desta exposição orientadora sobre a reação contra o método histórico-comparativo, o método velho, é preciso considerar detalhadamente os três aspectos desta reação, a Geografia Lingüística, o Método Idealista e a Lingüística Estrutural, a fim de podermos tornar claro como os métodos velhos e novos revelam seus aspectos bons e maus à luz desta reação.


 

 

 

 

 

 

I. A Geografia Lingüística

SUMÁRIO

O método de trabalho de Gilliéron, fundador da Geografia Lingüística, consistia em atacar o problema a partir de um ponto de vista completamente empírico e não estava orientado menos naturalista e positivistamente do que os que praticavam o método histórico-comparativo. Mas, enquanto estes deviam seu material de estudo aos documentos escritos e aos dialetos (textos dialetais, dicionários dialetais e estudos sobre os dialetos), Gilliéron observou a vida da linguagem com ajuda do Atlas Lingüístico da França (ALF) e praticou constantemente a Biologia da Linguagem (TERRACINI, 1949: e 213.). A evidência antropomórfica de sua terminologia, que se revela, inclusive, nos títulos de suas obras, atesta que estamos aqui colocados no meio de uma vida lingüística muito intensa, na qual as palavras vivem sua vida individual e social. Os vocábulos podem se tornar homônimos por causa de acidentes fonéticos e entrar em choque entre si, com a conseqüência de que os mais fracos devam ceder ante os mais fortes. Às vezes, saem da luta como mutilados fonéticos; às vezes, também milagrosamente incólumes, graças à taumaturgia lingüística (GILLIÉRON, 1923). Umas vezes as palavras foneticamente enfermas se curam (patologia e terapêutica verbais) (GILLIÉRON, 1915 e 1921) noutros casos, são vítimas de uma fada Morgana[27] fonética (GILLIÉRON-ROQUES, 1907: 107-49). Além das enfermidades fonéticas, também pode ter graves conseqüências a pletora interior ou pletora semântica (ROQUES, 1930; A. KUHN, 1947-48: 32). Em resumo: somos espectadores de uma luta de vida ou morte.

Graças à descoberta de palavras isoladas nas áreas marginais, mediante o ALF, à observação da cristalização da vida e à da superposição de diversos estratos de palavras, Gilliéron pratica a Geologia Lingüística, e o faz com o mesmo método do geólogo que reconstitui a vida passada pela observação dos fósseis.

Segundo a obra fundamental de Gilliéron sobre a genealogia das palavras que significam ‘abelha (GILLIÉRON, 1918.)’[28] e por causa de sua excepcional importância metodológica é oportuno que seja aqui mais particularmente resumida e discutida. Segundo o mapa 1 do ALF existem no território lingüístico galo-românico os seguintes tipos de denominação para aquele inseto: 1. é, és, a (em zonas marginais completamente separadas no norte da França e na Suíça); 2. mouche à miel (no norte da França sobre um extenso território triangular); 3. avette (a oeste); 4. mouchette (a leste) e 5. abeille (ao sul do Loire até os Pireneus e o Mediterrâneo e dos Alpes até o Ródano, franco-provençal aveille). Ao lado destes tipos, existem pequenos, porém, compactos territórios dos tipos mouche, essaim, essette, ruche etc.

A presença das formas monossilábicas é, és, a nas ditas zonas marginais demonstra, positivamente, segundo Gilliéron, que a palavra originária para o conceito ‘abelha’ era o latim apis em todo o território galo-românico. Assim, para o geólogo da linguagem Gilliéron, o achado dos fósseis é, és e a mostra que o estrato originário apis aparece hoje na periferia do território. O bom senso nos diz, com efeito, que é improvável que no momento da romanização da Gália a palavra apis tenha sido introduzida exclusivamente nas longínquas zonas marginais separadas entre si, e em nenhum outro lugar. A exatidão desta afirmação é reforçada a posteriori pelo fato de que o antigo francês ef, és ‘abelha’ estava em circulação, segundo os textos do francês antigo, em todo o território norte da França, onde hoje se diz mouche à miel.

Confrontando agora o método histórico-comparativo com o da Geografia Lingüística no que se refere a este caso, constataremos que são precisamente os mesmos (MEYER-LÜBKE, 1925: 23-24). A Geografia Lingüística reconstrói a existência de um estudo anterior, baseando-se na distribuição geográfica das palavras; o método histórico-comparativo faz o mesmo mediante a comparação, e nos diz, por exemplo, que a fase anterior do sardo ansa, italiano ansia, antigo francês ainse, antigo provençal aisa, espanhol ansia, português ânsia, catalão ànsia, era o latim vulgar anxia. A comparação e a distribuição geográfica das palavras são dois meios aparentemente diversos, mas em estreita relação entre si, para estabelecer um processo histórico. Por isto, como dissemos, a reconstituição de um protótipo latino vulgar de palavras românicas conseguirá probabilidade tão maior quanto mais extenso for o material comparável em românico, isto é, quanto mais línguas românicas possam entrar na comparação, ou noutras palavras, quanto mais se encontre apoiado o material comparável pelo critério geográfico.

Depois que o geólogo lingüista pôde estabelecer que em todo o norte da França estava originariamente em uso ef, és, o biólogo lingüista Gilliéron se dedicou a investigar por que e como esta palavra foi vencida e eliminada por outras. O singular do antigo francês ef (do latim apem) e o plural és (do latim apes) eram palavras monossilábicas, débeis, passíveis dos efeitos da homonímia. Do plural és saiu diretamente um singular é, que foi reforçado, sendo substituído pelo plural és (nos textos do antigo francês encontramos efetivamente para o acusativo singular ef, é e és). Os “mutilados fonéticos” é e és entraram em conflito em certos territórios por causa da homonímia com as palavras que significavam ‘pássaro’ e ‘vespa’. No norte da França, onde, às vezes, existe indecisão entre e é, se dizia ézé(s) ao lado de wézé(s) ao lado de wézé(s) ‘pássaros’. Daí surgiu uma insustentável homonímia, já que le vol d’ézé(s) podia significar tanto le vol d’oiseaux como le vol des abeilles. Por isto, segundo Gilliéron, nestes territórios oiseau foi substituído por outras palavras (por exemplo, jeune, oiselet, moineau) (Cf. MEYER-LÜBKE, 1920: 79-80) e és ‘abelha” foi substituído por etimologia popular por essaim ‘enxame’, ou seja, o povo entendeu essaim como coletivo de és. Sendo assim, entraram em conflito novamente dois homônimos: essaim ‘abelha’ e essaim ‘enxame’. O fato de que, enquanto noutras zonas da França para designar o ‘enxame’ se diz essaim ou então jeton, aqui e só aqui essaim tenha sido substituído por outras palavras como mouche, les mouches, jeuneau, confirma o raciocínio de Gilliéron.

Apesar disto, Gilliéron se encontra metodologicamente em dificuldades precisamente porque quase não trabalha comparativamente. Uma das deficiências mais evidentes do método de Gilliéron é que deixa fora de consideração as outras línguas românicas. Que essaim no território citado signifique ‘abelha’ é um fato, mas que se trate de um coletivo por etimologia popular de és ‘abelha’, é uma hipótese desnecessária. Efetivamente, noutros territórios românicos, como na Itália Central (por exemplo nos dialetos de Altidona e Cupra Marítima) ‘abelha’ se chama, respectivamente ji assāmi e li some, que sem dúvida vêm diretamente do latim examen (> italiano sciame, francês essaim etc.).[29] Aqui podemos, pois, constatar novamente a estreita correlação, exposta há pouco, entre o método geográfico e o comparativo na definição de um processo histórico. Gilliéron, ao tratar das condições lingüísticas francesas deixa fora de exame as outras línguas românicas, entre outros motivos porque não quer trabalhar comparativamente e quer demonstrar que em francês não há quase nada que venha do latim. O método não-comparativo de Gilliéron é tão unilateral e equivocado quanto o método comparativo (MEYER-LÜBKE, 1925: 24) que, nas línguas românicas, quer extrair tudo ou quase tudo do latim.

No norte da França, portanto, segundo Gilliéron, és ‘abelha’ entra em conflito mais tarde com a denominação da ‘vespa’, wés, que ali existe, em conseqüência da insegurança indicada entre é e wé. Trata-se de um conflito não só lingüístico, mas também entomológico, posto que se trata de dois insetos diferentes. O resultado é que és (ou ) desaparece. Em certas regiões do norte, contudo, por influência de wep ‘vespa’ (< latim vespa), és ‘abelha’ que, como vimos, estava em luta com as denominações para ‘pássaro’ e para ‘enxame’, se converte em ep. Este ep foi tomado de empréstimo do dialeto da Ilha de França. A palavra ep ‘abelha’, além do fato de estar completamente isolada e de poder confundir-se com guêpe ‘vespa’, era débil e, portanto, tinha necessidade de apoio, o que recebeu, por uma parte, de é, és, e por outra, de mouche (isto é, ‘mosca que pica’). Desta maneira, segundo Gilliéron, surgiram é(s)-ep e mouche-ep, compostos híbridos nos quais, com o tempo, o elemento -ep, que já se tornava ininteligível, foi interpretado como um sufixo, e então aqueles compostos, por influência do freqüente sufixo -ette, converteram-se em essette e mouchette. Porém, estas últimas formas não são diminutivos de és e mouche, já que ‘abelha’ não pode ser entendida nem como ‘pequena abelha’ nem como ‘pequena mosca’, mas que não são propriamente outra coisa senão substituto assonantes de és-ep e mouche-ep. Enquanto és-ep se encontrta nos dialetos e nos textos, *mouche-ep não está documentado em nenhum lugar. Por isto Gilliéron tem que recorrer ao método histórico e precisamente reconstruir uma forma principal (MEYER-LÜBKE, 1925: 24)) sem a qual não pode explicar o francês abeille.

Mouchette, porém, não podia sustentar-se, pois um diminutivo de mouche (isto é, ‘mosca pequena’) não pode significar ‘abelha’, além de que mouchette ‘abelha’ defrontava continuamente com mouchette ‘mosca pequena’. Por isto, para poder distinguir as denominações destes dois insetos, teve que se recorrer a uma cura terapêutica da “desdiminutivação” (GILLIÉRON, 1918: 128-9) combinada com composição: mouchette passa a mouche à miel ‘abelha’ e esta forma conquista a partir do século XV toda a França Setentrional.

Em Paris, mouche à miel é substituída por mouche-abeille, porque se queria estabelecer uma correspondência de mouche à miel com mouche-guêpe ‘vespa’, outra palavra que indica um inseto que pica. Desta maneira se tomou emprestado do sul o provençal abel’o ‘abelha’ (< latim apicula) para a segunda parte da composição pelo modelo de mouche-guêpe, assim como se havia tomado por empréstimo do norte ep para mouche-ep. *Mouche-abeille, afinal de contas, é um mero substituto assonante de mouche à miel (à miel é assonante de abeille), como mouchette é uma derivação assonante de mouche-ep. *Mouche-abeille, que não está documentado em parte alguma e que não deixou rastro senão em poucos dialetos, deixa cair a primeira parte que lhe servia de apoio, pois abeille é bastante claro, vital e independente, e é a palavra indicadora de ‘abelha’ limitada à capital, da qual, em suma, se pode estabelecer a genealogia e biologia seguinte: 1. ef, plural és > 2. és > 3. ep > 4. é-ep > 5. *mouche-ep > 6 mouchette > 7. mouche à miel > 8. *mouche-abeille > 9. abeille (GILLIÉRON, 1918: 16 e passim).

O método de Gilliéron e o histórico-comparativo têm em comum, portanto, que ambos reconstroem mediante a comparação, com a diferença de que o último fundamenta suas induções históricas sobre um material menos variado e mais esquemático do que o geográfico. O método comparativo, sobre a base do dalmático yuop, italiano ape, sardo (logudorês) abe, rético (friulês) af, antigo francês ef, por um lado, e do italiano pecchia, antigo provençal abelha, catalão abelha, espanhol abeja, português abelha, por outro, estabelece: 1. que as denominações para ‘abelha’ na segunda área vêm do latim apicula e na primeira do latim apis; 2. que o antigo francês ef remonta diretamente a apis, mas o francês abeille não vem diretamente de apicula, mas através do provençal abel’o. (DIEZ., 1887: 22; MEYER-LÜBKE, 1935, n° 523 e 525; WARTBURG, 1928 e ss.: I, 104-5). Esta indução do método histórico-comparativo, que é inteiramente válida cientificamente e, finalmente, até justa em parte, tem-se guiado desde o princípio pela fonética. Segundo este ponto de vista, o antigo francês ef não tem nada a ver com o francês abeille; este último é um empréstimo do provençal, porque o latim apicula deveria ter dado em francês não abeille, mas *aveille (já que o p latino intervocálico passa a v em francês e a b em provençal).

Ao contrário, o método geográfico reconstrói não guiado pela fonética, que Gilliéron, exagerando, declara fracassada (GILLIÉRON, 1919), mas tendo presente o tesouro léxico, a vida inteira da língua, desde o antigo francês ef até o francês abeille. Para poder observar a força e o espírito criadores na língua, era necessário trazer à luz do dia o material lingüístico particularmente rico e variado que se refere à denominação de abelha no território galo-românico, e do qual apenas demos uma ligeira idéia. As substituições assonantes essette, mouchette, *mouche-abeille de és-ep, *mouche-ep e mouche à miel não têm nada a ver com a regularidade da fonética e da formação das palavras; são simplesmente criações. O método histórico-comparativo, ao afirmar que o latim apicula deu o francês abeille através do provençal abel’o porque o -p- latino pode dar -b- em provençal, mas não em francês, torna-se um método esquematizante e simplista, e não leva suficientemente em conta a vida da língua e o espírito criador. Isto, como vimos com base nas investigações, é errôneo em parte, porque o francês abeille não vem de apicula, mas foi criado a partir do latim apis através de toda uma cadeia de palavras.

Sem se perguntar por que os franceses de Paris tiveram que importar para a idéia de ‘abelha’ uma palavra provençal e, contentando-se com o aspecto exterior, fonético, do problema, o método histórico-comparativo afirma que o francês abeille é uma forma provençal por causa do seu -b-. Considera, pois, a fonética como algo de primeira importância. Pelo contrário, o francês abeille, segundo a explicação de Gilliéron, é uma criação francesa sobre a base do francês mouche à miel e do provençal abel’o (VIDOS, 1954: 269-309 e 235-273). Segundo ele, portanto, o som não é o principal, mas a palavra; ele substitui o som pela palavra e substitui pela vida a concepção de uma evolução fonética do processo mecânico (DEVOTO, 1951: 58). A diferença entre os dois métodos, no caso de abeille, está em que o método histórico-comparativo pretende fazer vir esta palavra foneticamente do latim apicula e, não sendo possível esta derivação, deve admitir uma influência provençal, enquanto a Geografia Lingüística concebe a mesma palavra não como derivada de apicula, mas como uma criação francesa: ef, saída de apis, se desenvolve até abeille. Para a Geografia Lingüística, este processo de desenvolvimento é o principal e não a derivação do latim. Daí a justa e engenhosa advertência de Gilliéron:

Não vos contenteis em fazer a história de uma palavra como um historiador da literatura que traçasse a vida de um homem célebre nestes termos: Balzac, no colo de sua nutriz, usava uma veste azul com listas vermelhas. Ele escreveu a Comédia Humana (GILLIÉRON, 1919: 133).

A grande importância do método geográfico está precisamente no fato de ter reagido saudavelmente, com a descoberta dos fatores criativos na vida da linguagem, contra o determinismo, às vezes unilateral, do método histórico-comparativo, que pretendia poder descobrir em quase todos os aspectos das línguas românicas uma continuidade com o latim.[30] Ele tem também toda a razão quando demonstra que abeille não é uma palavra conservadora de uma herança latina. Neste caso, é o único método que pode prová-lo, enquanto o método histórico-comparativo chega precisamente ao resultado contrário.

Seria um erro, porém, pensar que o método histórico-comparativo não esteja em condições de provar, sem ajuda de outro, que uma palavra românica é uma criação independente do latim. Comparando, por exemplo, as denominações românicas de ‘peixe’, pode-se estabelecer que todas, exceto a francesa, vêm do latim piscis (italiano pesce, espanhol pez, catalão peix, romeno peşte etc.). O francês poisson poderia derivar-se de uma suposta forma *piscionem. Porém, se se considera que no antigo francês existia pois (< latim piscis), que aparece no francês craspois ‘baleia’ (cras ‘grosso’ + pois ‘peixe’) e porpois ‘esturjão’ (por ‘porco’ + pois ‘peixe’), a hipótese de uma origem latina vem abaixo, e poisson é o resultado de uma independente derivação francesa do antigo francês pois (MEYER-LÜBKE, 1935, n° 6532; GAMILLSCHEG, 1928: 706; BLOCH-WARTBURG, 1932: II, 166 e ss.). A Geografia Lingüística apóia esta afirmação mostrando que peis e pois podem ser encontradas ainda na zona marginal dos dialetos franceses (WAGNER, 1949: 4). Assim, podemos nos prevenir facilmente de que a comparação e a posição geográfica são dois meios aparentemente diferentes, mas em estreita correlação entre si, para estabelecer um processo histórico.

 

 

 

* * *

Gilliéron, recolhendo nos mapas de um atlas as denominações de certos conceitos, objetos etc. para 629 pontos do território lingüístico galo-românico, criou para este território um imponente aparato lingüístico de comparação com mais de um milhão de formas dialetais. Seu material representava ao mesmo tempo a situação de então dos dialetos galo-românicos, isto é, uma espécie de corte transversal que reproduz a situação lingüística sincrônica. Estendendo e integrando o material lingüístico com o geográfico, Gilliéron, e com ele a Geografia Lingüística, reforçou e integrou o método comparativo, sem se propor a isto, e com ele a Lingüística Românica como ciência histórica.

A história, efetivamente, deixa suas marcas no espaço. Por isso, uma visão sincrônico-comparativa organizada no espaço e, geograficamente, pode ser considerada ao mesmo tempo também diacrônica. Precisamente enquanto Saussure elaborava sua fundamental distinção entre sincronia e diacronia, Lingüística Descritiva e Lingüística Histórica a Geografia Lingüística de Gilliéron mostrou que o modo geográfico de operar, integrando o comparativo, de certo modo sincroniza a diacronia. Noutras palavras, localiza geograficamente os acontecimentos históricos e mostra que entre sincronia e diacronia existe uma estreita relação recíproca.[31] “A Geografia Lingüística nos obriga, pois [...], a localizar e a datar os fatos, a pô-los constantemente[...] na sincronia geográfica [...]” (TERRACHER, 1924: 333).

Para demonstrar como a Geografia Lingüística localiza um acontecimento histórico e quão estreitamente estão unidas uma sucessão histórica e uma vizinhança geográfica, começamos por dar o seguinte evidente exemplo.

O francês oublier é semanticamente débil, sua posição na consciência não está suficientemente delineada; entre o recordar e o esquecer completamente existe toda uma série de passos e de gradações. Além do mais, nem sequer se trata de um verbo necessário, porque sempre se pode substituí-lo por je ne me rappelle pas, je n’y ai pas pensé e outras locuções parecidas. Em certa parte da França Meridional, o conceito de ‘esquecer’ se expressa por desmembra (< *dis-memorare) (MEYER-LÜBKE, 1935, n° 5489); cf. gascão desbrembà, desmoumbra (< de-exmemorare (ROHLFS, 1935: 114) e espanhol desmemoriarse ‘esquecer’). A esse território segue imediatamente outro em que se diz désoublier, doublier. A imediata proximidade geográfica desmembra-désoublier, doublier é o resultado sincrônico da seguinte sucessão diacrônica: oublier, semanticamente débil, falando em termos biológicos, vem a ser encontrada no sul junto a desmembra e, por isto, para poder subsistir, tira de desmembra o seu des- ou o seu d- e se fortalece com ele. Lingüisticamente falando, na consciência dos falantes está presente sob a influência de desmembra um esquema des-, d- (desmembra) que tem um sentido exclusivo neste verbo, e por meio do qual se reforça oublier. Contra a possibilidade de explicar de outro modo o des- ou d- de désoublier ou doublier, fala segura e indubitavelmente o fato de se encontrarem estas formas só e exclusivamente na vizinhança imediata de desmembra (GILLIÉRON –ROQUES, 1912, 3-4).

Um exemplo clássico é também o seguinte: Na Gasconha, o galo se chama azã (francês faisan ‘faisão’) e bigey (francês vicaire ‘vigário’). Esta situação, no plano geográfico e sincrônico, é a repercussão do seguinte processo histórico-lingüístico (GILLIÉRON-ROQUES, 1912, 121-131). No francês antigo e também nos dialetos franceses de hoje vivem as continuações do latim gallus ‘galo’. No gascão, em que o ll latino final evolui para t, gallum resultaria em *gat. Mas esta palavra entrava em conflito por homonímia com o gascão gat (< latim cattus), denominação do ‘gato’, com a conseqüência de que *gat ‘galo’, que podia encontrar apoio numa família lingüística menos numerosa que gat ‘gato’, desapareceu. Desta luta desigual saiu vencedor, portanto, o gato (gat), que no gascão assassinou o *gat ‘galo’. E como desta maneira o galo ficou sem nome na Gasconha, foi preciso buscar-lhe um, disse Gilliéron, e se lhe chamou faisan, ou então vicaire.[32]

A Geografia Lingüística reconstrói, portanto, neste caso, a existência de *gat ‘galo’ no gascão, deduzindo-a da situação geográfico-sincrônica. A comparação reforça e sustenta esta conclusão, demonstrando que as denominações de outra ave, a perdiz gallus ou perdix *gallius, ou seja, a ‘perdiz’, no mesmo território onde já não existe *gat, se mantiveram como perligal’ (por exemplo em Sauveterre-de-Béarn, ponto 691 do mapa 1002 do ALF), ou então perdrigat (ponto 650). Graças a esta comparação, vemos que antes que o gato matasse o galo e azã e bigey se convertessem em seus herdeiros, *gat ‘galo’ (< gallus) durante um tempo mais ou menos longo havia-se empenhado na luta contra azã e bigey, como o mostra claramente a presença de perligal’ (a segunda parte gal’ de *gallius, derivado de gallus) no território em que o galo se chama azã. A forma perdrigat ‘perdiz’ (< perdix-gallus) mostra que gat ‘galo’ pode viver até hoje no gascão, quando, longe do galinheiro como perdrigat, já não pode chocar por homonímia com seu rival mais forte, o gato (MILLARDET, 1923: 59-61; WARTBURG, 1928 e ss.: VIII, 227-229).

Assim como o método geográfico integra o histórico-comparativo. Veja o que dissemos a respeito do francês abeille e poisson), a diacronia pode apoiar a sincronia. O ponto de vista, neste caso puramente sincrônico, de Gilliéron (1915: 124), encontrava-se com limitadas soluções para gal’o ‘galo’, que aparece uma só vez (em Sauveterre-de-Béarn, ponto 691 do mapa 320 do ALF) em território exclusivo de az㠑galo’. Efetivamente, a sincronia é incapaz de decidir se aqui gal’o é um resíduo de um originário gallus ou se vem de algum outro lugar (encontramo-nos aqui no sul da Gasconha, e gallus está bem vivo em toda a Península Ibérica: espanhol gallo, catalão gall).[33] O método comparativo já nos demonstrou que no mesmo ponto onde se encontra gal’o encontra-se também perligal’ ‘perdiz’, e, portanto, que a palavra não está aí isolada.

Estendendo agora geograficamente esta comparação, ou seja, trabalhando mais amplamente no plano sincrônico, chegamos à conclusão diacrônica de que gal’o (ou melhor gal’) e a segunda parte de perligal’ no Béarn, junto com outras palavras de territórios românicos distantes entre si, como gagghiu ‘manchado’ em siciliano, gaio, pernis gaja ‘perdiz’ em piemontês, gailg ‘matizado’, sgaglier ‘matizar’ no reto-românico ocidental etc. representam o latim gallius (por se haver denominado *gallius as peles ou plumas manchadas da perdiz e outros animais, comparando-as com as plumas multicores do galo (gallus)) (MEYER-LÜBKE, 1935,, n° 3663; WARTBURG, 1928 e ss.: IV, 42 e 47-48). O método comparativo e o sincrônico-geográfico mostram-nos assim que gal’o ou gal’ no Béarn deve ser originário e antigo, e que representa o latim *gallius, gallus. Os instrumentos de trabalho históricos confirmam este resultado e deixam clara ao mesmo tempo a unilateralidade dos atlas lingüísticos, pois, segundo os dicionários dialetais, gal’o e gal’ não estão totalmente isolados no bearnês, mas são palavras comumente em circulação, e lo galh já estava documentado no século XV (MILLARDET, 1923: 58-63; PALAY, 1932:. 40; WARTBURG, 1928 e ss.: IV, 47). Em resumo, vemos que a Geografia Lingüística e a História Lingüística, atlas lingüísticos, textos e dicionários dialetais se complementam mutuamente.

Para terminar, eis um caso análogo: O latim mulgere ‘ordenhar’, que deveria ter dado foneticamente em francês *moudre, já não vive em francês, segundo Gilliéron (GILLIÉRON-ROQUES, 1912: 10-18), porque se teria tornado homônimo do francês moudre ‘moer’ (< latim molere). Como não é possível, sobretudo num ambiente de camponeses, usar a mesma palavra para ‘ordenhar’ e para ‘moer’, em território lingüístico francês para expressar a idéia de ‘ordenhar’ se diz (entre outras coisas) traire ou tirer.

As denominações para ‘galo’ e ‘ordenhar’ nos demonstram claramente que por causa de uma mutação histórico-lingüística, ou seja, por causa da dinâmica, havia-se produzido uma situação insustentável e que, por conseguinte, devia mudar-se. Noutras palavras: podemos constatar como a sincronia vai além da diacronia, ou vice-versa, como uma situação histórico-geográfica converte em sincronia a diacronia lingüística. A Geografia Lingüística, representando sinoticamente sobre os mapas a extensão geográfica das palavras, nos proporciona um meio sintético, como não se encontraria de outro modo, para nos introduzir na vida da linguagem. Podemos ver onde bigey ‘vigário’ e traire ‘ordenhar’ substituíram a *gat ‘galo’ e a moudre ‘ordenhar’, respectivamente. À pergunta “por que se produziram estas substituições?”, Gilliéron responde de modo racionalista, físico-matemático: *gat ‘galo’ e moudre ‘ordenhar’ durante a sua vida, encontraram-se em conflito de homonímia com gat ‘gato’ e moudre ‘moer’ e, por isso, viram-se condenados a desaparecer. À questão de como se realizaram efetivamente estas substituições, responde que, no primeiro caso, se buscou uma denominação, e depois de certa vacilação na “escolha”, experimentou-se certo prazer no gracejo de chamar ‘vigário’ ao galo; no segundo caso, os substitutos de moudre ‘ordenhar’, ou seja, traire e tirer, são considerados simplesmente como paliativos lexicológicos.[34]

Não há dúvida de que a Geografia Lingüística, neste caso como em outros, por meio de uma visão sincrônica da diacronia, nos revela a vida da linguagem e, reagindo assim saudavelmente contra o método histórico, integrou-o produtivamente. Não obstante, teve de se comprovar que a vida da linguagem, tal como a revela o método da Geografia Lingüística e, sobretudo, como Gilliéron a interpreta, é representada de um modo demasiado unilateral e intelectualista. Que certas palavras, fisicamente débeis ou insuficientes, sejam rechaçadas por outras mais fortes e que outras sejam obrigadas a desaparecer em conseqüência da homonímia, é um fato que já havia sido constatado por Diez (1882: I, 42 e ss). Mas já se estabeleceu há tempo que seria desconhecer a vida da linguagem e de sua qualidade afetiva o querer supor com Gilliéron que os falantes esperam até o momento de extrema necessidade, até à debilitação de uma palavra ou até à homonímia, para substituir um vocábulo por outro.

O francês choir ‘cair’, por exemplo, que ainda estava vivo no século XV e que a partir daquela época perdeu, primeiro, o imperfeito e, depois, gradualmente, as outras formas, até chegar a ser usado hoje apenas esporadicamente no infinitivo, foi substituído por tomber. Ao contrário, o verbo voir, que é igualmente débil, vive até hoje. Embora Gilliéron admita que ao lado de choir estava preparado um substituto, mas não ao lado de voir, opina, entretanto, que para adotar tomber se esperou que choir se debilitasse. Mas o momento mais importante deste caso não era aquele em que choir estivesse forte ou débil, visto que tomber já aparece a partir do século XV e choir só começou a se debilitar depois de 1500. Por outro lado, é preciso notar o fato de que tomber como palavra onomatopaica, graças ao seu valor afetivo e psicológico, diz para os falantes muito mais do que choir, de modo que pôde substituí-lo, quando choir ainda não era débil ou, pelo menos, não era mais débil do que voir, o qual vive ainda hoje, precisamente porque, no que se refere a seu valor afetivo, não tinha junto a si nenhum substituto apreciável (GILLIÉRON, 1919: 50 e ss.; MEYER-LÜBKE, 1925: 25 e ss. e 1935, n° 8975; GAMILLSCHEG, 1928: 220 e 847; WARTBURG, 1928 e ss.: II, 29-30; BLOCH-WARTBURG, 1932: I, 147-8 e 1950: 607).

O mesmo exatamente ocorre com a denominação do ‘galo’ na Gasconha. Assim como tomber, rico de valor afetivo, não esperou que choir se debilitasse e desaparecesse, assim também o povo da Gasconha, tão atrevido e galhofeiro, pôde chamar metaforicamente bigey ‘vigário’ ao galo e, certamente não esperou que *gat como nome do galo entrasse em conflito de homonímia com gat, nome do gato, e, conseqüentemente, tendesse a desaparecer, para substituí-lo. Quanto aos substitutos de *moudre ‘ordenhar’, traire, tirer e ajuster, Gilliéron considera os dois primeiros como paliativos lexicológicos, enquanto concebe o substituto local ajuster ‘preparar’ como denominação de uma ação (o ordenho) mediante o nome da operação preparatória (GILLIÉRON-ROQUES, 1912: 13). Enquanto julga correto ajuster ‘ordenhar’, porque pensa que se trata de preparar as tetas para o ordenho, ou seja, a operação preparatória, vê em traire e tirer unicamente paliativos lexicológicos, equivocadamente, por certo, já que estes dois verbos, como ajuster, representam as operações que preparam o ordenhado e, em parte, também a própria operação de tirar o leite. Em conclusão, para o caso de ‘ordenhar’ os falantes não tiveram de esperar, como tampouco no de ‘cair’ e de ‘galo’, que a palavra originária desaparecesse por homonímia, já que traire, tirer e ajuster estiveram sempre presentes no campo significativo de ‘ordenhar’ com o sentido de operações preparatórias. O caso de *gat-bigey se distingue enquanto bigey ‘vigário’ não pertence ao campo significativo do conceito ‘galo’, mas sempre pôde ser criado por via afetiva. Dá-se, entretanto, um momento evidentemente importante nestes dois casos quando os atuais substitutos bigey e traire acabam por passar ao primeiro plano, isto é, quando passam a ser as palavras normais, enquanto *gat e moudre desaparecem (WARTBURG, 1931: I, 15-19 e 21-22,1937: 297-8 e 1946: 125-6 e 130-2).

Os casos bigey, traire e tomber significam, ademais, outra coisa. Quando *gat ‘galo’ e moudre ‘ordenhar’ desapareceram, segundo Gilliéron, os falantes “procuraram” substitutos e, depois de certa “vacilação na escolha” fizeram do galo “ambiciosamente” um faisão e “por zombaria” um vigário e, no segundo caso, procuraram um paliativo traire para preencher o vazio produzido pelo desaparecimento de *moudre. Esta é uma concepção puramente teleológica, que atribui aos falantes uma escolha consciente e orientada para um determinado fim. Neste ponto, o biólogo da linguagem, Gilliéron, de pensamento racionalista-matemático, é o precursor da concepção finalista da língua de Trubetzkoy e do estruturalismo. Os exemplos examinados são surpreendentes refutações de semelhante concepção. Nem no caso de criação de um metafórico bigey ‘vigário’ nem no de traire ‘tirar’, sempre presente no campo semântico de ‘ordenhar’, pode-se falar de uma finalidade. No caso de tomber, está ainda mais claramente em oposição à teleologia, pois a criação afetiva tomber foi usada ao lado de choir ainda antes que este começasse a se debilitar. A criação não espera, portanto, neste caso, restabelecer um equilíbrio conturbado numa situação lingüística, e até no caso de bigey e traire não representa uma tendência finalista e preventiva que queira reconstituir um equilíbrio conturbado, mas apenas uma tendência compensadora (TERRACINI, 1949: 213; DEVOTO, 1951: 62-6.).

Fazendo agora o balanço da Geografia Lingüística, chegamos à conclusão de que “Geografia Lingüística e História Lingüística são partes da investigação da linguagem que se completam mutuamente e que são inseparáveis” (MEYER-LÜBKE, 1920: 80). Vimos, no caso de abeille e poisson, como a Geografia Lingüística complementa a História Lingüística, e vice-versa no caso de gal’o e perligal’ como a História completa a Geografia. Não há propriamente nenhuma diferença entre os dois métodos, mas somente entre o material em que se baseiam; o que corresponde à tese de que o método não existe por si só, mas que resulta de nossa posição diante do material.

Poderíamos melhor caracterizar o material da Lingüística Histórico-comparativa como analítico e o da Geografia Lingüística como sintético. O material de um atlas lingüístico, por perfeito que seja, não pode ser senão a coleta sinóptica de dados instantâneos. Estes dados representam a língua de um único indivíduo exclusivamente no momento em que se recolheu o material.

É experiência geral que os atlas lingüísticos quase sempre nos dão a palavra corrente, usual, e descuidam dos sinônimos afetivos, burlescos, familiares etc. Para poder captar estes últimos, ter-se-ia de poder viver longo tempo com os que falam o dialeto e esperar os momentos felizes em que estes sinônimos, sob a influência de certa emoção etc. viessem espontaneamente à tona. Mas um atlas lingüístico de países como a Itália ou a França jamais poderia ser realizado desta maneira. As mesmas considerações são válidas para a riquíssima terminologia que se refere à vida, à atividade, aos móveis etc., de camponeses, pastores e profissionais similares, que geralmente não utilizam palavras normais e de uso geral.

No entanto, se não houvesse ocorrido que por causa da homonímia o nome do galo (*gat) e o nome do gato (gat) e, ainda, a denominação de ‘ordenhar’ (*moudre) e a de ‘moer’ (moudre) já não se distinguissem entre si, nem a denominação burlesca bigey ‘vigário’ para o galo nem a palavra subsidiária traire ‘tirar’ para ‘ordenhar’ teriam subido ao grau de palavras normais, com a conseqüência de que não se teria podido conhecer nunca a existência destas palavras por meio do ALF. Este atlas registra, por exemplo, 30 tipos diversos de palavras para ‘avaro’, e só registra uma para ‘rico’, enquanto por outras fontes se sabe que no território galo-românico podem ser encontradas até 200 para o primeiro conceito e 80 para o segundo. Os outros atlas lingüísticos românicos, por exemplo o AIS, que é metodologicamente mais perfeito, também não conseguiram reunir os sinônimos afetivos e, com efeito, para um conceito como ‘cabeça’ na Itália, foram recolhidas sete denominações em um ponto, seis noutro, dois em 200 pontos, e em 400 pontos apenas uma, quando é certo que este conceito, tanto na Itália quanto em outros territórios lingüísticos, é o centro de toda uma série de sinônimos afetivos, jocosos e familiares (WARTBURG, 1937: 299-301 e 1946: 133-5; K. JABERG, 1943-4: 282-3; KUHN, 1947-8: 36-41).

Isto provém de que o material de que se serve a Geografia Lingüística é sintético. A sistematização sinóptica (geográfica e sincrônica) de toda uma massa de formas para um determinado conceito nos dá uma visão lingüística geral, mas, por causa de seu caráter sintético, é, naturalmente, unilateral. O que aparece à superfície por meio do material intelectualista pode representar um único aspecto da vida da linguagem: o aspecto intelectualista. Das 200 palavras para ‘avaro’ e das 80 para ‘rico’, em território galo-românico podem ser colhidas apenas trinta e uma, respectivamente, segundo o ALF. Tudo o que o entendimento não pode trazer à superfície, tudo o que, por particulares sucessos, incidentes, choques etc., não está ao alcance do entendimento, fica oculto. Para poder vir à luz as 170 denominações que faltam para ‘avaro’ e as 79 que faltam para ‘rico’, necessita-se, além do atlas lingüístico, de um instrumento analítico, que podemos encontrar nos vocabulários dialetais, nos textos e nas várias monografias sobre os dialetos. Vimos, por exemplo, que o corte transversal efetuado pela Geografia Lingüística separou e isolou, por assim dizer, a palavra gal’o, gal’ e a fez aparecer à superfície, sem saber o que fazer com ela, enquanto uma visão vertical, com ajuda dos vocabulários dialetais e dos textos, pode mostrar-nos as continuações deste estrato superficial em profundidade, e, ao mesmo tempo demonstrar que a palavra é antiga e ainda viva em bearnês. Como a análise deve complementar a síntese se não quiser chegar a resultados errôneos, os vocabulários dialetais, instrumentos de trabalho analítico-histórico, complementam o sintético-sincrônico dos atlas lingüísticos.

Os atlas lingüísticos, que trabalham com o geral, reproduzem comumente uma língua padronizada, não querem nem podem tampouco descer aos detalhes da vida da linguagem, oferecem apenas uma seleção dos fatos lingüísticos. Ao contrário, os vocabulários dialetais põem as diversas palavras à luz justa do ponto de vista semântico, cultural e histórico, e dão todos os detalhes referentes ao uso, ao significado etc. As palavras afetivas, jocosas, familiares etc., para ‘avaro’, ‘rico’, ‘cabeça’, a vitalidade e a antigüidade de gal’o, gal’, se revelam antes de tudo neste material analítico que se encontra nos vocabulários dialetais. Entretanto, também estes têm o seu ponto fraco, que é o fato de estarem neles isoladas as palavras (IORDAN-ORR,  1937: 238 e 253; JABERG-JUD, 1928: 232-3 e 238-41). Os atlas lingüísticos complementam, por sua vez, com seu material sintético e sinóptico, os vocabulários dialetais.[35]

O método da Geografia Lingüística procura, como nenhum outro, uma penetração imediata e geral na vida contemporânea da língua. Ele reforça a autonomia da palavra perante o som, mostra que os sons mudam nas palavras, que cada palavra tem o seu especial desenvolvimento fonético, que são as palavras e não os sons que ocupam o primeiro plano. Faz ver, através das palavras que podem migrar, debilitar-se, chocar entre si, desaparecer e surgir a despeito de todo o determinismo, ou seja, de toda a tradição latina etc., a atividade da força criadora, do espírito; numa palavra, a vida da língua. A Geografia Lingüística pode descobrir esta vida mais fácil e diretamente do que a História Lingüística, porque sua atenção, graças a seu instrumento de trabalho sincrônico-sintético (os atlas lingüísticos), está orientada para o macrocosmo da linguagem. A História Lingüística, no entanto, orienta-se conforme o seu instrumento de trabalho diacrônico-analítico e, portanto, isolante (os textos, dicionários dialetais, as investigações dialetológicas particulares), primeiramente para o microcosmo, e procede, por conseguinte, em direção oposta. O equilíbrio conturbado se restabelece entre o espírito e a matéria, e a autêntica vida da linguagem se descobre, enquanto a Geografia Lingüística estende a mão à História Lingüística através de um material mais perfeito.

A alta importância da Geografia Lingüística está, além disso, por um lado, em ter feito progredir consideravelmente as correntes lingüísticas já existentes, Wörter und Sachen [Palavras e Coisas] e Onomasiologia e, por outro, no fato de que ela se desenvolveu e aperfeiçoou nas novas direções da chamada Geologia Lingüística e Estratigrafia Lingüística, e de Neolingüística ou Lingüística Espacial. Contribuiu poderosamente, com estas novas correntes, para o esclarecimento da origem e da estrutura das línguas românicas.


 

 

 

 

 

 

1. Wörter und Sachen e Onomasiologia

SUMÁRIO

A corrente chamada de Wörter und Sachen (Palavras e Coisas) veio precisamente também da reação contra o predomínio da fonética e da investigação da vida na linguagem. Já antes da Geografia Lingüística e dos estudos de Gilliéron, foi possível constatar que, sem um preciso conhecimento das realidades, da natureza, das medidas, do uso etc., dos objetos não era possível aproximar-se bem da vida da palavra e fixar sua história e sua origem. Logo, destacar o conhecimento das coisas, das Sachen, é uma reação contra as chamadas “leis fonéticas” e contra o que na corrente “neogramática” havia de não vita. Toda a corrente de Palavras e Coisas, ou melhor, de Sachen und Wörter (Coisas e Palavras), como a chamou Schuchardt (SCHUCHARDT, 1922: 114 e ss.), propõe como finalidade levar o aspecto semântico ao primeiro plano na vida da linguagem, mediante o estudo profundo das “coisas”, e desta maneira não só restabelecer o equilíbrio entre som e significado, mas também, quando for possível a escolha, dar preferência à “Senhora Semântica” sobre a “Senhora Fonética”.[36] Que significado e coisa se correspondem é um fato que podemos ver em quase todos os problemas etimológicos. Mas, deve-se entender coisa num sentido muito amplo. Segundo Schuchardt, a “coisa” “se refere tanto a acontecimentos e estados como a objetos, ao sensível como ao insensível, ao real como ao irreal” (SCHUCHARDT, 1922: 118).

A etimologia pretende chegar ao conhecimento do verdadeiro, do correto (étymos) significado (LOGOS) de uma palavra. O correto e verdadeiro significado de uma palavra é o originário, ainda não mudado, ou seja, a palavra originária (T’O ÉTYMON) com a qual se indicou uma determinada coisa (Sache) (THOMAS, 1905: 2-3, 27 e ss.; MILLARDET, 1923: 369; WARTBURG, 1931a:. 222; PAGLIARO, 1930: 189; WAGNER, 1943: 15 e ss. e 23).

Enquanto não se soube, por exemplo, o que significava originariamente o italiano fégato, francês foie, catalão fetge, espanhol hígado, português fígado, romeno ficát etc., ou seja, as palavras românicas que significam ‘fígado’ ou, dito de outro modo, enquanto não se sabia que coisa (Sache) havia significado o latim ficatum, donde procedem as palavras românicas, não se conhecia a origem destas. A coisa, o significado originário, estava no costume dos gregos de engordar gansos e porcos com figos para obter um fígado maior e de melhor qualidade. Este costume, esta coisa, era indicado no grego por HEPAR + SYKOTÓN (< SYKON ‘figo’), ou simplesmente por SYKOTÓN, isto é, “fígado engordado com figos”. Os romanos importaram o SYKOTÓN da refinada arte culinária dos gregos, e o latinizaram, traduzindo-o por ficatum, com base no latim ficus ‘figo’, no sentido de “fígado de animal engordado com figos” (MEYER-LÜBKE, 1920:. 178; SCHUCHARDT, 1922: 126; MEYER-LÜBKE, 1935, n°8494; WARTBURG, 1928 e ss.: III, 490).

Sendo assim, em romeno, para designar o fígado, ao lado de ficát (no sul, na Valáquia e no Banato Meridional, existe também a palavra maiu (no norte) (PUŞCARIU, 1943: 231). Quem conhecer o húngaro e os Zustände (as “coisas”), logo verá que o romeno maiu vem do húngaro máj ‘fígado’. Para ele, a origem de maiu é evidente. Porém, se alguém conhece o húngaro, mas não os Zustände, e, portanto, não sabe que os húngaros são grandes produtores e criadores de gansos e consumidores e exportadores de fígado de ganso, não verá imediatamente a origem do romeno maiu. Entre húngaros e romenos existem hoje, mutatis mutandis, os mesmos Zustände a respeito deste assunto, que existiam na Antigüidade entre gregos e romanos. No caso de ficatum tivemos que dar preferência à “Senhora Semântica”, ao significado, à coisa, à síntese, por assim dizer. Mas quando nos perguntamos por que precisamente o fígado em certas línguas românicas é designado por continuações do latim ficatum que apresentam o acento ora na primeira, ora na segunda sílaba e que, às vezes, têm um e e outras um i na primeira sílaba,[37] não nos podemos descuidar da “Senhora Fonética”, pois esta última deve tomar a si o trabalho mais pesado do ponto de vista científico, ocupando-se da análise.[38]

Para Schuchardt, que junto com o indo-europeísta Rudolf Meringer é o pioneiro do método Palavras e Coisas, as coisas vem em primeiro lugar, e ela existe efetivamente, inclusive por si só, completa e em sua integridade, enquanto a palavra depende dela, está ligada a ela e é um satélite seu. Por isso, ao contrário de Meringer, ele fala de Sachen und Wörter, e não Palavras e Coisas: uma concepção em que os dois termos são entendidos não como conceitos independentes, mas em estreita correlação entre si. O Sachforschung (estudo das coisas), para ele, não deve estar ao lado do Wortforschung (estudo das palavras), mas ambas devem interpenetrar-se mutuamente. A conjunção das mesmas em Sachen und Wörter deve ser considerada não como um signo de adição, mas de multiplicação: “que se desenvolva uma Sachwortgeschichte (história da coisa-palavra)” (SCHUCHARDT, 1922: 116-7). Desta Sachwortgeschichte nos dão testemunho seus clássicos trabalhos neste campo. Já em 1904 ele fala com entusiasmo de um Bilderatlas (atlas de imagens) com fotos e desenhos dos objetos comuns referentes à vida cotidiana dos povos neolatinos, e considera desejável que se constituam museus etnológicos para cada povo românico e um museu românico geral no qual o romanista pudesse familiarizar-se com as coisas da România (SCHUCHARDT, 1922: 111; Cf. IORDAN-ORR, 1937: 67). Em 1909 começa a ser publicada a revista Palavras e Coisas, Kulturhistorische Zeitschrift für Sprach -und Sachforschung, por obra de Rudolf Meringer e Wilhelm Meyer-Lübke, entre outros. A denominação do novo movimento foi Palavras e Coisas precisamente por influência daquela revista, em vez de adotar o nome de Sachen und Wörter lançado por Hugo Schuchardt (IORDAN-ORR, 1937: 64-8; GRIERA, 1941: 42-3).

Graças aos estreitos laços de Sachforschung e Wortforschung, graças à Sachwortgeschichte de Schuchardt, graças a seu credo metodológico traduzido na prática, de que “jamais se deve cometer um erro de método por excesso, mas somente por defeito” (SCHUCHARDT, 1922: 108), graças a que ele reunia em grandes massas não só formas (palavras) “massa de formas’, e fatos fonéticos, mas também fatos semânticos (coisas), “massa semântica” (ROQUES, 1905: 425 e ss.; TAPPOLET, 1905: 101 e ss.), obteve-se, em meu entender, precisamente este resultado: que o equilíbrio entre matéria e espírito, conturbado pelo predomínio da fonética, ficou estabelecido e foi descoberta a autêntica vida da linguagem. Já que o fim do movimento Palavras e Coisas e o da Geografia Lingüística é o mesmo, revelar a vida na linguagem, é evidente desde logo que a Geografia Lingüística devia acrescentar outras partes ao edifício, e ao lado da Geografia da Língua devia juntar uma Geografia das Coisas.

Um exemplo clássico dos estreitos laços da Geografia Lingüística e da História Lingüística com a geografia e a história das Sachen é o das denominações para ‘serrar’, ‘segar’ e ‘colher’ nas línguas românicas. Para ‘serrar’ se dizia em latim serrare, uma forma que só esporadicamente continua nas línguas neolatinas porque se tornou homônima de *serrare (serare) ‘cerrar’ (> francês serrer, italiano serrare, espanho cerrar); além do sardo (logudorês) serrar e do espanhor serrar ou aserrar, a idéia de ‘serrar’ se expressa também muito esporadicamente no sul e sudeste da França com serrá, enquanto, por outro lado, se usam as continuações do latim secare ‘cortar’ (> italiano segare, francês scier, no sul e sudeste da França segá ‘serrar’) para ‘serrar’, ou então os compostos résecare, resecáre (> na França do sul e do sudeste résega, resegá ‘serrar’).

Mas as continuações românicas de secare não significam somente ‘serrar’, mas também ‘segar’ e ‘colher’ (antigo francês soier ‘colher’, italiano segare, antigo provençal segar, espanhol segar, catalão segar, todos com o significado de ‘segar’ e de ‘colher’, que estão presentes também nos dialetos do oeste, leste e sudeste da França). Nestas continuações, entretanto, ainda não está explicado como o latim secare ‘cortar’ pôde indicar nas línguas românicas ações tão diferentes como ‘segar’ e ‘colher’. Aqui chega uma contribuição decisiva da Sachforschung, quando nos informa que, em certa época, em território românico (e ainda hoje em certos territórios românicos) se usava para segar e para colher a foice dentada em lugar da foice de folha lisa. Como antigamente eram cortadas as plantas com a foice dentada como se fossem serradas, compreende-se que o latim secare ‘cortar’, além do significado de ‘serrar’, tenha tomado também o de ‘segar’ e o de ‘colher’. Quando a foice dentada foi substituída pela foice de folha lisa, os novos significados ‘segar’ e ‘colher’ puderam ficar sem dificuldade ao lado do de ‘serrar’.[39] Assim as vicissitudes da ‘foice’ deixaram atrás de si traços lingüísticos no espaço[40] e o conhecimento preciso, como também a história de um objeto (Sachgeschichte) se converteram em premissas indispensáveis para a Geografia Lingüística.

A Geografia Lingüística não só tem levado em conta, como merecia o movimento Palavras e Coisas, como o impulsionou vigorosamente. Entre os atlas de línguas românicas realizados até o início da segunda metade do século XX, o mais perfeito, o AIS (um Sprach und Sachatlas) com as centenas de desenhos que ilustram os objetos, os costumes, as ocupações etc. da população do território estudado, e com o suplemento publicado por um dos colaboradores do atlas com numerosas gravuras, desenhos e fotografias que mostram os trabalhos agrícolas e os instrumentos das populações da Itália e do território lingüístico reto-românico (SCHEUERMEIER,1945 e 1956), representa o passo mais significativo nesta direção.

Com o movimento de Palavras e Coisas está estreitamente ligada à chamada Onomasiologia, que estuda as diversas denominações de um objeto, animal, planta, conceito etc., num só território lingüístico ou em vários. Como a corrente de Palavras e Coisas, ela põe em primeiro plano o aspecto semântico da palavra (a Sache), e não a fonética, e, como Palavras e Coisas e a Geografia Lingüística, esforça-se por descobrir a vida da linguagem e as forças criativas na língua.

Quando, por exemplo, um passarinho como a alvéloa tem em francês e provençal nomes como saute-mottes (motta ‘torrão’), lami de laraire ‘o amigo do lavrador’ (< latim arator), pastourello (< latim pastor + -ella), bouyèro (< latim boarius ‘boiadeiro’), vacher, vachère (< *vaccaria), pourquiéy’reto (< *porcaria), aouillère (< *ovicularia) etc., enquanto no espanhol encontramos pajarita de las nieves, nevatilla, nevereta, ou seja, ave de arribação que ao vir do norte traz a neve, e no provençal galopastre (provençal gala ‘divertir’), gagne-pastou (provençal gagna ‘ganhar’)[41] etc., todas estas denominações nos introduzem na alma dos camponeses e dos pastores. O passarinho segue o lavrador no seu trabalho, é o companheiro inseparável, a alegria do pastor, e convive com ele. Além do aspecto psicológico, também o lado cultural é iluminado pela Onomasiologia. As divisões geográficas das várias denominações da alvéloa dependem estreitamente das condições da região em que estes nomes se encontram; esta avezinha recebe o nome de bovarina na Planície do Pó, uma zona dedicada à criação de gado vacum. Na Úmbria e nas Marcas, onde se criam ovelhas, encontram-se nomes com as continuações de *pecoraria. Na Gasconha encontramos reflexos de *ovicularia e na região de Alto Loire e do Lozère os de *vaccaria, em ambos os casos completamente de acordo com a condição local de ambas as zonas (HALLIG, 1933).

Nos dialetos reto-românicos centrais, o lagarto se chama varDaomu (D = th do inglês that), salvaón (< rético vardá ou salvá ‘salvar’ + om ‘homem’) (TAGLIAVINI, 1926: 149 e 183; MEYER-LÜBKE. REW, n° 9502, 7557 e 4170), na Lombardia se chama salva-christiàn, e nos dialetos franceses éveillette; todas estas denominações correspondem à Sache, isto é, às crenças populares. Na Itália, França e Catalunha é corrente a tradição popular de que o lagarto adverte e desperta os que dormem ao ar livre, para salvá-los da mordida das cobras (TAGLIAVINI, 1946: 117; GRIERA, 1928: 30; ROHLFS, 1928: 23).

A Onomasiologia, que inicialmente era praticada com a ajuda de dicionários e de vocabulários dialetais, textos, monografias dialetais etc., recebeu poderoso impulso graças aos atlas lingüísticos. Um atlas, com efeito, não é outra coisa senão uma coleção de mapas onomasiológicos. O mapa n° 1 do ALF, por exemplo, não é mais que um estudo sobre as denominações da ‘abelha’ no território galo-românico (JABERG, 1936: 42), pois o dito mapa responde à pergunta: Como se chama este inseto e onde leva os nomes de ef, mouchette, mouche à miel etc.? À pergunta de “por que se usa um determinado nome”, “por que, por exemplo, no território galo-românico tenham sido dados à abelha os sobreditos nomes”, pode responder a Onomasiologia Diacrônica, porque as denominações mesmas e sua distribuição geográfica foram determinadas por um processo histórico.

Desta maneira, os atlas lingüísticos favoreceram poderosamente os estudos do tipo Palavras e Coisas contribuíram eficazmente para o nascimento de toda uma série de estudos onomasiológicos. Estes estudos onomasiológicos, ou monografias sobre as palavras, que em certo sentido são as enciclopédias dos objetos usuais, atividades etc., da população românica, referem-se, entre outras coisas, à casa, ao curral, à agricultura, à apicultura, ao pastoreio, aos instrumentos agrícolas, ao mobiliário e utensílios das casas, aos fenômenos atmosféricos etc. Em lugar de um só objeto ou conceito, ou de poucos, pode ser investigada onomasiologicamente toda a cultura popular, todo o caráter folclórico de uma região ou de um país. Pode, além disso, priorizar o aspecto diacrônico ou o sincrônico, isto é, pode focalizar o assunto mais lingüisticamente com etimologias e reconstruções, ou mais descritivamente do ponto de vista dos objetos e da cultura popular.

Aplicando o primeiro método,[42] pôde-se demonstrar que a população da Ilha da Sardenha, que é bastante conservadora e que hoje em dia está formada em grande parte por camponeses e pastores, era originariamente só de pastores. Com efeito, foi provado que as palavras sardas referentes ao pastoreio, à criação e à vegetação dos pastos são freqüentemente de origem pré-romana (BERTOLDI, 1949: 130), enquanto só com a ocupação romana foram introduzidos na ilha objetos e conceitos referentes à agricultura, à viticultura, aos cereais etc. Instrumentos agrícolas como o sardo aratru ‘arado’, yugu ‘jugo’ e farke ‘foice’, conceitos relativos à viticultura (sardo bide ‘videira’, binza ‘vinhedo’, sarmentu ‘sarmento’) e ao cultivo dos cereais e sua moedura, sardo pod`d`ine ‘farinha fina’, simula ‘sêmola’, kribardzed``d`u ‘sêmola fina’, vêm respectivamente do latim aratrum, jugum, falcem, vitem, vineam, sarmentum, pollen, similam, cibarium (WAGNER. M.-L., 1921: 15, 20, 27, 47, 48, 49, 58, 76 e 77). No sardo se reflete também outra influência cultural, muito mais tardia e muito diferente; por exemplo, a origem do uso de abrir janelas nas casas, vindo do continente. A originária simples abertura na porta que servia de janela, chamada em sardo enniceddu ‘portinha’ (diminutivo do sardo enna ‘porta’ do latim janua) foi substituída pelo sardo ventana (< espanhol ventana) como conseqüência da ocupação espanhola que introduziu as verdadeiras janelas (BERTOLDI, 1949:132).

Com o segundo método se põe em relevo mais o aspecto folclórico e descritivo (Gegenständlich-Volkskundliche) (POP, 1950: I, 333) do que o lingüístico-etimológico. Antes de tudo, estuda-se a fundo a cultura popular de uma determinada zona, para depois cultivar o aspecto lingüístico. Assim, produziram-se monografias sobre a Gegenstandskultur de diversas regiões românicas, como a de Sanábria (o ângulo norte-ocidental da Espanha) e da zona de alta montanha dos Pireneus (KRÜGER, 1925 e 1935-9 em6 vol.),[43] as quais nos mostram que quanto mais exaustivo é o nosso conhecimento das coisas, tanto melhor se pode explicar o aspecto lingüístico, e que, sem a Sachforschung levada até os detalhes (trocando-se realmente Palavras e Coisas por Sachen und Wörter) (KUHN, 1941: 396), não se teriam podido explicar nunca as denominações que aparecem em certas zonas românicas.

Inicialmente, e ainda mais tarde, a Onomasiologia foi praticada com método diacrônico (QUADRI, 1952: 46 e ss.). Junto à diacronia, existe também uma Onomasiologia Sincrônica. Uma de suas correntes, orientada em sentido estruturalista, ou seja, o estudo dos chamados “campos lingüísticos” (spracliche Felder (QUADRI, 1952: 27) champs linguistiques, linguistic fields), deveria poder ser praticado utilmente também no domínio da Lingüística Românica. Analogamente ao Kraftfeld da física e à Feldtheorie da Gestaltpsychologie, fez-se uso do conceito de Feld (= campo) também na Lingüística, e foi utilizado pela primeira vez pelos não-romanistas G. Ipsen, W. Porsig, A. Jolles e, sobretudo, Jost Trier (TRIER, 1934: 430 e ss.; WARTBURG, 1946: 148 e ss.; ÖHMAN, 1951: 72-89 e 1953: 125). A teoria dos sprachliche Felder aplica os fundamentos da Gestaltpsychologie à estrutura do léxico (ÖHMAN, 1951: 81-2; ULLMANN, 1952a: 173; ÖHMAN, 1953: 128.). Segundo Trier (TRIER: 1931: 1-26), nenhuma palavra vive em estado de isolamento na consciência dos falantes, antes está rodeada de toda uma série de expressões ligadas por significado, que formam, no interior de todo o tesouro lexical, um Wortfeld (= campo de palavras) mais ou menos fechado.[44] Na base deste método são estudadas de modo sincrônico em certo período de tempo as palavras de um campo conceitual determinado, como, por exemplo, no início do século XIII, as palavras alemãs que pertencem ao círculo conceitual do entendimento, como “sabedoria’ (Wïsheit), ‘arte’ (Kunst) e ‘astúcia’ (List) (TRIER, 1934: 432-8). Como o mesmo “campo lingüístico” é estudado em diversas épocas porque são feitos diversos cortes horizontais, a sincronia se torna diacronia, o trabalho se faz comparativo e, desta maneira, como conseqüência do confronto de cortes sincrônicos sucessivos, as mudanças lingüísticas e estruturais do léxico de uma época para outra são tomadas em consideração (QUADRI, 1952: 118 e ss., 149 e ss). Deste modo, a Onomasiologia, graças a este método que foi aplicado nas investigações de Trier e de sua escola, é praticada com uma combinação de diacronia e sincronia (ÖHMAN, 1953: 128). As investigações sobre os “campos lingüísticos” (sprachliche Felde) de Trier aperfeiçoaram o método da Onomasiologia, originariamente diacrônica, também porque tornaram possível o exame científico não só das denominações de conceitos em campo material (por exemplo, ‘arado’, ‘mão’, ‘foice’), mas ainda de conceitos dificilmente delineáveis no campo espiritual (como ‘beleza’, ‘orgulho’e ‘pícaro’), que são objeto de grandes mudanças. Criticou-se com razão, como acabamos de ver, que a teoria dos “campos lingüísticos” se tenha restringido exageradamente apenas ao campo espiritual (QUADRI, 1952: 149-54). Enquanto para o território germânico possuímos toda uma série de trabalhos referentes às investigações sobre os “campos lingüísticos”, tanto sincrônicas como diacrônicas (QUADRI, 1952: XVII, 152, 154, 231-2), no território românico tivemos até a metade do século XX apenas três estudos no total (SCKOMMODAU, 1933; BECHTOLD. 1935: 21-180; FISCHER, 1938). Fora destes estudos, no que se refere às línguas românicas, os “campos lingüísticos” só têm sido tocados diacronicamente.[45] O único estudo diacrônico seriamente delineado para um Wortfeld, o que trata das denominações das árvores frutíferas nas línguas românicas (SCHÖNEWEISS, 1955), demonstra que é preciso distinguir claramente entre um dingliches Wortfeld (“campo léxico de objetos”), ao qual pertencem os nomes das árvores frutíferas, e um Intellektualwortfeld como aqueles com que trabalha Trier. Além disso, faz ver que, no campo lingüístico das árvores frutíferas, a palavra possui, contudo, certa independência; que é membro, mas não fragmento, do Wortfeld, e que o mesmo Wortfeld neste caso não tem um ponto central, um Feldkern, de modo que todos os seus membros são equivalentes.[46]

 

 

 

* * *

Outra tentativa para estudar com um método algo afim aos campos lingüísticos, os chamados “campos nocionais” (MATORÉ, 1953: 63-65),[47] em sua ambientação social, é o da lexicologia social[48] de Georges Matoré. Este autor propõe “considerar a palavra não como um objeto isolado, mas como um elemento no interior de conjuntos mais importantes, que classificamos hierarquicamente, partindo de uma análise das estruturas sociais” (MATORÉ, 1951).[49] Seu ponto de partida é, portanto, estruturalista, como o de Trier.

Os cortes sincrônicos de Matoré não são feitos, como faz Trier, seguindo certas épocas ou séculos, mas na base de uma teoria das gerações bem conhecida na literatura e em outras ciências (MATORÉ, 1953: 57-8). No que se refere ao francês, por exemplo, segundo este método, o período entre 1520 e 1887 se divide em onze gerações (para uma geração se calcula de 30 a 36 anos), e dentro destas “gerações lingüísticas” se estuda sincronicamente a estrutura lexicológica (MATORÉ, 1953: 59-61). No quadro dos cortes históricos e dentro do “campo nocional” Matoré sublinha os chamados mots-témoins e os mots-clés.

Os mots-témoins, ou neologismos, deveriam ser os símbolos ou os comentários às mudanças na estrutura social.[50] A introdução da palavra coke, por volta do ano de 1770, deveria ser, por exemplo, o primeiro sinal do nascimento do capitalismo industrial na França, já que desde o tempo em que o carvão coque substituiu a lenha na indústria metalúrgica, deve ter começado a grande indústria. O aparecimento da palavra magasin, ao contrário, deveria mostrar, segundo Matoré, que entre 1820 e 1825 uma nova concepção comercial fez surgir esta instituição. O aparecimento de palavras como employé, commis, rayon, facture, client etc. deveriam estar em relação com o aparecimento de magasin (MATORÉ, 1951: 30-2 e 1953: 66). Mas a grave insuficiência do método dos mots-témoins aparece, por exemplo, pelo fato de que magasin não pode, na verdade, refletir o nascimento de uma nova concepção comercial entre 1820 e 1825, porque esta palavra, já em 1723, significava, num decreto real, tanto boutique como magasin.[51] Assim, temos magasin “armazém”, “depósito”, no sentido de ‘barraca’, ‘bazar’, e ‘grande armazém’, usado cem anos antes do que supõe Matoré (KRAUSS, 1955: 384-90).

Às vezes, os mots-témoins refletiriam as rápidas mudanças no campo dos costumes e das modas e emanariam, com certa nostalgia, “nos léxicos em que dormem, esse perfume rançoso que é a graça das coisas tristes”, como dandy, ou então lion, lionne (MATORÉ, 1951: 13-4, 45, 46, 56 e 228).

O mot-clé, ou seja, uma “unidade lexicológica que expressa uma sociedade”, indicaria, finalmente, segundo Matoré, um ideal ao qual se aspira numa certa sociedade, como honnête homme, philosophe, que representam a “consciência viva de seu tempo”, até a metade do século XVII e no século XVIII, respectivamente (MATORÉ, 1953: 67-9).[52]

Concluindo, a realização de uma semântica estrutural, baseada nos “campos lingüísticos” (champs linguistiques) ou seus “campos nocionais”,[53] de uma Onomasiologia Estrutural e de uma história estruturada do léxico, pertence, por enquanto, a coisas do futuro,[54] já que antes disso precisamos de uma grande quantidade de monografias sincrônicas e diacrônicas, solidamente construídas (ULLMANN, 1952: 303-9; ÖHMAN, 1953: 134; GUIRAUD, 1955: 68-82; BALDINGER, 1956: 387-8).

A semântica estrutural entendida noutro sentido, ou seja, como estando em relação com a estrutura, com o contexto social, é posta em prática com um método diacrônico seguro no trabalho de K.-J. HOLLYMAN. Le développement du vocabulaire féodal en France pendant le Haut Moyen Age (Étude sémantique). Société de publications romanes et françaises, LVIII. Gênova-Paris, 1957

...as palavras estudadas neste trabalho se referem todas à estrutura social do feudalismo. Traçando de novo sua história semântica, reconhece-se que esta forma parte da mudança geral que vê a sociedade antiga ser fundida, vê nascer a sociedade feudal e vê como o latim da Gália se transforma no francês.

A noção de estrutura semântica é frutífera, portanto, se for utilizada como complemento da concepção de uma semântica funcional [entendendo-a não no sentido fonológico e estruturalista]... É o contexto social que propõe o neologismo semântico; é a estrutura semântica que ajuda a sua definição e se acomoda a sua expressão.


 

 

 

 

 

 

2. Geologia Lingüística e Estratigrafia Lingüística

SUMÁRIO

Vimos como a Geografia Lingüística, mediante a observação de diversos estratos de palavras, se converteu em Geologia Lingüística, e como, por exemplo, os fósseis é, és (< latim apis), na periferia do domínio lingüístico francês, puderam indicar que o estrato, que remonta a apis, cobriu originariamente todo o território francês, uma constatação geográfico-sincrônica que mais tarde foi confirmada pelo fato de que no antigo francês ef, és ‘abelha’ estiveram realmente em uso. Desta maneira, a Geografia Lingüística restabelece, com ajuda da História sobre a base de uma situação sincrônica, a continuidade, a coesão de um estrato de palavras (Cf. DAUZAT, 1948: 42). Os resíduos de uma palavra não devem, necessaria-mente, como neste exemplo, encontrar-se numa posição periférica. Sempre que se puder encontrar uma ou várias pequenas zonas de palavras espalhadas numa posição geográfica qualquer, é possível restabelecer a continuidade, a coesão das zonas dessas palavras.

Assim, por exemplo, levando em consideração a área muito fragmentada do nome èga ‘égua’ em alguns territórios mais ou menos dispersos da França Meridional e dos Alpes e, baseando-nos no fato de que no norte da França já estava em uso, no século XIII, o antigo francês ive ‘égua’ e no sul èga, podemos chegar à conclusão de Geologia Lingüística de que a palavra originária com este significado no território galo-românico era o latim equa (> antigo francês ive, na França meridional èga, antigo provençal èga). Este estrato originário foi recoberto no sul pelo estrato cavala, cavale, derivado do italiano cavalla (< latim caballa) e no norte pelo estrato jument (< latim jumentum ‘besta de carga”), porque aqui se usava como besta de carga quase exclusivamente a égua; por conseguinte, a partir do século XIV já não se pode descobrir em francês nenhum traço de ive ‘égua’ (DAUZAT, 1948: 34-8; WARTBURG, 1928: II, 2-3, III, 233; V, 63-4; BLOCH-WARTBURG, 1932: 402; ROHLFS, 1954: 74-6).

Deste modo, a Geografia Lingüística, aplicada por Gilliéron ao domínio lingüístico francês, desenvolveu-se e se aprofundou posteriormente numa Geologia Lingüística (Meisterw., I, 367; HATZFELD, 1932: 435; IORDAN-ORR, 1937: 153, 158 e 209; KUHN, 1947-8: 36). Gilliéron, não obstante, por haver-se limitado exclusivamente ao francês, não pôde manifestar suficientemente a importância do método geológico introduzido por ele na Lingüística Românica.

Se nos dedicamos a examinar o estrato de uma palavra ou a difusão geográfica de certas palavras fora dos limites do domínio lingüístico francês, noutras línguas românicas ou não-românicas, valendo-nos dos princípios de coesão e continuidade das áreas de palavras, podemos chegar a confirmar a existência de palavras que já não existem em francês nem nas outras línguas românicas. Para ‘paróquia’, por exemplo, se diz em francês paroisse (do latim eclesiástico parochia). Nas outras línguas neolatinas se empregam para este conceito também as continuações do latim plebs, que tomou o significado de ‘paróquia’: italiano pieve (até nos dialetos setentrionais), rético (engadinês) plaif, (friulês) plef. Enquanto nem nos topônimos é possível descobrir marca alguma do latim plebs com este significado nem na Itália Meridional, nem na França, nem na Península Ibérica, encontra-se ainda hoje vivo nas línguas célticas, como, por exemplo, no címbrico (de Gales) plwyf, plwy ‘comunidade, paróquia’ (e dali foi importado no século VI pela Bretanha). Como o latim da Britânia é a continuação do latim da Gália, é bastante provável que o latim plebs, no sentido de ‘paróquia’, estivesse presente, noutro tempo, também em território francês. Devemos concluir, pois, que o estrato plebs, que noutro tempo se estendia pela maior parte da Itália, da Suíça, França e Inglaterra, foi coberto pelo estrato mais recente parochia (> francês paroisse, italiano parrocchia, inglês parish) de tal maneira que não ficou nada do estrato anterior em território lingüístico francês (JUD, 1917: 22-3 e 1934: 46. Cf. também DAUZAT, 1948: 40; TAGLIAVINI, 1952: 133 e SERRA, 1952-3: 3 e ss.).

Inclusive, há palavras latinas, das quais não se encontra rastro nas línguas românicas, como o latim Saturni dies, a palavra originária com que os romanos indicavam o sexto dia da semana e que, acolhida nas línguas germânicas já no século IV depois de Cristo, deu ali o médio holandês saterdach, holandês zaterdag, médio e baixo alemão sater(s)dach, inglês saturday. Como os germanos tomaram dos romanos os nomes dos dias da semana já no século IV, é seguro que Saturni dies existia também em território românico. Aqui foi substituído, por influência do Cristianismo, no século IV, pelo latim sabbatum, sambatum, um empréstimo do hebraico schabbat através do grego SABBATON. Esta palavra greco-hebraica chegou, ao longo do Ródano, do Danúbio e do Reno até a România e a Germânia (romeno sâmbătă, italiano sab(b)ato, francês samedi, antigo provençal disapte, catalão dissabte, espanhol sábado, português sábado, alemão Samstag) (JUD, 1917: 33; MEYER-LÜBKE, 1935, n° 7479; FRINGS, 1932: 26, 27, 29, 35, 36, 47, 50, 54 e 55; DAUZAT, 1948: 39, 40 e 200; BLOCH-WARTBURG, 1932: II, 252; BLOCH-WARTBURG, 1950: 534; WARTBURG, 1956: 44 e ss.).

Assim como Saturni dies, faltam também, por exemplo, as continuações românicas do latim catillus (espalhol lebrillo, ‘espécie de vaso grande e vidrado para diversos usos domésticos’), diminutivo do latim catinus ‘alguidar’ (> romeno căt`ăn, sardo (logudorês) kadinu, lombardo kadin, rético (friulês) k’adin etc.). Em vista da falta de catillus nas línguas românicas, poderíamos ser tentados a supor que esta palavra latina não era usada na linguagem popular. Mas nos equivocaríamos, como o demonstra o fato de que em dois territórios românicos, muito distantes entre si e marginais, em território alemão e basco, o latim catillus está presente respectivamente nas formas Kessel e gatulu, ‘alguidar’ (JUD, 1917: 31; MEYER-LÜBKE, 1935, n° 1769; FRINGS, 1932: 58 e 191-2.).

Vemos, portanto, como é possível, aplicando o método da Geologia Lingüística, tendo por base elementos latinos vindos à tona em territórios marginais não românicos (címbrico plwyf, holandês Zaterdag, inglês Saturday, alemão Kessel, holandês ketel, basco gatulu), concluir pela existência de áreas de palavras latinas sepultadas em território românico (plebs, Saturni dies, catillus). Estes elementos latinos no címbrico, inglês, alemão, holandês e basco são as relíquias Wortrelike, Reliktwörter, da inundação lingüística latina (românica) que noutro tempo cobriu inteiramente ou em parte aquelas terras e mais tarde se retirou delas (JUD, 1917: 2).

Contudo é necessário distinguir Reliktwort de empréstimo. Reliktwort é um resíduo de uma comunidade lingüística vencida, no qual esta mantém palavras da própria língua, ou melhor, a comunidade lingüística vencedora toma elementos da vencida. A diferença mais evidente entre Reliktwort e empréstimo está no fato de que o primeiro está sempre geograficamente limitado a um território em que ocorreu uma vitória lingüística ou uma superposição, enquanto o segundo não tem necessidade de estar geograficamente limitado. Zaterdag e Kessel vivos somente em área germânica, plwyf somente em área címbrica, gatulu só no basco, não são empréstimos, mas Wortrelikte latinas. O francês sillon ‘sulco’, que se encontra exclusivamente em território galo-românico e catalão, de *selione, é uma Reliktwort gálica, enquanto carrus na România fora do território gálico, difundido nele a partir de sua pátria de origem (a Gália), é um empréstimo gálico (JUD, 1938: 327 e 1945-6: 70-1). No caso de uma Reliktwort, trata-se de uma palavra tomada da língua do substrato ou da do superestrato (FRINGS, 1932: 38-9, 41-2, 57, 72, 110 e 190-1; Wartburg, 1950: 156; GAMILLSCHEG, 1950: 2, 38). Deste modo, a Geografia Lingüística, aprofundada na Geologia Lingüística, nos conduz ao problema do substrato e do superestrato e ao mesmo tempo aos problemas da romanização. A existência de Reliktwörter, que pudemos conhecer graças à Geografia e à Geologia Lingüística, nos faz ver, com efeito, que ao lado dos territórios ganhos para a România (por exemplo, a Gália), há outros territórios romanizados (por exemplo, a Germânia e a Britânia) que foram perdidos, mas com alguns traços lingüísticos românicos.

Os dados sincrônicos de um atlas lingüístico nos mostram que áreas de palavras periféricas ou interrompidas, como, por exemplo, é, és (< apis) e èga (< equa), representam a área originária de certas palavras, uma constatação que é confirmada pelos dados históricos. Os atlas nos mostram também quais os estratos de palavras que se superpuseram aos originários. Mas não nos esclarecem como puderam realizar esta superposição de vários estratos, uma circunstância que tem sua importância quando se trata da origem e das migrações das palavras. É, pois, a chamada Estratigrafia Lingüística que leva em consideração a história desta superposição de estratos de palavras. Ela aperfeiçoa o método da Geografia Lingüística com o histórico, e se dedica à procura sistemática das palavras que aparecem nos mais antigos documentos medievais. A Estratigrafia Lingüística é, portanto, a Geografia Lingüística Medieval (ROHLFS, 1950-52: 24).

Pode-se assegurar, por exemplo, com base nos dados do mapa 530 do AIS, que o italiano bosco se usa hoje em todas as partes da Itália e que selva (< latim sĭlva) se encontra só esporadicamente na Campânia, no Lácio Meridional e nas Marcas, ou seja, na Itália Centro-Meridional. Posto que sabemos que a palavra originária para ‘bosque’, na Itália como na França, era silva (cf. o antigo francês selve) (BLOCH-WARTBURG, 1932: I, 308), chegamos, evidentemente, à conclusão de que como no caso de é, és (< latim apis) e de èga (< equa), o estrato selva foi coberto na Itália por um estrato bosco.

Para a origem da forma vencedora, italiano bosco, não se pôde escolher entre o grego BOSKÉ ‘pasto’ e o germânico ocidental *bosk ‘bosque’. A dificuldade estava em que os dados sincrônicos do AIS constatam somente a superposição de bosco a selva, mas não podem responder à pergunta de como pôde ser realizada esta superposição. É a palavra grega que subira do sul para o norte ou é a germânica que descera do norte para o sul? Mas, uma vez que se pôde estabelecer, com base nos mais antigos documentos medievais, que na parte meridional da Itália (a partir de Gúbio) o conceito de ‘bosque’ não se encontra nunca representado por bosco, mas por silva ou selva, enquanto boscum só pôde ser lido em documentos da Itália Setentrional, e que quanto mais se avança do norte para o sul mais tardiamente se encontra boscum (em Asti e Cremona em fins do século IX; em Monza, Milão e Parma na primeira metade do X; em Bréscia, Novara, Bóbis e Emília na segunda metade do X; em Florença em 1038; em Gúbio em 1121), foi necessário renunciar à origem grega do italiano bosco e aceitar a origem germânica. Se a palavra tivesse sido de origem grega, deveria ter vindo do sul para o norte; mas, já que não ocorre nos documentos medievais procedentes da Itália Meridional, enquanto bosco se encontra somente nos que procedem da Itália Setentrional, é seguro que se trata de uma palavra de origem germânica (AEBISCHER, 1939: 417-30).

Desta maneira a Estratigrafia Lingüística, combinando os dados sincrônicos dos atlas lingüísticos com os dados históricos, pode completar o método da Geografia Lingüística, precisar qual foi a estratigrafia dos diversos estratos de palavras e, por conseguinte, esclarecer a origem das mesmas (IORDAN-ORR, 1937: 209; BARTOLI-VIDOSI, 1943: 17; KUHN, 1947-8: 36 e In: BOLÉO, 1951: 403-10).


 

 

 

 

 

 

3. Neolingüística ou Lingüística Espacial

SUMÁRIO

A chamada Neolingüística não é outra coisa senão a corrente Neogramática alicerçada nos princípios da Geografia Lingüística. A Neolingüística, cujo nome aparece pela primeira vez em 1925 (BARTOLI, 1925), tem sido considerada em princípio como uma reação contra os neogramáticos, e mais exatamente contra o predomínio das “leis fonéticas” na doutrina destes últimos. Mas, assim como os neogramáticos, também os neolingüistas, na prática, caíram em contradição com sua teoria. Eles, com efeito, não eram contrários às “leis fonéticas”, antes, até haviam estabelecido outras leis parecidas. Não há nada na Neolingüística que mereça o nome de “nova”, e no que se refere à Lingüística, comparada com a Grammatik da corrente Neogramática (Junggrammatische), ela é nova unicamente no fato de se basear em fundamentos geográficos. Enfim, quer representar a mesma reação que representou a Geografia Lingüística contra a escola Neogramática. Por isto Bartoli é mais exato quando, mais tarde, prefere o nome de Lingüística Espacial ao de Neolingüística (IORDAN-ORR, 1937: 273-8; BARTOLI, 1945: 177, nota 14; TAGLIAVINI, 1952: 34-5).

A Lingüística Espacial, servindo-se da Geografia Lingüística, consegue estabelecer certas normas areais, que derivam da posição da palavra no espaço. Ela, como a Geografia Lingüística, nos faz ver de que modo a história lingüística deixa suas próprias marcas no espaço. O método da Lingüística Espacial pode prestar serviços úteis ao estabelecer as relações cronológicas entre diversos fenômenos lingüísticos. Antes da Geografia Lingüística e da Lingüística Espacial, para se poderem estabelecer as relações cronológicas entre dois fenômenos lingüísticos era indispensável referir-se exclusivamente à documentação. Por exemplo, se uma palavra estava documentada mais cedo do que outra, supunha-se que era mais antiga (BARTOLI, 1925: 3; PAGLIARO, 1930: 174).

Graças à lingüística Espacial, podem ser estabelecidas as seguintes cinco normas a respeito das relações cronológicas entre as palavras:

1.        Quando, de duas fases cronológicas de uma palavra, uma se encontra numa área isolada ou distante das correntes de tráfico e de difícil acesso, esta costuma ser a mais antiga. A fase latina mais antiga haedus ‘cabrito’ está presente na isolada Sardenha, na forma do sardo (logudorês) edu, e no romeno, separado do resto da România, na forma ied. A fase mais recente caprittus continua num território não isolado, acessível ao tráfico, na Itália (italiano capretto). Comparem-se, por exemplo, as fases latinas mais antigas domus, magnus, agrestis e ianua com as mais recentes casa, grandis, silvaticus e porta, respectivamente, em sardo (logudorês) domo ‘casa’, mannu ‘grande’, arèste ‘selvagem’, giànna ‘porta’, e em italiano (casa, grande, selvatico, porta). Naturalmente, ocorrem também casos contrários, nos quais a fase mais recente aparece em sardo (logudorês) e a menos recente em italiano, que não está isolado (por exemplo, italiano volere < velle, volere, e sardo (logudorês) kérrere ‘querer’ < quaerere), mas são menos numerosos (BARTOLI, 1927: 3-6; DAUZAT, 1927: 107; PUŞCARIU, 1943: 255; BARTOLI-VIDOSSI, 1943: 35-6).

2.        Se de duas fases cronológicas, uma aparece (ou apareceu) em áreas laterais e a outra na área central, a primeira costuma representar a fase mais antiga e a segunda a mais recente. A fase mais antiga do latim fervere se encontra, por exemplo, nas áreas laterais (Península Ibérica, Dácia) (>português ferver, espanhol hervir, romeno a fierbe); a mais recente bullire, cheia de expressividade, encontra-se em territórios que são relativamente mais centrais, como na Catalunha, na Gália, nos Alpes reto-românicos e na Itália (> catalão bullir, provençal boulhir, francês bouillir, rético (friulês) bòli, italiano bollire). O latim arena ‘areia’ conservou-se, por exemplo, nas áreas laterais (romeno arină, espanhol arena, português areia), enquanto no centro se encontra a fase latina mais recente sabulum (> francês sable, italiano sabbia). Num limitado território românico podemos constatar a mesma situação: na Romênia se encontra arină (ou anină) ‘areia’ no norte e no sul, isto é, nas áreas laterais, enquanto no centro se usa para areia o romeno nisip (de origem eslava) ou romeno homoc (que vem do húngaro) (BARTOLI, 1927: 6-8; PUŞCARIU, 1943: 252 e 255).

3.        Quando de duas fases cronológicas, uma aparece (ou apareceu) num território mais extenso que a outra, a que está mais amplamente difundida costuma ser a mais antiga. Das palavras latinas causa e lucrum, frigidus e recens, findere e crepare, frater e fratellus, por exemplo, as fases mais antigas causa, frigidus, findere e frater, estão presentes num território mais extenso (português coisa, espanhol cosa, francês chose, italiano cosa; português frio, espanhol frío, francês froid, italiano freddo; português fender, espanhol hender, francês fendre, italiano fendere; napolitano frate, antigo italiano frate, siciliano frati, sardo fradi, rético ocidental frar, fra, friulês, fradi, piemontês fráire, provençal fraire, francês frère, romeno frate ‘irmão’) do que as mais recentes lucrum, recens, crepare e fratellus (romeno lucru ‘coisa’, rece ‘frio’, a crap㠑fender’; italiano fratello, lombardo fradèl, venesiano fradelo, córsico fratellu, sardo (galurês) frateddu). O caso contrário, isto é, que a fase mais recente pode ser encontrada em território mais extenso, também se realiza, embora menos freqüentemente (por exemplo, a fase mais antiga do latim li(n)gula, densus, só no romeno lingur㠑colher’, des ‘denso’, enquanto a mais recente, cochlearium e spissus, se encontra no português colher, espanhol cuchara, francês cuiller, italiano cucchiaio; português espesso, espanhol espeso, francês épais e italiano spesso) (BARTOLI, 1927: 10-2; MEYER-LÜBKE. REW, 1781, 3312, 3512, 3485, 5146, 7109 e 2313; DAUZAT, 1927: 107; PUŞCARIU, 1943: 256; BARTOLI-VIDOSSI, 1943: 38-9; BERTOLDI, 1949: 110-3).

4.        Territórios colonizados (romanizados) mais tarde costumam conservar uma fase mais antiga do que a Itália; ou seja, o latim da Itália costuma ser menos arcaico do que o das províncias do Império. A fase mais antiga comedere, avunculus, lingula, se conserva, por exemplo, no latim das províncias, Ibéria, Gália, Dácia (espanhol e português comer, francês oncle ‘tio’, romeno lingur㠑colher’); a mais recente manducare, thius, cochlearium, no latim da Itália (italiano mangiare, zio, cucchiaio). O caso oposto, que a fase mais antiga esteja presente na Itália e a mais recente nas colônias, pode também ocorrer (Cf. a fase mais antiga volere no italiano volere e a mais recente quaerere no espanhol e no português querer) (BARTOLI, 1925: 13-5; PUŞCARIU, 1943: 256; BARTOLI-VIDOSSI, 1943: 39-40).

5.        De duas fases, a desaparecida ou menos vital costuma ser a mais antiga. Para ‘fogo’ ficou nas línguas românicas a forma recente do latim focus (> português fogo, espanhol fuego, francês feu, italiano fuoco, romeno foc, catalão foc) e a fase antiga ignis desapareceu (BARTOLI, 1925: 15-7).

Destas cinco normas chamadas normas areais, as três primeiras são evidentes por si mesmas depois da Geografia Lingüística e dos estudos de Gilliéron (cf., por exemplo, a presença da fase mais antiga apis nas áreas laterais da França). Todas estão cheias de exceções e de contradições, inclusive as duas primeiras, que são, contudo, as mais utilizáveis. Enquanto no geral (por exemplo, na França e na Romênia) as áreas laterais conservaram a fase arcaizante e o centro a mais recente (cf. apis e arena); na Sardenha, pelo contrário, o centro é mais arcaizante do que as áreas laterais (BERTOLDI, 1949: 136.). As razões deste fato deve-riam ser buscadas, segundo a Lingüística Espacial, no maior isolamento em que se encontra o centro da ilha em relação às áreas laterais, nas quais estão situados os portos mais acessíveis ao tráfico (BARTOLI, 1925: 7; BARTOLI-VIDOSSI, 1943: 36). Assim vemos que a segunda norma deve combinar-se com a primeira.

Mas a validade demonstrativa das mesmas normas é bastante relativa. A fase antiga do latim equa, por exemplo, segundo a Lingüística Espacial, conserva-se nas áreas laterais da România, no português égua, no espanhol yegua, romeno iapă, e a fase recente do latim caballa no italiano cavalla e na França Meridional (cavale) (BARTOLI, 1925: 7). Mas já vimos (p, 78) que o latim equa havia sido usado originariamente em todo o território galo-românico, e que o antigo francês ive ‘égua’ (< latim equa) estava vivo ainda no século XIV. Por isto as normas espaciais dever ser controladas com os dados cronológicos.

A maior insuficiência metodológica da Lingüística Espacial é a sua tendência a esquematizar e a expressar tudo com fórmulas. Quase não leva em conta as grandes variações dos fenômenos lingüísticos, suas normas são demasiadamente rígidas para poderem ser utilizadas sem distinções, e são completamente insuficientes para determinar tantos fatores múltiplos, sociais, biológicos e estilísticos, na vida da linguagem. As normas espaciais, combinadas entre si e com outros métodos, podem prestar bons serviços como critérios de orientação geral, quando se trata de estabelecer correspondências muito gerais entre as línguas neolatinas (observe-se, por exemplo, a norma terceira, que só pode ser aplicada ao conjunto das línguas românicas). Na reação contra o método demasiadamente mecânico e esquemático dos neogramáticos, na qual teve parte tão importante a Geografia Lingüística, a chamada Lingüística Espacial não significa certamente um avanço, mas, pelo contrário, um passo atrás. Em vez de descobrir a vida da linguagem, a Lingüística Espacial, na realidade, apenas sistematizou o aspecto exterior, o puramente geográfico, da Geografia Lingüística (DAUZAT, 1927: 106-8; IORDAN-ORR, 1937: 276; BARTOLI-VIDOSSI, 1943: 45-6; BERTOLDI, 1946: 69-72; BOTTIGLIONI, 1948: 9-11; BERTOLDI, 1949: 154; JABERG, 1950: 99-100; TAGLIAVINI, 1952: 34-5).


 

 

 

 

 

 

4. A Importância da Geografia Lingüística

SUMÁRIO

Resumindo os resultados da Geografia Lingüística, podemos dizer que modificou radicalmente o método da Lingüística Românica. Reagindo saudavelmente contra o esquematismo e o mecanicismo dos neogramáticos, ela, em oposição a estes, reabilitou a palavra perante o som e pôs os estudos das palavras acima dos que versam sobre os dialetos. Estabeleceu o equilíbrio entre espírito e matéria, conturbado pela corrente anterior, e descobriu o espírito na vida lingüística, situando-se num ponto de vista biológico, sociológico e semântico. No que se refere a este último aspecto, vimos quão eficazmente a Geografia Lingüística favoreceu o movimento Palavras e Coisas e a Onomasiologia e quão intensamente se ocupa das relações entre a palavra e a coisa por ela indicada. A Geografia Lingüística opera biologicamente quando se ocupa do contraste entre elementos tradicionais e elementos novos da língua, do desaparecimento dos primeiros e do triunfo dos últimos, e quando se pergunta por que são criadas outras novas, quais são os fatores que determinam seu êxito etc. Ela se situa num ponto de vista sociológico quando considera a vitalidade dos dialetos, as relações entre os falares locais socialmente superiores e inferiores, os movimentos lingüísticos etc. (JABERG, 1936: 14, 15 e 19).

A Geografia Lingüística, aprofundada em Geologia e Estratigrafia Lingüística, não só nos faz penetrar no problema do substrato e do superestrato, como também no da romanização. Efetivamente, mostra-nos que as palavras migram e se irradiam a partir de centros determinados. No francês moderno, por exemplo, o latim sitem poderia ter dado soi (sem f) (cf. antigo francês soi, e no sul e no oeste). O f foi acrescentado à palavra no século XIII em Paris por analogia com as palavras de radical terminado em f junto a um radical sem f ante a desinência s (exemplos: antigo francês noif < latim nivem, clef < latim clavem, ao lado do antigo francês nois, cles), formando-se por isso soif ao lado do nominativo sois. A partir de Paris, o francês soif se difundiu nos dialetos não muito distantes da capital ao longo do curso superior e inferior do Sena, pelos vales do Aube e do Armançon, até Orleans, a província do Borbonês e ao longo do curso inferior Loire até Nantes. O francês il faut, por exemplo, teve muito maior força de difusão do que soif. A partir da Idade Média, usava-se em francês il faut (< antigo francês faillir < latim vulgar *fallire < latim fallĕre), em provençal cal ‘é preciso’ (< antigo provençal caler < latim calere). Por influência de Paris, il faut se estendeu até o sul e, empurrando cada vez mais o provençal cal, assenhoreou-se do território situado ao norte do maciço central, do franco-provençal e, abrindo-se um caminho para o sul ao longo do vale do Ródano, estendeu-se até a sua foz, no Departamento de Gard e na Provença. No sudoeste, il faut se estendeu na zona de Bordéus e na Gasconha (neste último território se trata, portanto, de um elemento estrangeiro, não só por sua expansão geográfica, mas também pela presença do f em vez de h.) (JABERG, 1908: 6-7 e 9; DAUZAT, 1948: 212-6; MEYER-LÜBKE, 1935: 3167, 1510; GAMILLSCHEG, 1928: 804 e 402; WARTBURG, 1928 E SS.: III, 386-91 e II, 82-5; BLOCH-WARTBURG, 1932: II, 279-80 e I, 287).

Assim se difundem as palavras há vinte e um séculos, ao longo dos vales do Sena e do Ródano, primeiro do sul ao norte (cf. abeille) e depois do norte ao sul a partir de Paris (cf. soif e il faut). Além desta direção, a expansão lingüística se moveu também ao longo do Mosa, na direção de Châlons-Nancy-Metz e na de Orleans-Nantes (DAUZAT, 1948: 176).

Partindo de Paris, o francês se estendeu primeiramente às grandes cidades (Bordéus, Marselha e Tolosa) e daqui às menores, que atuam como centros de expansão de segunda ordem. De Leão o francês se expande à Provença, em direção a Genebra e Clermont-Ferrand. Graças à Geografia Lingüística podemos observar como as palavras de todas as zonas foram difundidas da capital francesa para as províncias.

Como as províncias francesas foram afrancesadas a partir de Paris, também foram romanizadas as provinciae romanas a partir de Roma, porque, como Paris para a França, Roma, durante vários séculos, e sobretudo do tempo de Augusto até o de Diocleciano, foi não só o centro geográfico, mas também o centro espiritual e econômico do mundo romano. A grande importância metodológica da Geografia Lingüística está precisamente em poder mostrar-nos em pequena escala (a expansão do francês de Paris, o afrancesamento do território galo-românico a partir da capital) de que maneira, naturalmente em direção oposta, se desenvolveu a romanização da Gália e, em geral, a de toda a România por parte de Roma. (DAUZAT, 1948: 199 e 210-6; BERTOLDI, 1946: 113 e ss.e 1949: 139).

A Geografia Lingüística, sendo capaz de esclarecer os centros de irradiação e as zonas de difusão das palavras, pode mostrar a estrutura lingüística de diferentes países. Quando, por exemplo, guiando-nos pelo ALF (mapa 1274) e pelo AIS (VIII, mapa 1573) examinamos as denominações do ‘avental’ em território francês e italiano, constatamos que na França se encontram para este conceito três grandes zonas: 1. no sudeste, faudal, fauder, faudil (do germânico falda); 2. na maior parte do território lingüístico francês, devantier, devantal (derivados de devant) etc.; 3. sobretudo no norte, com Paris como centro de irradiação, tablier (derivado de table). O êxito dos dois últimos tipos, devantier e tablier, se deve à capital francesa, donde se irradiaram e rechaçaram cada vez mais para a periferia o provençal fald- e outros tipos.

Temos, na Itália, para o mesmo conceito, cinco zonas claramente circunscritas: 1. a zona piemontesa fald (continuação da zona provençal); 2. a zona lombarda scossal (do longobardo skauz); 3. a zona toscana (latim gremium e seus derivados), que compreende a Toscana, a Romanha, parte da Emília e alguns territórios de dialetos vênetos; 4. o tipo zinale, sinale (derivações do latim sinus) em Roma, no Lácio, na Úmbria, no sul das Marcas, no norte de Abruzos e na maior parte da Apúlia; 5. zona meridional vandera, mandera, vantile, mantile, vandesino, mandesino (derivados de (a)vanti ou de mant-).

Neste caso, como noutros, a diferença de aspecto das zonas de palavras na França e na Itália é notável. Na França predominam os tipos procedentes de Paris tablier e derivados de devant. A palavra literária tablier penetra nos dialetos de todas as partes, inunda todo o país, por assim dizer. Ao contrário, na Itália, diversas zonas dialetais estão claramente delimitadas; podemos falar de tipos de palavras piemontesas, lombardas, toscanas etc. A palavra literária grembiale fica aqui limitada à Toscana e alguns outros territórios. A influência da língua literária e o da Florença não sufocam na Itália os outros centros lingüísticos como o fazem na França o francês e a influência de Paris. A estrutura lingüística na Itália é mais simples, mais evidente do que a da França, os dialetos italianos estão difundidos e precisamente limitados. Embora Florença tenha dado a forma definitiva à língua literária italiana, não pôde obscurecer a influência de outros centros lingüísticos e culturais, como Milão, Veneza, Bolonha, Roma, Nápoles etc.

A Geografia Lingüística pode, portanto, iluminar a estrutura lingüística de certos países (neste caso a da França e a da Itália) porque ela, por meio da difusão, irradiação e constituição de diversos tipos de palavras, nos mostra como a antiga centralização política, administrativa e cultural da França, com a supremacia de Paris, e a multiplicidade e diversidade política e cultural da Itália, com um grande número de centros lingüísticos e culturais, estamparam seu selo sobre as línguas destes países (JABERG, 1936: 31-42. Cf. também REICHENBERGER, 1957: 52-9).


 

 

 

 

 

 

II. O Método Idealista

SUMÁRIO

A Geografia Lingüística forma uma reação involuntária contra o método histórico-comparativo. Pode-se dizer que é involuntária porque parte da matéria sem saber de antemão onde irá parar. A Geografia Lingüística descobriu desta maneira o espírito na língua, baseada na matéria lingüística; estendeu a mão à História Lingüística, integrou-a e reconstituiu o equilíbrio conturbado pelo método naturalista histórico-comparativo entre matéria e espírito. Ambos os métodos focalizam seu trabalho do ponto de vista estritamente positivo, isto é, baseiam-se em materiais atentamente recolhidos e examinados, os quais, no caso da Geografia Lingüística, são mais completos do que no caso do método histórico-comparativo.

Enquanto a Geografia Lingüística descobre involuntariamente o espírito na vida da linguagem baseada num método indutivo-positivista, e desta maneira exerce uma reação contra o método histórico-comparativo, de outra direção veio uma reação consciente, que buscou expressamente o espírito na língua. A reação contra o método histórico-comparativo tem sido chamada “Idealismo”, cuja concepção de língua parte da intuição, do individual, do criativo, e na qual se manifesta uma aspiração ao espiritual. O paladino deste idealismo é Karl Vossler, cuja concepção de linguagem procede da de Giam Battista Vico, Wilhelm von Humboldt e Benedetto Croce.

A intuição de Giam Battista Vico, que identifica a língua com a poesia, com a arte, foi posteriormente elaborada por Wilhelm von Humboldt sobre fundamentos lingüísticos mais sólidos (PAGLIARO, 1930: 45). Segundo Humboldt, a língua é o produto do espírito humano, que se manifesta na língua como na sociedade, nas ciências e nas artes. Porque o espírito só existe como atividade, a língua não pode ser considerada como um produto (ERGON), mas como uma criação (ENÉRGEIA).[55] A língua, concebida como criação, não reproduz as coisas, segundo Humboldt, tais como são na realidade, mas tais como o falante ou os falantes as representam.[56] A visão pessoal, a Weltanschauung (TERRACINI, 1949: 226-7), segundo a qual o falante ou os falantes de uma comunidade lingüística representam a realidade que os circunda, é a innere Sprachform, ou forma lingüística interior (HUMBOLDT, 1836: 91-101); a forma lingüística externa ou äussere Sprachform (HUMBOLDT, 1836: 103) é a constituição fonética, morfológica etc. da língua (HUMBOLDT, 1836: 101-4: “Relação do som com a forma lingüística interior”). Ao lado desta forma lingüística interior considerada do ponto de vista sintético, a forma lingüística interior do ponto de vista analítico é um sistema de morfemas (TERRACINI, 1949: 226-7), “o esqueleto das possibilidades de expressão em que, simplesmente, devem ser introduzidos os semantemas [as palavras] para obter uma manifestação lingüística concreta. Ela corresponde mais ou menos ao campo da morfologia, da sintaxe e da formação de palavras” (WIJK, 1939: 8).

Embora ainda hoje possa parecer simplista o retorno à forma lingüística interior, ela reflete, não obstante, a disposição espiritual e a vida interior do falante (PAGLIARO, 1930: 56; TERRACINI, 1949: 39 e 176).[57] A título de ilustração, observe-se, por exemplo, a riqueza das denominações que o gaúcho ou o boiadeiro dos pampas sul-americanos tem para o cavalo, as quais se referem à cor do pêlo, e por outro lado sua indiferença e sua conseqüente extrema pobreza de terminologia referente ao mundo vegetal.[58] O caso do cavalo é exatamente o mesmo que para o criador da puszta húngara, e os ricos matizes de denominações pare este animal que se referem entre outras coisas à cor do pelo, reproduzem a atitude espiritual dos magiares, entre os quais ele tem tido sempre uma participação muito importante, tanto na poesia popular quanto fora dela. O reconhecimento e a representação do animal se explicam assim na innere Sprachform, que em sua essência profunda e inexplicável se aproxima de um conceito do tipo artístico (HUMBOLDT, 1836: 103). Segundo a concepção de língua de Humboldt, é a forma lingüística interior o que caracteriza a língua de um povo, pois um povo pode ser considerado como uma individualidade, tendo por base diversos fatores comuns, como sua origem, sua cultura etc., uma individualidade que possui lingüisticamente determinadas capacidades criadoras comuns, a mesma forma lingüística interior (PAGLIARO, 1930: 56-7). Enfim, deriva dele a idéia de considerar a língua como uma manifestação da “maneira de ser” (Eigenart) nacional (JABERG, 1926: 5).

A concepção de língua de Benedetto Croce, que se apóia na teoria da intuição de Bergson, identifica a impressão, a imagem, com a expressão. Daí se segue que a expressão lingüística é uma contínua criação, uma contínua impressão, um fenômeno estético. A língua, segundo Croce, é uma expressão estética, uma arte, e a Lingüística é a ciência da expressão, a estética. O Idealismo Lingüístico de Croce deve ser posto, naturalmente, como uma negação ao método lingüístico positivista do século XIX (CROCE, 1928; JABERG, 1926: 5-7; PAGLIARO, 1930: 92 e 102; IORDAN-ORR, 1937: 81-2, 115-20; hall, 1948: 24-35; TAGLIAVINI, 1948-9: 6-7; DEVOTO, 1950: I, 361).

Esta concepção “idealista” da linguagem foi posta em prática depois de 1904 por Karl Vossler, e num terreno mais propriamente lingüístico do que o fez o filósofo Benedetto Croce. Como Croce havia feito, também Vossler combateu o “positivismo”, ou seja, o método naturalista histórico-comparativo e, em geral, os procedimentos positivistas na Lingüística, que consistiam na coleta dos fatos lingüísticos, dos materiais, no exame da evolução e, sobretudo, do desenvolvimento fonético, e que, naturalmente, haviam adotado o método indutivo. Contra este método indutivo-analítico que, hoje em dia, é chamado “atomístico”, palavra que não significa nada, mas que está na moda (Cf. TERRACINI, 1952: 84), Vossler apresenta o método intuitivo-sintético, que busca por todas as partes o espírito na vida lingüística. Segundo ele, o objetivo da Lingüística não pode ser outro senão demonstrar que o espírito é a única causa real de toda mudança lingüística.[59]

Ele faz todo o possível para demonstrar que as mudanças fonéticas dependem do acento e do ritmo e que estes, por sua vez, dependem do estado de espírito de quem fala. Ocorre uma mudança fonética quando se realiza nossa intuição por meio de nosso aparelho articulatório. “Encarnação fonética da alma: isto é a mudança fonética, e precisamente mudança fonética como criação lingüística.” (VOSSLER, 1905: 58). Das inúmeras mudanças fonéticas individuais, ficam e se desenvolvem posteriormente aquelas que estão na atmosfera, por assim dizer, e para as quais existe na comunidade lingüística certa inclinação coletiva (VOSSLER, 1905: 118). Nesta afirmação vaga vemos o incerto oscilar de Vossler entre o individual e o coletivo na vida da linguagem. Por um lado está sua insegurança a respeito do coletivo, do aspecto social das mudanças fonéticas; por outro, a respeito do individual, sua atitude absolutamente negativa no que se refere ao fator psicológico. Com a Psicologia, segundo ele, não se pode empreender nada em Lingüística; como na concepção croceana da linguagem, tudo é expressão, estética e estilística.[60] Ao mesmo tempo se vê também como ele segue cuidadosamente a tese de Humboldt referente à forma lingüística interior e a de Croce referente à identificação da impressão com a expressão,[61] ao estabelecer a participação do espírito na determinação das mudanças fonéticas.

Como para Vossler toda expressão lingüística é uma criação do espírito, a História Lingüística, ou seja, a história das formas de expressão lingüística, só pode ser a história das criações do espírito; noutras palavras, história do espírito, história da cultura (JABERG, 1926: 11). Vossler expôs na forma mais concretamente lingüística sua teoria referente à coesão da língua com a mentalidade e a cultura de um povo em 1913, no livro Frankreichs Kultur im Spiegel seiner Sprachentwicklung.[62] Empreende nesse livro uma tentativa para explicar as mudanças na língua francesa literária no período citado mediante o mutável “espírito dos tempos” (Zeitgeist) da comunidade lingüística e cultural francesa; mais precisamente, mediante as variáveis posturas sociais, culturais e espirituais. Ele tenta fixar, antes de tudo, o espírito de um determinado período lingüístico, tendo por base uma visão total das condições culturais, políticas, literárias e de toda a vida daquele período. Com o espírito dos tempos conhecido desta maneira foi estabelecido um paralelo com as mutações lingüísticas. Trata-se de determinar metodologicamente as formas lingüísticas interiores que mudaram, que são diferentes, e das quais brotam as formas de expressão lingüística e toda a evolução lingüística (SCHÜRR, 1925: 68-9, 86-7; ROHLFS, 1950: 459; KÜCHLER, 1950: 33 e ss.).

Ele quer chegar à língua, portanto, através do espírito, através da cultura: “Cultura da França refletida em sua evolução lingüística”, ou melhor “Cultura e língua da França”. Afirma, por exemplo (VOSSLER, 1929: 163 e ss.), que na França, pelos fins da Idade Média (séculos XIV e XV), iniciou-se uma mentalidade comercial limitada e calculadora, afirmação que foi também confirmada por outros (HUIZINGA, 1921: 38-41, 118-9, 155, 175-6). Com este espírito dos tempos ele põe em correlação o fato de que enquanto o artigo partitivo era raro no francês antigo, no século XIII (Cf. BRUNOT, 1905: I, 235 e 1936: 110-1 e VOSSLER, 1929: 164), por exemplo, seu uso ganha tanto terreno nos séculos XIV e XV que é usado inclusive em casos como: Des evesques ont riches chappes (por Eustache Deschamps, século XIV).[63] O artigo partitivo conseguiu firmar-se em francês como conseqüência deste espírito materialista dos séculos XIV e XV.

Contra semelhante raciocínio, a crítica[64] objetou justamente perguntando: Como, se o uso do partitivo em francês se deve ao espírito mercantil da Idade Média tardia, para a qual tudo era divisível, em italiano antigo, por exemplo, o partitivo estava mais em uso do que atualmente (antigo italiano fu dato d’un bonissimo vino, mangiare del buono cogliesse dei frutti)? (MEYER-LÜBKE, 1890-92: III, 387-8) Ou seja, por que ocorreu exatamente o contrário que em francês? E a mentalidade dos italianos é hoje menos materialista do que no passado? Como, pois, na língua de povos como os espanhóis e romenos, sobre os quais não se pode sustentar que tenham uma “concepção prática, medida, classificada e calculada das coisas” (VOSSLER, 1929: 165), também está presente a tendência à partição (por exemplo, espanhol unas cartas, unos huevos, romeno nişte pâine ‘um pouco de pão’, nişte lapte ‘um pouco de leite’), se bem que não em forma de artigo partitivo (exceto em relação com a água e com as coisas comestíveis, como no espanhol cogió del agua no Cantar de mío Cid, dar de la fruta em Santa Teresa (WAGNER, 1951: 372)? E como se explica que comunidades lingüísticas como a inglesa ou a americana, onde o espírito prático, realista, está muito desenvolvido, não cheguem a conhecer o artigo partitivo propriamente dito?

O aparecimento do partitivo em francês evidentemente não tem nada a ver com a mentalidade mercantil da Idade Média tardia. O erro do método idealista consiste em considerar o aparecimento do partitivo francês como uma criação súbita do século XIV, sem levar em conta que na realidade surgiu em francês de maneira gradual e não por um golpe de mágica de um fator espiritual. O método positivista, ao contrário, investigará como estão realmente as coisas a respeito do partitivo em francês, nas outras línguas românicas e no latim, e não andará ecleticamente, como o idealista, em busca de exemplos para sustentar a sua intuição.

O latim dizia bibere aquam, panem edere; o latim vulgar começou a introduzir o partitivo-objeto com de (bibere de aqua),[65] um procedimento que se fez cada vez mais comum e que, graças a sua expressividade, predominou na língua popular sobre o genitivo partitivo. O genitivo partitivo, já desde os tempos mais remotos, havia encontrado um competidor no ablativo com de (multum temporis em Cícero, Ac. 2,12; pauci de nostris cadunt em César, Gall. I, 15,2). Segundo a língua de Gregório de Tours, a construção com a preposição obteve a supremacia na Gália antes do século VI a mais tardar (parietes de cellola in qua Ioseph tenebatur, Gregorius Turonensis, Franc., I,21) (VÄÄNÄNEN, 1954: 192-8). No antigo francês se dizia boire eau, mangier pain (espanhol comer pan), ‘beber água’, ‘comer pão’, mas já no século XIII e ainda antes, primeiramente de uma maneira esporádica na língua falada, por desejo de maior precisão, usou-se o partitivo (boire de l’eau). Já a partir de fins do século XIII, encontram-se nos textos substantivos com ou sem partitivo. Os escritores do século XV usam tão freqüentemente o substantivo com partitivo como sem ele. Havendo-se empregado as duas construções uma junto à outra durante longo tempo, por associação, o uso do partitivo se fez geral. Quando no século XIV Eustache Deschamps usou des evesques na frase citada, já ninguém sentia o valor partitivo nesta expressão; é, pois, impossível que ela reflita o espírito calculador que surgia nos séculos XIV e XV (ROHLFS, 1928: 8 e 1950-2: I, 75.; SPITZER, 1914: 142; WARTBURG, 1946: 139; DAUZAT, 1950: 240).

Finalmente, contra a explicação idealista deste fenômeno fala o fato de que o aparecimento do partitivo em francês se deve, entre outras coisas, ao desaparecimento do -s final de palavra e a que o partitivo queria eliminar a confusão entre o singular e o plural (francês antigo conquerrai citez, francês je conquerrai des villes). Vimos também naquela passagem que o uso do partitivo em italiano também não tem nada a ver com o espírito calculador, mas que tem uma causa puramente lingüística: o interesse em evitar a confusão entre singular e plural (italiano conquisterò delle città, junto a conquisterò villaggi).

Em resumo: o erro do raciocínio idealista consiste em querer descobrir freqüentemente o reflexo do espírito dos tempos em fatos lingüísticos incompletos e mal comprovados. Com efeito, sustenta que em francês antes do século XIV ou XV o partitivo não aparecia nunca ou quase nunca, e que de improviso se fez comuníssimo seu emprego a partir daquela época. Se isto fosse exato, deveria ser admitido, naturalmente, que o partitivo é uma criação daquele período. Mas não é assim. Não se trata de uma contraposição, mas de um acompanhamento, durante um tempo mais ou menos longo de substantivos com partitivo ou sem ele. Vossler imagina, em sua concepção freqüentemente equivocada da língua, um falante que cria livremente e não ligado à tradição de sua língua. Leva em conta apenas um aspecto da linguagem, e o considera como algo individual, como expressão, criação, “fala” (parole), e não também como “língua” (langue) (SPITZER, 1917, col. 148; WARTBURG, 1946: 90-1).

Depois do livro Frankreichs Kultur und Sprache de Vossler, Walter von Wartburg, em sua Évolution et structure de la langue française, desenvolveu, do mesmo modo que Vossler, a relação entre comunidade e língua, e baseado em cortes sucessivos verticais (históricos) e horizontais (descritivos), demonstrou como a evolução moral, política, social e literária da nação francesa está enlaçada com a estrutura do francês. A síntese de Wartburg é, não obstante, muito mais positivista, ou seja, mais lingüística do que a de Vossler; leva devidamente em conta os fatos lingüísticos e os coletivos e sociais na vida da linguagem, isto é, a langue, e não os despreza, como faz o idealista Vossler, em benefício do individual, do criativo, da parole.

Outro procedimento idealista baseado na tese de Humboldt, que pretende considerar a língua como uma manifestação de Eigenart (maneira de ser) nacional, não vai do espírito e da cultura à língua, como Vossler, mas, ao contrário, quer chegar a conclusões, a partir da língua, sobre as condições culturais e a atitude espiritual de um povo. Neste ponto devemos introduzir uma clara distinção entre as conclusões tiradas sobre a língua de um lado pela cultura e de outro pela atitude espiritual de um povo. Para esta última, devemos nos perguntar se é possível tirar conclusões a respeito da mentalidade de um povo através das considerações sobre a sua língua. É possível chegar à maneira de ser – Wesensgestalt ou Wesensart[66] – de um povo a partir da língua? É possivel praticar a Wensenskunde (conhecimento da essência do caráter) com base na linguagem? A esta pergunta se deve responder melhor negativa do que afirmativamente, pois a Wesensart de um povo não é nunca uma coisa homogênea e porque se tem de considerar que colaboram na formação de uma língua diversos fatores: períodos diferentes, regiões diferentes, temperamentos diversificados (escritores, pensadores, políticos etc.) (KUEN, 1950: 125) e, finalmente, o que não se deve esquecer nunca, diversificadas influências do exterior (empréstimos em todos os campos: lexicais, morfológicos etc.). Apesar disso, os idealistas crêem poder obter resultados positivos em sua incansável busca do espírito.

A Wesenskunde afirma, por exemplo, baseada nas expressões do antigo francês plurent si oil (literalmente ‘seus olhos choram’) e pluret des oilz (literalmente ‘ele chora com os olhos’), usadas na Vida de Santo Aleixo e na Canção de Rolando, que em certa época os franceses choravam mais por meio de ruídos do que de lágrimas, porque de outra maneira não deveria dizer ‘seus olhos choram’ e ‘ele chora com os olhos’.[67] Ao dizer isto, parte-se da suposição de que no tempo em que foram escritos aqueles dois textos o antigo francês plorer tinha ainda o significado do latim plorare ‘lamentar-se’. Como o latim lacrimare já não vive em francês, para expressarem o mais moderado ‘soluçar’, os franceses tiveram que acrescentar a plorer (‘chorar ruidosamente’) des oilz.

Esta afirmação está completamente carente de base porque não se fundamenta em fatos lingüísticos. No francês antigo, plorer nunca significou ‘chorar ruidosamente’, mas ‘chorar’. De outro modo, não se poderia ler nos textos do francês antigo plorer soef et tendrement ‘chorar suave e ternamente’. O erro metodológico não está somente em não haver estudado suficientemente o significado do francês antigo plorer, mas também em que tendo por base o latim plorare ‘lamentar-se’, se supôs que o francês antigo plorer devia significar ‘lamentar-se, chorar ruidosamente’: ou seja, apóia-se no fato de que se considerou o problema do ponto de vista puramente francês, e não românico. Caso a investigação tivesse sido dirigida por este último ponto de vista, teria sido visto que o descolorido verbo latino flere não aparece em lugar algum nas línguas românicas, e que já bem cedo no latim popular havia sido substituído pelos verbos plorare (> francês pleurer, provençal e catalão plorar, espanhol llorar, português chorar) e plangere ‘lamentar-se em voz alta’ (> sardo pranghiri, italiano piangere, daco-romeno plungre, romeno plânge), ambos mais ricos em força e em fantasia, e o segundo particularmente mais forte do que plorare e mais distante que este do significado de flere. As formas monossilábicas, ou seja, as mais débeis, de flere, foram substituídas já no século V (por exemplo, nas Vitae Patrum) pelas formas de plorare (ploro, ploras, plorat, flemus, fletis, plorant). O que ocorreu, portanto, é que para um conceito como ‘chorar’ (latim flere) foi escolhido o conceito ‘lamentar-se’ (latim plorare), que é mais rico de tonalidades afetivas (JABERG, 1926: 13-4; ROHLFS, 1926: 126-8 e 1954: 33).

O absurdo da afirmação de que os franceses noutro tempo ‘choravam ruidosamente’, ou melhor, ‘soluçavam’ (afirmação feita com base em sua língua), manifesta-se também pelo fato de que na poesia épica espanhola aparece repetidas vezes a expressão llorar de los ojos. Será por acaso que o poema d’El Cid, em cuja vida tanto participaram as lágrimas, começa com o verso De los sos oios tan fuertemientre lorando...?[68] Também neste caso, seguindo o método idealista, dever-se-ia concluir que os espanhóis, como os franceses, antigamente choravam ruidosamente em vez de soluçarem. Esta e outras tautologias semelhantes não nos dizem nada realmente a respeito dos conceitos ‘chorar ruidosamente’ e ‘chorar’. Pode ser que os poetas das chansons de geste, que bastante raramente usam as simples locuções Roland pleure, Charlemagne pleure, Marsile pleure, tenham introduzido plorer des oilz para tornar a frase mais decorativa, e como fórmula fixa ao serviço do verso decassilábico (BESZARD, 1903: 666-7). Mas é muito mais provável que, tanto aqui quanto no espanhol, estejamos na presença de uma simples tautologia, como também são encontradas amiúde no francês antigo para outros conceitos como ‘dormir’, ‘ver’ e ‘falar’ (dormir de l’oil, veoir des oilz em Marie de France, dire de boche em Yvain) (ROHLFS, 1926: 127).

Este exemplo, tomado entre muitos, mostra-nos suficientemente com quanta preocupação devem ser considerados os resultados de uma Wesenskunde que, tendo por base a língua francesa, a respeito da “maneira de ser própria dos franceses” (seelische Eigenart der Franzosen), chega à conclusão de que estes têm qualidades contraditórias: são impulsivos e racionalistas.[69] Então, a julgar pela ordem das palavras, que em espanhol goza de grande liberdade, dever-se-ia concluir que também os espanhóis são impulsivos, o que não impede, naturalmente, que sejam também estóicos segundo a calma e tranqüilidade espanhola (espanhol sosiego) e até realistas, já que mediante o acusativo com preposição fazem uma distinção entre o animado e o inanimado (LERCH, 1932: 147-200).

Mas o maior perigo, ao se descobrirem semelhantes conseqüências, esconde-se no fato de que nenhuma língua é pura, estando todas expostas aos empréstimos. Guiando-nos pelo espanhol querer ‘amar’ (< latim quaerere) e pelo catalão estimar ‘amar’ (palavra erudita tomada do latim aestimare) (MEYER-LÜBKE, 1935: 246), dever-se-ia poder afirmar, por exemplo, que quando um espanhol ama, deseja, e quando um catalão ama, estima (aprecia). Admitamos uma influência preponderante do espanhol sobre o catalão, e poderia suceder que os catalães terminassem por usar o verbo espanhol para este conceito de ‘amar’, com a conseqüência de que, segundo a Wesenskunde, também os catalães amariam desejando (SPITZER, 1917, col. 147).

Eis aqui um exemplo de como um empréstimo pode anular completamente as conclusões da Wesenskunde. Em latim se fazia uma clara distinção entre tios e tias paternos e tios e tias maternos (irmão da mãe avunculus e do pai patruus; irmã do pai amita, e da mãe matertera). As línguas românicas não conservaram esta distinção, e o francês possui para estes quatro nomes de família unicamente duas palavras: oncle (< avunculus) e (t)ante (< amita), e o italiano, como o português, uma só palavra: zio, zia. Pos bem. Se quiséssemos afirmar, seguindo o método da Wesenskunde, que os italianos se interessam menos pelos irmãos do pai e da mãe do que os franceses, chegaríamos a uma conclusão completamente equivocada. Os italianos tinham por estes nomes de família tanto interesse quanto os franceses; porém, durante o período bizantino, seguindo a moda, os italianos introduziram os empréstimos zio e zia (< grego theíos, theía),[70] assim como o francês oncle, em virtude da moda, foi tomado de empréstimo ao alemão (Onkel) e o francês tante foi introduzido no mesmo alemão e no holandês (WARTBURG, 1937: 305; 1946: 92 e 14 e 1928 e ss.: I, 188, 189, 88 e 89; KLUGE-GÖTZE, 1934: 426 e 611; FRANCK-WIJK, 1929: 688).

O método da Wesenskunde chega, finalmente, a resultados completamente errôneos quando opera com um argumentum ex silentio. O francês moderno, por exemplo, não possui um adjetivo correspondente ao contrário de ivre ‘ébrio’. Para designar o que não está bêbado se diz que il n’a pas bu, il est à sec, il n’est pas ivre, il est à jeun. Naturalmente, seria absurdo querer deduzir disto que os franceses não conhecem a condição de quem não está bêbado (BUYSSENS, 1956: 168-9). Facilmente se pode imaginar o riso que tal dedução provocaria nos estrangeiros, que estão bem inteirados da grande difusão do alcoolismo naquele país.

Após a Primeira Guerra Mundial e por volta de 1930 a Wesenskunde alcançou seu apogeu no campo das línguas românicas. Nos círculos romanistas alemães, sobretudo, falava-se de Frankreichskunde, Spanienkunde etc. Bem cedo ressoaram, de procedências autorizadas, os protestos contra o perigoso método de querer reconstruir o espanhol típico (den spanischen Menschen) e o francês eterno (den Dauerfranzosen) (HATZFELD, 1932: 445), tendo por base a língua. No lugar desta Etikettierung que brotava do romantismo alemão e da tendência decadentista francesa, opôs-se, individualizando, ein spanischer Mensch etc. (SPITZER, 1928, col. 114. CARO BAROJA, 1951: 254-65 e JUNKER, 1956: 357-8).

Por outro lado, como se poderia chegar à Wesenskunde do francês, ao francês eterno (ao Dauerfranzosen), partindo da língua, quando nem sequer com a ajuda de critérios extralingüísticos é possível aproximar-nos da definição do tipo do homem francês? De outro modo, não se poderiam ter adiantado num período de vinte anos afirmações opostas, como a de que os franceses são frívolos, superficiais, volúveis (WECHSSLER, 1927), e de outro lado modestos, amáveis, moderados e sérios (DISTELBARTH, 1947, apud. ROHLFS: 1950: 150-1). Por outra parte, nos últimos tempos, foram levantadas objeções também a partir de círculos não romanistas, e inclusive não lingüísticos, contra a palavra de ordem “racionalismo” como traço característico (Wesenszung) dos franceses e contra a afirmação de que os franceses não são líricos (Le Français n’est pas lyrique, Lanson) (LERCH, 1933: 223), e se demonstrou que a união de racionalismo e irracionalismo é um dos traços característicos do “racionalista” Descartes (WUNDT, 81-100, apud ROHLFS, 1948: 169-70).

Voltando agora aos citados nomes de família em latim e em francês, podemos tirar conclusões do fato de que na primeira destas línguas se fazia uma quádrupla distinção e na segunda uma distinção dupla, não certamente referentes à atitude espiritual ou Wesensart dos romanos e dos franceses, mas a respeito de certas condições culturais. Desta maneira, voltamos novamente à distinção que estabelece uma separação entre as conclusões tiradas da Lingüística pela cultura e, de outro lado, pela atitude espiritual de um povo. O fato de terem os romanos feito uma clara distinção entre tio e tia paternos e maternos depende de que a posição legal dos descendentes dos dois sexos era diferente entre os romanos. Quando, mais tarde, deixou de existir esta diferença, abandonou-se também a quádrupla distinção lingüística (WARTBURG, 1946: 92-141). Em tal caso não tiramos conclusões com base na língua sobre a atitude espiritual ou Wesensart de um povo, mas sobre situações culturais concretamente jurídicas. Nem sequer chegamos tão longe. Na realidade, só afirmamos que os fatos lingüísticos estão de acordo com as condições culturais, o que podemos fazer por conhecermos a posição jurídica dos membros da família por parte paterna e materna entre os romanos.

Enquanto é difícil, e amiúde impossível, tirar conclusões lingüísticas a respeito da atitude mental de um povo (Cf. SAUSSURE, 1949: 310-1), uma vez que esta última não é uniforme e resulta dos mais diversos fatores, é certamente possível identificar conseqüências lingüísticas referentes a certas condições culturais. As conseqüências que identificamos, o quadro que desenvolvemos da cultura de um povo, torna-se tanto mais rico e se aproxima tanto mais da realidade quanto melhor compreendemos em nossa investigação a natureza geográfica do país onde vive ou viveu aquele povo, as notícias sobre a sua história, seu modo de viver, sua poesia popular etc. (Cf. BLESSE, 1956: 167).

Afirmamos, por exemplo, que em romeno o latim via não se conservou, sendo substituído por cale (< latim callis ‘vale estreito por lugares altos e bosques’), e que quando mais tarde o romeno drum, de origem eslava, foi introduzido principalmente com o significado concreto de ‘rua’ e tomou o lugar de cale, este último se conservou num sentido abstrato de ‘direção’, ‘modo de agir’, e em toda uma série de expressões populares. Afirmamos também que o latim pons significa ‘ponte’ nas línguas românicas ocidentais, e só em romeno significa ‘passarela’, ‘pinguela’. Sabendo que os romenos, os pastores romanorum, são um povo de pastores que vive e viveu entre montanhas, e sendo conhecida por nós a migração desse povo ao longo dos vales entre os montes dos Cárpatos e pelos montes balcânicos, o romeno punte ‘passarela’ pode demonstrar-nos que se trata de uma população cujos antepassados, durante suas migrações pelas montanhas, não construíram pontes, mas passaram as torrentes com a ajuda de um tronco deixado cair sobre estas. A rica terminologia em que aparece o romeno cale podia nascer unicamente do fato de se tratar de um povo que faz uso do vale em numerosas ocasiões, por estar continuamente em movimento numa terra montanhosa (PUŞCARIU, 1943: 190 e 409-10).

Mas, apesar disso, devemos prestar muita atenção ao argumentum ex silentio. O fato de não possuírem os romenos, salvo as denominações gerais mare ‘mar’ (< latim mare), luntre ‘barca’ (< latim lŭnter (lĭnter)), peşte ‘peixe’ (< latim piscis), nenhuma outra palavra de origem latina que se refira ao mar, ao transporte por via aquática, e às diversas espécies de peixes, e o de faltarem em romeno as continuações de palavras latinas que se encontram nas outras línguas românicas como, por exemplo, insula, portus, navis etc., diz-nos que os antepassados dos romenos, enquanto pastores e camponeses, não tiveram contato com o mar, mas, inclusive, como os albaneses, estavam distanciados do mar e dos grandes rios (PUŞCARIU, 1943: 454). Esta conclusão, tirada dos fatos lingüísticos, é reforçada também por nosso conhecimento da geografia, da história e da civilização da Romênia. Mas, se a palavra romena geam ‘janela’, de origem turca, que hoje se estende cada vez mais no romeno da Transilvânia como neologismo procedente da Velha Romênia (Valáquia e Moldávia) e regionaliza a antiga fereastr㠑janela’ (< latim fenestra), chega a ser introduzida aqui em total substituição a fereastă, poder-se-ia tirar disso a conclusão, completamente equivocada, de que os romenos só aprenderam a abrir janelas em suas casas pelo contato com os turcos (PUŞCARIU, 1943: 453). Portanto, vemos nisto quão inexato é afirmar que quod non est in vocabulario, non est in mundo (VOSSLER, 1940: I, 102-3).


 

* * *

Resumindo a reação que se exerceu por parte do Idealismo contra o método positivista histórico-comparativo, podemos dizer que ela tem metodologicamente um significado importante. Efetivamente, mostra-nos que o método idealista, sem uma maneira positiva de operar, conduz-nos na maioria dos casos, a resultados totalmente inexatos e infundados. As causas destas conclusões equivocadas se devem ao fato de que o modo idealista de trabalhar não costuma ter nenhum contato direto com os fatos lingüísticos. Fundamenta-se em fatos incorretos em incompletos que, amiúde, toma de segunda mão e sem controle. Deste material se escolhe ecleticamente o que pode ser utilizado para os fins de uma determinada conclusão, e desta maneira se tiram unilateralmente conclusões a partir da língua, sobre o caráter espiritual e cultural de um povo, e vice-versa, sem levar em conta as outras línguas românicas ou não românicas em que ocorreram fenômenos absolutamente paralelos (JABERG, 1926: 18). O fato de não ter podido trabalhar o “idealista” Vossler sem as investigações de Meyer-Lübke, Brunot e outros “positivistas” que lhe procuram os materiais e o fundamento científico sobre os quais constrói, amiúde, de maneira eclética e unilateral as suas conclusões, é prova evidente do quanto o método idealista está enraizado nos resultados do positivista (SPITZER, 1914: 140).

Apesar de todas as suas deficiências, o método idealista tem o grande mérito de ter fixado a atenção sobre quanto há de individual e de criativo na vida da linguagem. Cooperou eficazmente para fazer vir à luz os fatores artísticos, estéticos e espirituais na língua. Indicando a estética como a “rainha absoluta da Filologia”, o Idealismo fez justiça à estilística, até então descuidada, na qual o caráter estético, as possibilidades individuais de expressão da língua aparecem mais claramente, e com ela também a sintaxe.[71] Desta maneira, o Idealismo reagiu saudavelmente contra o excesso de fonética por parte do método histórico-comparativo, contra o “positivismo fonetizante” (PUŞCARIU, 1943: 59-60; DEVOTO, 1946: 75), que muito positivamente queria considerar a analogia na fonética como um fator de perturbação e não como uma força diretriz de origem espiritual (SCHÜRR, 1925: 39).

O Idealismo, por sua vez, exagera a importância da estilística, do individual e do singular na vida lingüística com sacrifício da fonética. Sublinhando exageradamente o aspecto estético, graças ao subjetivismo estético de Croce e de Vossler, distancia a língua de tudo que há nela de objetivo, de espiritual, de tradicional e de coletivo (NENCIONI, 1946: 170). Esta insegura oscilação entre o individual e o coletivo na língua, o ceticismo do artista da parole, Vossler, a respeito do caráter social e coletivo da língua, em nenhum lugar se manifesta melhor do que na seguinte passagem escrita em 1946, admirável do ponto de vista poético e individual, equivocado lingüisticamente, mas metodologicamente instrutivo:

A idéia de que a língua é primeiramente uma criatura e uma ferramenta de nossa fantasia crente e observante; a idéia de que a língua serve não só para a comunicação e debate de opiniões entre os homens, mas também para a explicação com o nosso eu, com Deus e o universo, com os astros, com a terra e com o além; a idéia de que a língua cumpre fins mais antigos, mais altos e mais íntimos do que os meramente sociais e reflexivos (a grande idéia que Giam Battista Vico, o mais poderoso adversário de Descartes, lançou ao mundo), não chegou até hoje, pelo que vejo, à plena consciência de nenhum lingüista francês. Saussure, Meillet, Gilliéron, para não nomear senão os mais destacados, por mais diversamente que tenham pensado em detalhe sobre a essência da língua e por mais variados que sejam os aspectos em que a tenham iluminado, nenhum deles, nem sequer Bergson, que tão profundamente explorou o conceito da intuição, concebeu uma produtiva dúvida sobre a essência social da linguagem e sobre o caráter sociológico da Lingüística. Esta interperturbabilidade é para mim (que tenho seguido a escola de Vico, de Wilhelm von Humboldt, de Benedetto Croce e de Erns Cassirer) algo tão grandioso e elegante quanto desesperador (VOSSLER, 1946: 42).

 


 

 

 

 

 

 

III. Língua e Linguagem
Lingüística Sincrônica e Diacrônica

SUMÁRIO

A respeito desta dúvida sem esperanças de Vossler em relação ao elemento social na língua, sua oscilação entre o coletivo e o individual e a incerteza que existia neste “idealista” que admitia na língua, ao lado do individual, o fator histórico-cultural e um vago “sentido da língua” (Sprachgefühl,) (DEVOTO, 1951: 62, 52) trinta anos antes Ferdinand de Saussure já havia introduzido na Lingüística a palavra de ordem lógica (logisches Machtwort): langue = língua, parole = fala; synchronie e diachronie (Lingüística Sincrônica e Lingüística Diacrônica). Segundo Saussure, a “língua”, que é um produto social, representa a sociedade, a comunidade, o sistema, enquanto a “fala”, o ato individual, é o exercício daquele sistema (WARTBURG, 1946: 7; ROGGER, 1941: 161 e ss.).

Com esta distinção se estabelece uma diferença entre o aspecto social e essencial por um lado, e por outro o individual, acessório e mais ou menos ocasional (SAUSSURE, 1949: 30). A “língua” é uma “instituição social” da qual a “fala” é a realização concreta, e por isso entre estes dois conceitos existe uma relação de reciprocidade. A “língua” existe em estado virtual, e a “fala” num estado realizado; a primeira é, como sistema-memória, de natureza puramente psíquica; a segunda, de natureza psico-física (SAUSSURE, 1949: 37). Como a parole é uma atividade individual e a langue uma totalidade de convenções sociais, a primeira é livre e a segunda está fixada e imposta de fora, é “exterior ao indivíduo, que por si só não pode nem criá-la nem modificá-la” (SAUSSURE, 1949: 30-1). É compreensível por si mesmo que todas as mudanças lingüísticas têm seu princípio na “fala”, nesta manifestação concreta da “língua”, pois, como disse Saussure, “nada entra na língua sem ter sido ensaiado na fala” (SAUSSURE, 1949: 231); mas para começar a fazer parte do sistema estas iniciativas individuais devem difundir-se por imitação e passar a ser de uso comum.

Saussure parte da Sociologia, e daí vem sua distinção de “língua” e “fala”. A língua é social enquanto é um sistema de signos que serve à compreensão recíproca, e como tal pode ser confrontada com outros sistemas de signos, como o alfabeto dos surdos-mudos, as fórmulas de cortesia, as senhas militares, etc. (SAUSSURE, 1949: 33; JABERG, 1926: 20).

Também da Sociologia tirou Saussure a distinção entre Lingüística estática, descritiva, sincrônica por uma parte, e histórica, evolutiva, diacrônica, dinâmica, por outra. Nisto segue a Augusto Comte, que havia introduzido a distinção entre sociologia estática e dinâmica (SCHUCHARDT,1917, col. 4). Antes de Saussure, já em 1884, A Marty, partindo do ponto de vista filosófico,[72] havia feito a mesma distinção entre Lingüística Estática e Histórica, mas sua tese, num período positivista e antifilosófico como era o século XIX, não teve continuidade (WARTBURG, 1946: 9; cf. também HALLIG, 1957: 160-4). Quando, no século XX, a filosofia exerceu sua influência no campo da Lingüística, como em todos os demais da ciência, a exigência da totalidade, das grandes conexões, da estaticidade, da estrutura, se fez sentir cada vez mais vigorosamente (PUŞCARIU, 1937: 320 E 1943: XV; TERRACINI, 1949: 57; HEILMANN, 1957: 18-9.). O dualismo entre Lingüística Estática e Dinâmica se identifica com o de Formproblem e Kausalproblem, em torno do qual, segundo o referido pensamento filosófico, gira toda a representação que formamos do mundo.[73]

A distinção entre “língua” e “fala” está em estreitíssima relação, segundo a concepção saussureana de língua, com a consideração sincrônica e diacrônica da língua, até o ponto em que Schuchardt se pergunta com razão (SCHUCHARDT, 1917), col. 6) se “língua” e “fala” não se identificam por inteiro com a Lingüística Sincrônica e com a Diacrônica, respectivamente. Com efeito, quando Saussure e Bally afirmam que a “língua” precede à “fala” e que esta última pressupõe sempre a primeira ou, em outras palavras, que conceitos virtuais numa condição de virtualidade, ou seja estaticidade, por exemplo homme e mourir, mediante os chamados actualisateurs (artigos, pronomes, casos, tempos, modos, etc.) se atualizam em cet homme e mourut; dito ainda de outro modo, que uma condição estática, isto é, a “língua”, se atualiza numa frase por meio da fala, por meio da dinâmica, de tudo isso resulta que a “Lingüística da Língua” e a “Lingüística da Fala” se identificam, respectivamente, com a Lingüística Sincrônica e com a Lingüística Diacrônica (SAUSSURE, 1949: 37, 127, 138; BALLY, 1944: 80 e ss.).[74] A Lingüística Sincrônica, segundo Saussure, descreve um estado da língua no presente ou no passado sem se preocupar com o modo pelo qual surgiu,[75] enquanto a Lingüística Diacrônica se dedica à história dos vários elementos da linguagem.[76]

Com base neste dualismo, Saussure estabelece os seguintes princípios fundamentais. Primeiro: dado que para o falante não existe a sucessão dos fatos lingüísticos no tempo e que aquele está colocado frente a uma situação lingüística determinada, o aspecto sincrônico deve ser colocado antes do diacrônico (SAUSSURE, 1949: 117, 128). Segundo: o método sincrônico e o diacrônico devem estar nitidamente separados um do outro; sua contraposição é “absoluta”, “irredutível”, “sem compromisso” (SAUSSURE, 1949: 119, 122). Terceiro: a diferença entre os dois métodos é fundamental, porque o método sincrônico se ocupa dos sistemas lingüísticos enquanto o diacrônico examina a história dos elementos particulares da linguagem (SAUSSURE, 1949: 119 e ss.).

As duas primeiras declarações de Saussure (para a terceira, veja-se mais adiante, isto é, que o método sincrônico tem a precedência e que ambos os métodos devem manter-se nitidamente separados, são refutadas pelo método histórico-comparativo e pelo geográfico. Com efeito, o modo de operar da Lingüística Histórico-Comparativa e da Geográfica Lingüística nos demonstrou que o método sincrônico e o diacrônico são membros equivalentes de uma correlação, que se determinam reciprocamente e realizam uma mútua integração. Podem separar-se, naturalmente. Um fenômeno lingüístico pode ser considerado do ponto de vista exclusivamente sincrônico. Em tal caso, nosso modo de operar não é equivocado, mas simplesmente incompleto (DEVOTO, 1951: 42). Com efeito, temos visto repetidamente que o método comparativo e o geográfico são uma consideração da língua no plano estático (sincrônico) e que a comparação e a posição geográfica das palavras são dois meios aparentemente distintos, mas ao mesmo tempo estreitamente correlacionados, para constatar um processo histórico.

Como reconhece, por outro lado, o mesmo Saussure (1949: 193), “o rio da língua flui sem interrupção”, a comparação e a Geografia Lingüística fixam a língua, que por si mesma se encontra num incessante dinamismo e mutação, por um período de tempo mais ou menos longo, e desta maneira projetam diante de nossos olhos uma situação lingüística. Vimos também que quanto mais extenso é o nosso material comparativo, ou seja, nossa visão sincrônica, tanto melhor podemos fixar uma situação lingüística. É verdade que o discípulo de Saussure e defensor da clara separação entre Lingüística Sincrônica e Lingüística Diacrônica, Charles Bally, em seu livro Linguistique générale et linguistique française, teve de fazer uso repetidas vezes do método comparativo (WARTBURG, 1939: 9), isto é, teve de combinar o método sincrônico com o diacrônico.[77] Os dois métodos devem complementar-se mutuamente, tanto que podemos afirmar continuamente que a história, a evolução, a dinâmica, deixam marcas no espaço ante nossos olhos, e que uma sucessão lingüística se liga estreitamente com uma contigüidade geográfica, com uma synchronie géographique. O método sincrônico e o diacrônico, na realidade, integram-se reciprocamente também de fato, fazem-nos ver continuamente como uma situação estática surge, por um lado, da dinâmica, e como, por outro lado, pode lançar luz sobre o futuro histórico. Contudo, na prática, o método sincrônico se torna mais difícil pelo fato bem conhecido de que, por causa de seu caráter mais concreto, estamos mais facilmente dispostos a compreender e reter uma evolução do que uma condição estática (SAUSSURE, 1949: 141-2; cf. PUŞCARIU, 1937: 131).

Se quiséssemos adotar um ponto de vista puramente sincrônico, deveríamos afirmar, por exemplo, que entre o francês voler ‘voar’ e voler ‘roubar’ não existe nenhum laço de união e que se trata de dois verbos diferentes. Se nos perguntarmos se realmente o são, devemos dizer precisamente, fundamentados na divisão introduzida por Saussure entre “língua” e “fala”, que são diversos somente quando, como conceitos pertencentes à “língua” e que, encontrados virtualmente numa situação estática, são atualizados por intermédio da “fala”, da dinâmica. Vemos que voler representa dois conceitos diversos, não através da Lingüística Sincrônica, mas da Lingüística Histórica, isto é, enquanto voler se atualiza mediante a “fala”. Quando dizemos l’oiseau vole du pain ao lado de l’oiseau vole, usamos a forma virtual voler, que pertence à “língua”, à estática num contexto, e o atualizamos com a ajuda da “fala”, da dinâmica, colocamo-lo dentro de duas realidades distintas; isto é, completamos a consideração lingüística estática com a dinâmica, e depois, seguindo a lição da Lingüística Sincrônica, constatamos mediante a Diacrônica que se trata realmente de dois verbos diversos. Desta maneira, inclusive quando partimos de uma posição exclusivamente estática, não podemos desligar-nos da dinâmica.

Se, pelo contrário, no caso de voler, nos situamos num ponto de vista exclusivamente histórico, chegamos à consideração lingüística estática, e daí novamente à dinâmica. O latim volare ‘voar’ deu em francês voler. A forma virtual, pertencente à ‘língua’, francês voler, resulta de uma evolução (dinâmica), que foi atualizada no século XVI numa situação determinada, a caça com falcão, no contexto le faucon vole la perdrix. Da atualização ‘o falcão voa sobre a perdiz’, ou seja ‘o falcão agarra voando a perdiz’, surgiu voler no sentido de ‘roubar’. Trata-se aqui de um fato dinâmico, de um sucesso histórico, biográfico: o nascimento do francês voler ‘roubar’ no século XVI. A partir deste mesmo século, o francês voler ‘roubar’ e voler ‘voar’, considerados estaticamente, são dois homônimos, mas desde o momento em que os dois verbos virtuais, pertencentes à “língua”, são atualizados pela História, pela dinâmica, mediante determinadas situações (l’oiseau vole dans l’air, l’oiseau vole du pain), deixam de ser homônimos.

O caso do francês louer ‘dar ou tomar em aluguel’, ‘louvar’, é a mesma coisa. A única diferença está em que para voler a homonímia é o resultado de uma divergência semântica, enquanto louer é o resultado de uma convergência fonética: latim locare ‘dar em aluguel’ e laudare ‘louvar’ são a dupla base do francês louer ‘dar ou tomar em aluguel’ e louer ‘louvar’. Assim, graças à evolução (dinâmica), uma situação passa a outra. Louer ‘tomar em aluguel’, louer ‘dar em aluguel’ e louer ‘louvar’ são homônimos se forem considerados estaticamente, mas quando histórica ou biograficamente são postos numa situação determinada, graças à dinâmica, ao contexto, à “fala”, deixam de ser homônimos (je loue une maison ‘alugo (dou ou tomo em aluguel) uma casa’, je loue um élève ‘louvo um aluno’).[78] É evidente que a atualização pode ter lugar na frase, mas, naturalmente, também no contexto, e como contexto devem ser entendidas também determinadas situações. Uma frase como je loue une maison (como proprietário) pode ser atualizada também graças a uma situação determinada (cf. à louer num cartaz).[79]

Toda a Lingüística Diacrônica tem por base a Sincrônica. Resolver um problema da História Lingüística significa provar, reduzindo, por um tempo mais ou menos longo, uma dinamicidade à imobilidade, ou seja, reduzindo-a à sincronia. O que na Lingüística se chama visão histórica é a fixação e a projeção diante de nós de uma situação em que ocorreu um acontecimento lingüístico, por meio de uma intuição baseada nos dados disponíveis.[80]

Tomemos um problema de lingüística puramente histórica, como o do termo português comercial e de seguros bomeria, bodemeria (VIDOS, 1954: 258-68). Esta palavra aparece esporadicamente nos dicionários portugueses na primeira metade do século XIX, atualmente já não vive e não se sabe se viveu antes do tempo indicado. Sem dúvida vem de um típico termo comercial e de seguros do holandês século XVI, bomerije, bodemerije que também já não está em uso. Situando-nos num ponto de vista puramente histórico, devemos dizer que, na primeira metade do século XIX (ou talvez antes), comerciantes holandeses levaram o vocábulo para Portugal, ou então, comerciantes portugueses o recolheram em Portugal ou na Holanda. Existe também a possibilidade de ter sido registrado o vocábulo holandês no dicionário português de comércio e jurisprudência, no século XIX, pela primeira vez, sem jamais ter sido usado em Portugal na forma portuguesa. Assim nos convencemos de que exclusivamente com o método histórico não podemos resolver a realidade humana deste problema.

Enquanto sobre a base da situação no século XIX, português bomeria, bodemeria, que é o resultado de um acontecimento histórico, de uma dinâmica, não pudermos remontar-nos a uma situação mais antiga, isto é, enquanto não pudermos fixar esta dinâmica, não estaremos em condições de resolver o problema e, portanto, devemos aceitar as quatro possibilidades mencionadas. A situação mais antiga, a estática relativa, que nos traz a solução do problema, é a seguinte. Na segunda metade do século XVI estabeleceram-se, em Lisboa, comerciantes bilíngües holandeses, cuja correspondência comercial demonstra que, além de sua língua materna, escreviam e falavam correntemente o português. Com base nesta correspondência pode ser demonstrado que os ditos comerciantes substituíram a desinência -ije do holandês bomerije, bodemerije (que indica uma operação comercial lucrativa), pelo sufixo português -ia, e usaram repetidas vezes estas palavras nas formas bomeria, bodemeria. Desta maneira, haviam aportuguesado uma palavra holandesa e a haviam lançado em Portugal. Esta situação, esta estática relativa, nos oferece a solução do problema visto que nos dá a conhecer o ponto em que a dinâmica, ou seja, a criação, neste caso, começa a agir. Indicamos apenas a visão histórica, sob cujo nome não entendemos senão a detenção virtual no espírito humano, ou seja, no de um investigador, da dinâmica, da História. A experiência prática nas investigações lingüísticas nos ensina que na realidade só existe a situação, a estática, mas que nesta realidade estática só podemos observar a dinâmica, a mudança, que liga as situações mais abstratas, virtuais. “Com efeito – diz Meillet, BSLP, XV (1907-1908: 24) – não se observa nunca uma língua em estado de fixidez; ... uma Lingüística estática não pode resultar, portanto, da observação.”

O método estático-histórico e o histórico-estático nos manifestam, portanto, a realidade lingüística. Por isso, para se poder praticar com êxito a Lingüística Românica nos parece indispensável uma combinação destes dois métodos. Em ninguém podemos observar melhor esta combinação do que no grande lingüista e romanista Hugo Schuchardt (BERDOLDI, 1946: 22), que se manteve afastado de todas as correntes e de todas as escolas. Todo o método da Geografia Lingüística, como vimos, a Estratigrafia que dele deriva e a Lingüística Espacial projetam a situação estática, horizontal, geográfica, mediante uma perspectiva histórica.

Parece paradoxal, portanto, que Saussure seja o defensor da clara separação entre o método diacrônico e o método sincrônico, pois ele, como “neogramático conseqüente” (SECHEHAYE, 1939: 25) com sua formação “neogramática”, (MEILLET, 1936: 174 e ss.) estava profundamente arraigado na História (Cf., entre outras passagens, SAUSSURE, 1949: 105, 108 e ss.), e esta orientação histórica demasiadamente pronunciada foi causa de que se separasse mais ainda o aspecto estático da língua.[81] Daí vem sua reiterada contradição a respeito da “autonomia e da interdependência do sincrônico e do diacrônico” (SAUSSURE, 1949: 124). Umas vezes sublinha a absoluta separação, e pouco depois a estreita correlação de ambos os métodos (SAUSSURE, 1949: 119, 122, 136). Embora entre seus alunos Charles Bally, em princípio, lute em favor da separação destes, na prática trata a Lingüística Sincrônica historicamente. Os termos que aparecem repetidamente em seus escritos, como tendance, tendre à prédilection, poussée intérieure etc., com referência à língua, demonstram, entre outras coisas, que sua consideração estática da linguagem foi perturbada pela perspectiva histórica (WARTBURG, 1939: 9; ROGGER, 1941: 194 e 1952: 313). Outro discípulo seu, Antoine Meillet, em oposição à doutrina abstrata de seu mestre, colocando a língua ininterruptamente em sua realidade humana, isto é, histórica, fez História Lingüística e demonstrou os laços existentes entre o método sincrônico e o diacrônico (SECHEHAYE, 1939: 26). A combinação dos dois métodos foi posta devidamente em relevo também, por exemplo, na síntese Évolution et structure de la langue française, de Wartburg, em que umas seções verticais (históricas) e horizontais (descritivas) mostram como a estrutura resulta da dinâmica, e no Tableau de la langue française, de Albert Dauzat, em que ao lado das origens, leva em conta também a evolução e a estrutura atual do francês.

O gênero dos fenômenos lingüísticos que devem ser tratados segundo este duplo método, por uma parte, e por outra o ponto de vista de quem fala ou de quem realiza a investigação, são significativos para os fins da valorização da relação entre consideração estática e consideração histórica da língua. Destes dois aspectos, o primeiro é menos importante do que o segundo, porque, como se sabe, não existem limites rigorosos entre fenômenos lexicológicos, morfológicos e sintáticos.[82] No que se refere aos lexicológicos e sintáticos, que à primeira vista parece que deveriam separar-se claramente entre si (por exemplo, BOER, 1947: 5), atribuindo melhor os primeiros à competência do método histórico e os segundos à do sincrônico, o grande perito em sintaxe, Adolf Tobler, que começando com a lexicologia se tornou estudioso da sintaxe, mas continuando também lexicólogo, afirmou, faz já bastante tempo, com base em sua prática, que no francês a maior parte dos fenômenos sintáticos pertencem propriamente à lexicologia.[83] Nós mesmos, com efeito, podemos constatar imediatamente que um artigo qualquer de um dicionário descritivo, dedicado, por exemplo, à preposição francesa à ou à romena în, é mais um capítulo de sintaxe do que de lexicologia (PUŞCARIU, 1937: 382-3). Por isto, seria errôneo afirmar que nas investigações lexicológicas e sintáticas possa ser separado o método histórico do sincrônico, aplicando exclusiva ou principalmente o primeiro à lexicologia e o segundo à sintaxe, dedicadas ao método da sintaxe histórica). É óbvio, naturalmente, que a consciência adquirida da consideração sincrônica da linguagem, graças à doutrina de Saussure, acabou por beneficiar a sintaxe, na qual se manifesta principalmente o aspecto universalmente humano, “pancrônico” e a-histórico. Já antes de Saussure se sabia que na sintaxe convém levar devidamente em conta o aspecto sincrônico e a-histórico. Com efeito, já em 1909, J. Haas escreveu sua Neufranzösische Syntax, em que se situa num ponto de vista estático, e só mais tarde (1916) sua Französische Syntax numa base histórica (LERCH, 1922: 82).

A separação entre Lingüística Sincrônica e Diacrônica é possível e, às vezes, inevitável, não nos fenômenos lingüísticos, neste caso lexicológicos e sintáticos, que melhor nos revelam a realidade lingüística, ou seja, a estreita correlação entre o método diacrônico e o sincrônico, mas no falante e no próprio estudioso.

Quando certo significado vem expresso com diversas palavras, que só juntas têm esse significado, trata-se, segundo Bally, do chamado signe fractionné. Uma expressão como tout à coup, por exemplo, só pode ser compreendida como um todo único e significa ‘de uma vez’, enquanto subdividida em seus elementos é incompreensível.[84] A este propósito queríamos observar que o francês tout à coup pode ser considerado estática ou historicamente. No primeiro caso significa ‘de uma vez’; no segundo caso é dividida em três elementos separados. Pode ser “considerado” estática ou historicamente, mas lingüisticamente (ou seja, estático-historicamente) é uma composição do século XVI: de tout, à e coup ‘golpe’ (cf. com o mesmo significado o francês à coup a partir do século XIII, e tout d’un coup a partir de 1611) (WARTBURG, 1928 e ss.: II, 867).

A respeito do modo de considerar uma realidade lingüística (em nosso caso a do francês tout à coup), devemos fazer a seguinte distinção. É considerada por um lingüista ou por alguém que não o é? No primeiro caso, seria considerada do ponto de vista exclusivamente sincrônico na hipótese de desconhecer o lingüista outra língua além do francês, o que é um suposto impossível. Um lingüista não pode se livrar de suas associações, e se tem como língua materna, por exemplo, o italiano, pensará, em seguida no italiano colpo, di colpo, a un colpo, e, portanto, operará comparativamente, isto é, historicamente. Um lingüista cuja língua materna é o holandês também terá dificuldades para situar-se num ponto de vista estritamente sincrônico e em não se deixar guiar por uma comparação com o holandês klap ‘golpe’, slag ‘golpe’ (cf. o holandês ennsklaps ‘de uma vez’, op slag dood blijven ‘cair morto no ato’). Charles Bally, o defensor da distinção entre os dois métodos, cuja língua materna era o francês, encontrou-se no mesmo caso, porque deixou que sua visão sincrônica a respeito do francês fosse continuamente perturbada por comparações com o alemão e também com outras línguas. Sua afirmação de que “o método separatista” deriva do princípio de que “a Lingüística das evoluções é assunto do lingüista com exclusão do sujeito falante, e o estudo sincrônico é assunto do falante com exclusão do lingüista” (BALLY, 1937: 348) só é correta parcialmente, tanto no que se refere ao lingüista (entenda-se Bally) como no que diz respeito ao falante (com efeito, quantas vezes o falante está pensando na evolução de sua língua?).

Deve-se fazer uma distinção fundamental entre um falante que só conhece a sua língua materna e outro que conhece outra ou outras além desta. Somente no primeiro caso um fenômeno lingüístico (aqui concretamente tout à coup) pode ser considerado do ponto de vista puramente sincrônico; no segundo caso, com associações e comparações se dá em seguida o primeiro passo no sentido de uma perspectiva histórica. Daí se conclui que uma consideração lingüística estritamente sincrônica somente é possível por parte de uma pessoa não lingüista que fale unicamente a língua materna.[85]

A significação fundamental da doutrina de Saussure consiste em que ele nos fez tomar consciência da Lingüística Sincrônica, e desta maneira abriu à Lingüística novas perspectivas.[86] Graças ao fato de ter ele proclamado a “Lingüística da Língua” como único e exclusivo assunto da Lingüística e ter constituído como sua contrapartida a “Lingüística da Fala”, sem havê-la praticado nunca ou haver precisado exatamente o que com isto queria dizer (SAUSSURE, 1949: 36-9, 197; SCHUCHARDT, 1917: col. 6), ele deu ao mundo a “Lingüística da Fala”.

A concepção sociológica da língua de Saussure com o predomínio total do “produto social”, do que é coletivo, teve como conseqüência entre seus discípulos (Charles Bally e Albert Sechehaye) precisamente o contrário: o estudo do “ato individual”. Ambos procuraram determinar a influência do falante sobre o sistema lingüístico; o primeiro do ponto de vista afetivo; o segundo, do intelectual. Como todo fato lingüístico é uma mescla de afetivo e intelectual, segundo Bally deve ser determinado “qual é o elemento que predomina na consciência... A dose é tal que a expressão pareça essencialmente afetiva? Eis aqui, reduzido a sua fórmula mais geral, o objeto da estilística” (BALLY, 1919-21: I, 158). Segundo Bally, o fundador da estilística em base afetiva,[87] o caráter social da língua se manifesta no fato de que o falante ao escolher seus meios de expressão umas vezes concentra “seu esforço sobre a ação que ele quer produzir...”, e outras vezes, ao contrário, com base numa certa reserva diante do interlocutor, determina seu esforço (isto é, modifica-o).[88]

De Sechehaye nos vem a definição da “Lingüística da Fala”, mal definida por Saussure. Segundo Sechehaye (1940: 1-48), Saussure entendia com isso a “Lingüística da fala organizada”. Noutras palavras, a Lingüística da “fala” gramatical, organizada. Antes da “fala organizada, existe, segundo Sechehaye, a “fala propriamente dita”, o instinto humano de expressão, a “expressão pré-gramatical”, que é a origem de todo o processo lingüístico. Por isto o estudo que reúne a Lingüística Sincrônica e a Diacrônica (ou seja, o fator que atualiza os elementos virtuais presentes na “língua”, não é a Lingüística da parole, que existe antes de qualquer coisa, mas a da parole organisée.

 

 

 

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Uma consideração lingüística sincrônica que nos distancie do método histórico pode, quando é feita muito abstratamente, distanciar-se da realidade lingüística e converter-se numa “psicologia sublingüística” ou “psico-sistemática” (WAGNER, 1947: 48; YVON, 1952: 101-6;  DAUZAT, 1951: 29 e 1953: 307). Este é o caso de Gustave Guillaume, o qual, situando-se num ponto de vista puramente sincrônico, procura os caminhos do espírito, o processo do pensamento, que levam à língua (de maneira apenas aparente, entretanto, na mesma linha de La pensée et la langue, de Ferdinand Brunot); em suma, procede de modo oposto a Damourette-Pichon, que vão “das palavras ao pensamento” (TOGEBY, 1951: 213; YVON, 1951: 161 e ss.).

O mesmo Guillaume, inspirado nos métodos da análise matemática, chama a seu método Lingüística de Posição (analogamente à Álgebra de Posição), e à ciência que ele construiu com base neste método, umas vezes chama psico-sistemática, outras psico-mecânica ou mecânica intuicional. Estas três denominações significam que nós, graças a uma análise cada vez mais profunda, descobrimos na língua, em primeiro lugar, uns sistemas, que estes sistemas têm um “caráter mecânico” e que “esta mecânica é uma mecânica da intuição que tem sua fonte nas faculdades misteriosas que conferem seu poder ao pensamento humano” (VALIN, 1955: 29). Neste caso temos que nos haver com a consideração lingüística alicerçada em fundamentos fechados, puramente matemáticos, de alguém que desde o princípio manejou os problemas lingüísticos com os métodos severos da Matemática e da Física, e que jamais rompeu os contatos com estas ciências (VALIN, 1955: 11).

A Lingüística exercida com este método totalmente teórico e abstrato deve abandonar, evidentemente, qualquer empirismo e corroborar suas conclusões abstratamente alcançadas de modo puramente especulativo (imaginário). Uma tal “verificação mental” e o “caráter obrigatoriamente abstrato de tal verificação”, não só não podem tranqüilizar os que praticam a Lingüística (VALIN, 1955: 21-2), mas até, amiúde, os impedem de poder seguir as demonstrações do método psico-sistemático e, finalmente, de entendê-los. As declarações do representante deste método (VALIN, 1955: 47) de que não se deve insistir em querer compreender imediatamente ponto por ponto, e a citação de Chrystal de que um trabalho científico deve ser lido “em todos os sentidos”, e a de Humboldt, de que “em ciência as luzes do final iluminam as trevas do princípio”, não são muito adequadas para tranqüilizar o leitor.

Esta psycho-systématique de Gustave Guillaume (1951: 122, 123 e 1953: 135) afirma, entre outras coisas, que o presente em francês está construído por duas partículas de tempo, das quais, uma tira o presente do futuro e a outra do passado. Ele as chama de “cronotipos”: cronotipo α (alfa), a partícula que tira o presente do futuro, e cronotipo ω (ômega) que o tira do passado.

α

(partícula do futuro)

.............................

(partícula do passado)

-  ω  -

O presente, quando está completo, une os dois cronotipos (isto se indica no esquema com a linha horizontal).

Esta representação não pode, naturalmente, ser estática, mas “de acordo com a realidade”, dinâmica. De fato, o cronotipo α se renova ininterruptamente no cronotipo ω (GUILLAUME, 1951: 135). Com base nesta representação, afirmou-se depois (GUILLAUME, 1951: 117; 1951: 134 e ss., e .1955: 11-2, 21-2) que no sistema verbal do francês o futuro e o passé simple têm um ponto de origem comum, ou seja, o cronotipo α, que passa constantemente ao cronotipo ω. Em suma, expressando-se lingüisticamente, j’aimerai e j’aimai têm uma origem comum, precisamente o cronotipo α, simbolizado por meio da letra r. A supressão do r deveria ser suficiente para passar do futuro ao passé simple.

Todo o raciocínio de Guillaume, que, abstratamente, talvez seja correto, é completamente errôneo do ponto de vista lingüístico (sincrônico e diacrônico). Qualquer um que pratique esta “psico-sistemática”, ou melhor diríamos mnemotécnica, quando começa a estudar o francês, e observa que na primeira conjugação as pessoas do singular do futuro se distinguem das do passé simple unicamente por um r, o que não é correto nem sequer do ponto de vista mnemotécnico, porque *j’aim-e-ai (de j’aimerai) não é ainda o todo j’aimai, ao menos ortograficamente. Do ponto de vista estático esta afirmação é equivocada também porque no uso lingüístico francês os dois tempos têm atualmente um valor completamente diferenciado. O futuro no francês de hoje é de uso geral em todas as partes, enquanto o passé simple já não está em uso em grande parte do território lingüístico francês. Se aceitássemos a idéia de que a única diferença entre estes dois tempos é a presença ou ausência do r, isto não seria aplicável às pessoas do plural da mesma primeira conjugação (aimerons dá *aimeons, e não aimâmes etc.), nem ao paradigma inteiro de todas as outras conjugações, porque as desinências do futuro em todas as conjugações francesas são -rai, -ras, -ra, -rons, -rez, -ront, mas somente na primeira conjugação o passé simples tem as desinências -ai, as, -a, (fini-r-ai – finis, recev-r-ai – reçus, rend-r-ai – rendis). Do ponto de vista histórico não é menos evidente que os dois tempos, um dos quais, aimai (do latim amavi) é mais antigo que a forma analítica aimerai (< latim amare + habeo), não têm nada em comum entre si.[89]

O fato de não ter tido êxito neste caso o método “sublingüístico”, exercido de maneira abstrata, não exclui, no entanto, que seus princípios fundamentais, a respeito da presença e estrutura potencial latente da língua no subconsciente e de seu caráter constritivo para o falante, possam ser corretos. Não obstante, antes deve demonstrar se e até que ponto esta concepção é lingüisticamente aceitável.[90] Segundo a “psico-sistemática” a língua (langue) compreende de maneira virtual e provisória o discurso (discours), a linguagem real. A língua, permanente e inseparável do pensamento, está sempre presente em nós, está ativa em nós, inclusive durante o sono. A relação entre língua (langue) e discurso (discours) é a mesma entre condição e conseqüência, ou entre potencial e atual. Enfim, deveríamos defrontar-nos com uma oposição entre língua (“potencialidade permanente”) e discurso (“efetividade momentânea”).[91] A “psico-sistemática” trata, portanto, de penetrar na esfera sublingüística das representações lingüísticas na mente do falante. O maior problema, no entanto, é o de saber se esta consideração lingüística pré-existencial deve ainda ser vista como parte da Lingüística.

 

 

 

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O terceiro princípio fundamental de Saussure, de que toda mudança, todo dinamismo, atinge somente um ponto particular, não o sistema inteiro, de que “...os fatos diacrônicos têm sempre um caráter acidental e particular” (SAUSSURE, 1949: 131) e de que, em suma, o método diacrônico pesquisa a história de elementos particulares enquanto o sincrônico estuda sistemas lingüísticos (SAUSSURE, 1949: 124-34), deve ser repelido com base nas considerações referentes à combinação dos dois métodos requerida pela realidade lingüística.

Para demonstrar que o dinamismo, a evolução, atinge somente os elementos isolados da linguagem e não o sistema, Saussure usa uma comparação, como faz amiúde (Cf. SAUSSURE, 1949: 43, 153), com o que ocorre no jogo de xadrez, no qual, exatamente como na linguagem, a cada movimento se move uma só peça, um elemento isolado (SAUSSURE, 1949: 126). Mas a comparação não é válida, pois no xadrez, ao mudar de posição uma peça, todas as outras ficam absolutamente imóveis, enquanto na linguagem, pelo contrário, uma mudança ou movimento vai acompanhado de toda uma série de outros movimentos. Saussure, o sociólogo da língua orientado geométrica e sistematicamente (JABERG, 1926: 22), comete aqui, metodologicamente, o mesmo erro que o idealista e artista da linguagem Vossler, com quem o espírito aparentemente diverso de Saussure se encontra mais de uma vez em concordância, no caso em que Vossler considera como algo improvisado o aparecimento do partitivo em francês nos séculos XIV e XV sem levar em conta que já séculos antes em francês eram usados substantivos com e sem partitivo isto é, sem levar em conta a simultaneidade das mutações lingüísticas.

O que é exatamente o sistema que aparece repetidamente na concepção lingüística de Saussure, e qual é o seu significado? A língua, segundo ele, é um sistema de signos fundado em unidades que estão em oposição entre si. Todo membro deste sistema é mutuamente dependente, ligado a todos os demais, e recebe um valor relativo da totalidade, do próprio sistema (SAUSSURE, 1949: 106 e ss., 158 e ss.). Não é novidade que Saussure considere a língua como um sistema, pois também os neogramáticos que operavam com o método positivista, haviam visto na língua um sistema a que chamaram organismo (TERRACINI, 1949: 160). Seu sistema era um organismo em evolução, um sistema dinâmico. O significado da concepção saussureana do sistema é que este é estático, o sistema é o resultado de uma consideração estática da linguagem.

A busca de uma estrutura, de um sistema sincrônico, é uma tendência profundamente presente no método da Geografia Lingüística, que está tão decididamente orientada contra o método positivista, unilateralmente fonético, e que reabilitou a palavra perante o som. Já vimos o predomínio exercido pela Fonética no século XIX, e como graças à Geografia Lingüística foi obrigada a ceder. A Fonética prevaleceu até o aparecimento da Geografia Lingüística, porque, em conseqüência da mentalidade positivista do século XIX predominava na Lingüística um método muito evolucionista e exageradamente histórico. Este operava analiticamente, subdividia a língua em sons e em grupos de sons, e declarava que estes estavam submetidos a uma contínua mudança. (“A evolução dos sons é incompatível com a noção de estado”), dizia Saussure (SAUSSURE, 1949: 194). Resumindo: a Lingüística orientada dinamicamente viu na língua, sobretudo evolução, mudança, isto é, sons, e por isto se fez Fonética (SAUSSURE, 1949: 194, 198). Nesta maneira de ver dinâmico-evolucionista, o primeiro veto estático-sincrônico está representado pela analogia,[92] cuja influência, por parte dos estudiosos de Lingüística orientados exclusivamente para a História, foi aceita em teoria, mas não na prática. Efetivamente, de seu ponto de vista dinâmico, podiam ver um fator estático como a analogia, que tendia a remediar as perturbações produzidas na gramática pela Fonética, precisamente ao contrário, um fator de perturbação (SAUSSURE, 1949: 221 e ss.), e consideravam possível descuidar da palavra historiando os seus sons. O grande mérito da Geografia Lingüística e da corrente de Palavras e Coisas (Wörter und Sachen) que dela brotou, foi ter demonstrado, com a introdução da Lingüística Sincrônica, que os sons mudam nas palavras, que a palavra é mais importante do que o som e que cada palavra tem uma evolução fonética particular.

À medida que a Lingüística Estático-Sincrônica ganhava maior terreno, isto é, à medida que se ia orientando cada vez mais para a palavra e seu significado, para a totalidade, via-se um número crescente de perturbações e de exceções na Fonética Histórica. O sinal deste desenvolvimento está, por exemplo, na relação entre as evoluções fonéticas regulares e as perturbações e exceções na quinta edição (1921) e na primeira (1889) do Précis historique de phonétique française, de Édouard Bourciez. Enquanto na primeira edição as evoluções fonéticas regulares ocupam seis ou oito vezes o espaço ocupado pelas irregulares, postas sob a rubrica de “notas”, trinta e dois anos depois, na quinta edição, para as “notas”, ou seja, para as perturbações e exceções, se reservou um espaço oito a dez vezes maior do que o destinado às mudanças fonéticas “segundo as leis”. É típico para todo o desenvolvimento futuro a pergunta esboçada em 1924 por Terracher, (1924: 313), com referência a esta constatação: “... Qual será, para o francês, a proporção da constância e da inconstância, da generalidade e da particularidade das leis fonéticas diacrônicas em 1950 ou no ano 3000?”

 

 

 

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Em resumo, podemos dizer que a razão pela qual a Fonética Histórica unilateral foi obrigada a ceder, é o fato de que se foi reconhecendo cada vez mais que a Lingüística Sincrônica é uma parte integrante da Lingüística Diacrônica. Neste processo de desenvolvimento a Geografia Lingüística de Gilliéron, com sua visão estático-sincrônica, constitui um elo entre a língua concebida como um organismo em evolução e a concepção de Saussure que a considera um sistema estático, como uma estrutura (WARTBURG, 1937: 297-9 e 1946: 122 e ss.; NENCIONI, 1946: 127). O chamado “atomismo” fonético se converteu em “estruturalismo” fonético, em Fonologia, precisamente porque Saussure introduziu a fundamental distinção entre “língua” e “fala” e ao mesmo tempo fez tomar consciência da Lingüística Sincrônica, até então inconsciente. Mas, em nosso modo de ver, foi novamente Gilliéron quem previu o nascimento da Fonologia. Com efeito, ele, sem ter usado o nome de Fonologia no sentido atual nem sequer havê-lo conhecido, pôs em evidência que ao lado da mudança fonética naturalista, histórico-evolucionista, existe a representação que todos os que pertencem a uma comunidade lingüística têm precisamente a respeito de um som ou um fenômeno fonético.

Com a introdução da distinção entre “língua” e “fala”, dando consciência à Lingüística Sincrônica e com a busca da estrutura, Saussure, juntamente com Gilliéron e Vossler, está sob a influência do espírito de nosso século, que poderia ser caracterizado com a afirmação de que em todos os campos há um esforço para a síntese.[93] Esta busca da síntese, das grandes conexões, da totalidade, da generalização, da estática, da estrutura, está ligada ao ingresso da Filosofia no campo lingüístico como em todos os outros campos científicos. Em vez de análise, dinamismo, evolução Kausalproblem, introduz-se agora a síntese, a estática, a estrutura, Formproblem.

Da introdução da Filosofia na Lingüística brota, naturalmente, o fato de que o espírito e o homem são situados no centro de interesse. O equilíbrio entre matéria e espírito, perturbado pela Lingüística Histórico-Evolucionista unilateral, foi reconstruído porque a Lingüística foi levada para mais perto do espírito, do homem, ou seja, porque a Lingüística Sincrônica e Estática, latente na Histórico-Dinâmica, se fez consciente. Por haver feito consciente este aspecto humano, Saussure alcançou méritos imperecíveis.[94]

A Geografia Lingüística de Gilliéron, o Idealismo de Vossler e a concepção sócio-estrutural de Saussure são, em suma, uma busca do espírito, do humano na língua, que precisamente nestes três autores se baseia no dualismo de individual e social. A concepção lingüística de Gilliéron é tão sociológica como a de Saussure. Quando Gilliéron fala da vida na linguagem, quer significar sua função sociológica. Quando afirma que umas palavras se entrechocam e, por conseguinte, desaparecem e cedem o lugar a outras, quer dizer, naturalmente, apesar da unilateralidade desta afirmação, que os homens criam as palavras e as fazem durar ou desaparecer no quadro das mudanças sociais (JABERG, 1926: 23). Com a etimologia popular, a que ele dá tanta importância, e com a sensação indicada há pouco, da representação que os falantes têm de um som ou de um fenômeno fonético, ele faz ressaltar o elemento humano na Lingüística.

O Idealismo de Vossler parte do individual, da criatividade, da “língua como criação”; mas não pode chegar nunca verdadeiramente até à socialidade por meio de sua pouco clara “língua como evolução”. Ele descobre, partindo da intuição para a inteligência, os caminhos do espírito; chega ao homem, ao espírito, andando em direção oposta à de Saussure, que parte da socialidade, da coletividade, da “língua”, para a individualidade, a criatividade, a “fala”, ou seja, indo da inteligência para a intuição. Por isto, a escola de Vossler e a de Saussure promoveram, a primeira, a sintaxe, e a segunda, a estilística, mais que a Fonética, porque naquelas o espírito parece revelar-se melhor. Também é por isto que Saussure estabeleceu os fundamentos para uma Fonética mais “humana”, funcional, isto é, para a Fonologia.


 

 

 

 

 

 

IV. Lingüística Estrutural, Fonologia, Estruturalismo

SUMÁRIO

De qualquer modo, se quiséssemos representar uma estrutura obtida mediante a consideração estática da linguagem em forma tão simples como o faz Saussure, estaríamos enormemente enganados. A estrutura de uma língua, e particularmente de uma língua de cultura, não pode nunca ser homogênea, visto que é sempre heterogênea; “nenhum sistema lingüístico chega a ser perfeito” (MEILLET, 1928: 234). Um sistema lingüístico, já que não existe uma língua pura, é o resultado da influência de diversos fatores. Ainda que não se levem em conta as importantes influências exteriores, que se manifestam em empréstimos e relíquias, e os arcaísmos, vulgarismos, etc., a estrutura de uma língua pode ser modificada, e na realidade o é, pelas influências que vêm das falas locais, além de outros fatores. Portanto, que uma estrutura lingüística, mesmo sem levar em conta os fatores acima indicados, não pode nunca ser homogênea, é uma premissa e uma constatação básica, que se deve ter sempre presente na consideração lingüística estrutural e na Fonologia e Estruturalismo que dela derivam (STEN, 1944: 7; MALMBERG, 1945: 49; B e 1957: 166; GOUGENHEIM, 1952: 240).

Assim como na Lingüística Diacrônica, o som está no centro também na Sincrônica. Mas enquanto, do ponto de vista dinâmico, só as mudanças de sons são observadas, ao considerá-los estaticamente atenta-se para suas relações recíprocas, para sua estrutura. Do ponto de vista dinâmico, o som é separado da palavra e considerado sob o aspecto material, fonético. Do ponto de vista estático-sincrônico, observa-se que entre os sons existem relações mútuas que tornam possível distinguir as palavras entre si, de maneira que no primeiro caso o som não tem significado semântico algum, enquanto no segundo caso o tem.

Saussure demonstrou claramente que o mais importante nas palavras não são os sons, mas as “diferenças fônicas”, que tornam possível a distinção de uma palavra entre todas as demais; que para os elementos fônicos não é característico seu lado material e positivo, mas o serem substituíveis uns pelos outros (SAUSSURE, 1949: 163-4). Ele destaca a diferença entre “ato de fonação” (a formação do som, o lado material) e “lado acústico”, “impressão acústica” (o lado ideal) (SAUSSURE, 1949: 63 e ss., 74-5). A impressão, a sensação que o falante tem do som, o significado do que ouve é o mais importante. Desta maneira, Saussure aproximou mais a língua do homem, tornando-se o fundador de uma Fonética mais humana: da Fonologia (MALMBERG, 1945: 5). Apesar de Saussure ter posto os fundamentos da Fonologia com estas idéias, não entendeu com a palavra “fonologia” senão “fisiologia dos sons”, em oposição à “Fonética”, nome com que ele designava a evolução dos sons, ou seja, a Fonética Histórica (SAUSSURE, 1949: 55-6).

O fundador da Fonologia no sentido atual foi Nicolai S. Trubetzkoy, que, partindo da distinção entre som como elemento físico e fonema como elemento psíquico, estabelecida já por Jan Baudouin de Courtenay em 1895 (TAGLIAVINI, 1949: 119-20, 244, 322), insistiu, com outros lingüistas, no Congresso de Lingüistas de 1928, no estudo dos sistemas fonológicos. Fundamenta-se na distinção feita por Saussure entre “língua” e “fala”, e estabelece diferença entre a ciência dos sons, da fala, e a da língua (science des sons de la parole e science des sons de la langue), diferença que foi certamente pressentida, mas não manifestada explicitamente por Saussure quando afirmou que o “significante lingüístico” não é material, mas “incorpóreo”, ideal.[95] Saussure considerava esta distinção menos importante do que a que existe entre Fonética Histórica e fisiologia dos sons (Fonética Descritiva). Trubetzkoy chama Fonética à ciência dos sons da “fala”, e Fonologia à da “língua”. A Fonética, segundo ele, é a ciência do aspecto material dos sons; a Fonologia, no entanto, estuda os sons enquanto cumprem certa função na língua (TRUBETZKOY, 1949: 11-2). Daí se segue que o resultado material de uma articulação na “fala” é um som. Os sons que são os signos distintivos da palavra, isto é, signos ideais, que a língua usa para distinguir as palavras entre si, chamam-se “fonemas”. “Os fonemas são, pois, as marcas distintivas das silhuetas dos vocábulos” (TRUBETZKOY, 1949: 33 e ss.). O fonema é o fundamento de toda a Fonologia, ainda que sua definição seja discutida (Cf. TWADDELL, 1935; JAKOBSON, 1949: 205 e ss.; JONES, 1949.).

O reconhecimento, por parte dos foneticistas, da consciência de um conceito fonêmico no falante e, simplesmente, de toda a consciência fonética a respeito do que pronuncia, e sua afirmação de que, exceto em casos muito particulares, ninguém sabe verdadeiramente como ele mesmo e os demais falam,[96] foram repelidos pelos fonologistas com a demonstração de que a maior parte das pessoas não tem a menor idéia das regras gramaticais e, não obstante, fala corretamente, porque as regras gramaticais, que, como os fonemas, pertencem ao sistema da língua, estão presentes no subconsciente dos falantes (SEIDEL, 1943: 24).

Quando, por exemplo, pronunciamos o francês cage, comme, cou, articulamos três diversas espécies de c, mais ou menos anterior ou posterior na boca, segundo seja seguido por um a, um o ou um u. Aqui se trata de três variantes do mesmo som, que, como qualquer outro som, pode ter ainda outras variantes, já que nenhum falante articula exatamente igual a outro. Tudo isso acontece individualmente, em determinadas situações; na “fala”, portanto. Qualquer que seja a variante do som c que possa ser pronunciada neste caso, na “língua” se pronunciam as mesmas três palavras com o mesmo significado. Não se levando em conta as inúmeras variantes de som c, fazendo-o abstrato e idealizado, por assim dizer, fazemos dele um fonema e dizemos que por maior que seja a variedade de c que possa ser pronunciado em cage, comme e cou, o significado destes vocábulos permanece invariável (PUŞCARIU, 1937: 244 e 1943: 99). O fonema c é o signo distintivo ideal, a marque distinctive, que usamos na “língua” para distinguir, por exemplo, cage, comme e cou dos vocábulos gage, gomme e goût, as quais, segundo a Fonologia, nos são apresentadas ao mesmo tempo com cage, comme, cou.[97] Falando foneticamente, neste caso nos defrontamos com diferentes consoantes, com um c surdo e com um g sonoro, fonologicamente com uma “oposição distintiva” (TRUBETZKOY, 1949: 33). Esta oposição, que serve para diferenciar palavras, é paralela às oposições entre t e d (tout – doux), p e b (pain – bain), f e v (fin – vin), etc., que em Fonologia se chamam “correlações” (TRUBETZKOY, 1949: 87 e ss.).

É evidente que entre a Fonética e a Fonologia pode haver um estreito laço. Efetivamente, a Fonologia foi definida como “Fonética Funcional”, como doutrina do significado dos sons, “Fonética Significativa” (GOUGENHEIM, 1935: 1-4; PUŞCARIU, 1943: 59; MARTINET, 1943: 197, 205), como “o complemento indispensável da Fonética Clássica” (MARTINET, 1943: 205), e se afirmou que não é possível separar a Fonética da Fonologia e que elas são apenas dois aspectos de uma mesma disciplina (MALMBERG, 1943: 3; COSERIU, 1954: 147 e ss., 153, 163, 174, 177, 199, 207, 214). Entretanto, é mais correto afirmar que entre Fonética e Fonologia não é necessário que exista laço algum ou que não se pode fazer Fonologia sem Fonética Descritiva, mas que sempre pôde e poderá fazer Fonética Descritiva e Histórica sem Fonologia (GOUGENHEIM, 1948: 324). Como poderia o fonologista falar de “oposição distintiva” e correlações entre oclusivas surdas e oclusivas sonoras sem saber qual é a diferença entre uma oclusiva surda e uma sonora? O mesmo Trubetzkoy (1949: 93-246) se serviu para sua classificação das “oposições distintivas”, dos dados da Fonética Descritiva de toda uma série de línguas.

Parece claro que a Fonética pode ser praticada sem a Fonologia, se se observa mais de perto quais são precisamente os campos de trabalho destas duas disciplinas. A Fonética estuda o lado material, isto é, o que realmente se pronuncia; a Fonologia procura determinar o que precisamente se pensa pronunciar (MARTINET, 1938: 131), isto é, não objetivamente o que é pronunciado, mas subjetivamente o que se ouve dizer (PUŞCARIU, 1943: 61). Assim como ao lado da Mecânica existe uma Mecânica Aplicada, junto à Fonética, que se enquadra na “fala”, existe uma Fonética aplicada à comunidade, que desta maneira se enquadra na “língua” (GOUGENHEIM, 1948: 324 e ss.). A Mecânica pode existir sem Mecânica Aplicada, mas não o contrário. Vemos a exatidão da afirmação de que a Fonologia é uma Fonética mais humana, ao confrontarmos a Fonética com a técnica de um pianista, e a Fonologia com a interpretação de uma peça de música (PUŞCARIU, 1943: 78). Sem técnica não existe nenhuma interpretação; sem interpretação, a técnica, a execução da música ao piano, pode existir, mas se torna completa ou mais completa com a interpretação. O mesmo ocorre com a Fonética. Existiu e continuará existindo sem a Fonologia, mas pode tornar-se mais completa com o concurso desta última.

Na realidade, a Fonologia pode completar utilmente a Fonética. Hoje em dia, por exemplo, em Paris, em lugar da vogal nasal , pronunciada com os lábios arredondados, se pronuncia amiúde um ẹ̃ sem arredondamento dos lábios (lẹ̃ndi, em vez de lẹndi), pronúncia que era condenada já na segunda metade do século XIX (NYROP, 1914: 78).[98] A Fonética Descritiva explica este fenômeno com o relaxamento do arredondamento dos lábios e, naturalmente, com razão (NYROP, 1914: 78). No entanto, não pode explicar como foi possível que no francês de Paris, durante longos anos, repetida e continuamente, se tenha pronunciado um ẹ̃ ao lado de um . A Fonologia explica estruturalmente o fenômeno: como e ẹ̃ estão muito raramente em correlação, e se o estão, a correlação é de tal natureza (por exemplo, em brun: brin, alun: alain) que não é possível nenhuma confusão, as duas vogais nasais podem sempre ser identificadas uma com a outra sem que por isso perigue no mínimo a possibilidade de distinguir as palavras (GOUGENHEIM, 1935: 33 e ss.; MARTINET, 1945: 148, 1952: 8-9 e 1955: 56, 194-5; ALARCOS LLORACH, 1954: 107). Assim, a oposição ẹ: ẹ̃ não tem nenhuma função na economia da língua, as duas vogais não representam nenhuma “marca distintiva”, sua diferenciação não é necessária como para os fonemas c: g em cage – gage, etc. A Fonologia explica, portanto, que e ẹ̃ podem coincidir sempre, porque falta o freio estrutural da correlação. E porque a Fonologia pode completar utilmente a Fonética, ao fazer Fonética é bom ter sempre em conta a Fonologia; melhor dito, a Fonética deve ser observada também sob o aspecto estrutural, um ponto de vista que já era levado em conta antes da Fonologia.

A Fonologia ainda deve por natureza simplificar, abstrair e representar o fato esquematicamente. O próprio conceito de fonema não pode ser mais que uma abstração. Se nós, das numerosas variantes de um som, no caso do c (veja mais acima), realizamos um fonema c, fazemo-lo por abstração. Além do mais, a letra c já reproduz na grafia, por sua parte, esta abstração (PUŞCARIU, 1943: 99). Na prática da Fonologia é necessário estar sempre muito prevenido contra esta abstração e compreender bem que uma estrutura lingüística, ou seja, um sistema fonológico, não pode ser nunca verdadeiramente homogêneo; este é um princípio que nunca se pode deixar de ter presente.[99]

Podemos afirmar, por exemplo, que no mesmo sistema fonológico a mesma correlação produz umas vezes uma distinção e outras não, isto é, que umas vezes possui e outras não possui valor funcional. Uma clara oposição entre e aberto e e fechado em final de palavra existe hoje em francês somente nestes casos: dé: dais, fée: fait, clef: claie, ré: raie. Uma das tendências mais evidentes do francês contemporâneo é precisamente a de eliminar a oposição entre e aberto e fechado no final de palavra (MARTINET, 1955: 183-4). Desta maneira, na língua popular francesa a importante distinção entre a primeira pessoa do singular do futuro e do condicional (j’irai com e fechado, j’irais com e aberto) foi abandonada (no futuro também aparece com o e aberto muito freqüentemente em Paris e em províncias).[100] Que a sensibilidade para a oposição entre o ę e o finais vai sendo debilitada, se vê, entre outras coisas, pelo fato de que alguns pronunciam je vais, je sais como v ẹ, s ẹ, e outros pronunciam v ę diante de s ẹ. Se neste caso o francês tivesse podido levar a termo sua tendência natural, a oposição ę: ẹ haveria desaparecido há muito tempo. Isto não pôde ocorrer porque a oposição se manteve graças à tradição, à influência da escola, dos círculos cultos, das academias e da grafia, isto é, graças à influência dos setores de maior prestígio. Entre as pessoas cultas de Paris esta oposição é mantida tenazmente, porque para o francês culto se cria desta maneira uma possibilidade de distinguir a primeira pessoa do futuro e do perfeito simples (irai, donnai) da primeira do condicional e do imperfeito (irais, donnais), distinção que por outra parte se tornou mais fácil por causa do desaparecimento, na língua falada, do perfeito simples (PICHON, 1938: 112, e sobretudo MALMBERG, 1940-1: 232 e ss. Cf. tb; MARTINET, 1945: 113 e ss.).

Este exemplo nos mostra claramente que se o método fonológico tivesse de demonstrar que atualmente em francês existe uma oposição entre ę e em final de palavra, deveria apresentar o fato esquematizando-o muito simplistamente, porque em certos casos (dé: dais etc.) nos encontramos com uma verdadeira oposição, mas noutros (até em sua maior parte) se trata simplesmente de variantes ou matizes característicos, de certos ambientes, de certos indivíduos ou de modos estilísticos (irai, irais, vais, etc.). Também vimos que a crítica do foneticista Grammont, que mais de uma vez previu o surgimento da Fonologia (GRAMMONT, 1939: 39-40 e In: BOLÉO, 1951: 144), não estava completamente carente de fundamento quando se perguntava se uma “oposição” não era simplesmente uma “diferença”.[101] Vimos, ao mesmo tempo, que, se em francês existe uma oposição ę: ẹ em final de palavra, isto pode ser atribuído ao sistema fonológico não do francês contemporâneo, mas a um anterior, ou seja, que um sistema fonológico não é homogêneo, mas uma mescla de diversos sistemas historicamente diferenciados, que estão em oposição entre si e nos quais, neste caso concreto, está desaparecendo o velho e surgindo o novo. No que se refere ao método, este exemplo nos faz ver também que uma língua de cultura como o francês é consideravelmente mais viva, mais complicada e dependente de um grande número de fatores muito diversificado para poder ser fechada no padrão de esquemas abstratos.

Finalmente, a respeito deste caso, não podemos esquecer que a manutenção ou a eliminação da oposição ę: ẹ está sendo desenvolvida sincronicamente, por assim dizer, perante nossos olhos. Dentro de trezentos a quatrocentos anos, se quisermos estabelecer o sistema fonológico do francês atual, deveremos referir-nos, entre outras coisas, às seguintes declarações, que provêm de fontes absolutamente competentes: uma que a respeito da distinção entre j’irai e j’irais manifesta não ter notado nada disto,[102] e outra que afirma que em Paris os círculos cultos, ligados à tradição, se mantêm tenazmente fiéis à pronúncia de j’irai com e fechado.[103] Isto demonstra, por um lado, quão difícil, e melhor diríamos impossível, se torna estabelecer o sistema fonológico de uma língua sincronicamente, e pior ainda no passado, e por outro, quão indispensável é a perspectiva histórica para a Fonologia Sincrônica.

Um sistema fonológico não é, porém, só uma mescla dos sistemas anteriores, mas também a de diversos sistemas procedentes dos dialetos. Quando a Fonologia afirma que em italiano a oposição ę: ẹ “é sempre fonologicamente pertinente” (Cf. TRUBETZKOY, 1949: 34, nota) e que a oposição ọ: o` “tem quase sempre valor fonológico” (PORRU, 1939: 189-90), esta constatação esquemática não corresponde à situação real. A oposição em questão é pertinente somente em Florença, mas ainda ali raramente. Por exemplo: pẹsca: pęsca, ẹsca: ęsca, cọlo: co`lo etc. (TAGLIAVINI, 1949: 325) É um fato estreitamente ligado à origem do italiano e às condições lingüísticas da Itália, que o dialeto de Florença, que forma a base do italiano, não pôde apagar totalmente a influência dos outros dialetos, numerosos e muitos vivos. A língua da própria capital da Itália é essencialmente florentina em sua gramática e em seu léxico, enquanto na pronúncia o é apenas imperfeitamente (MALMBERG, 1942-3: 34). É inútil dizer que este estado de coisas trouxe como conseqüência a distinção característica para o dialeto de Florença se tornou vacilante fora de Florença e da Toscana por causa das influências dialetais. Na Itália Setentrional o e e o o prevalecem entre os dois pares opostos indicados acima (PORRU, 1939: 189-90); em Trieste e na maior parte de Veneza Júlia a oposição entre e e o abertos e fechados não existe em absoluto, e inclusive pessoas que têm algum preparo chegam a não fazerem qualquer distinção e pronunciam os dois sons mais freqüentemente abertos. Em Emília, na Bolonha, o e aberto do florentino se pronuncia fechado, e em vez de bęne se diz bẹne. Em Roma há toda uma série de palavras em que o e e o o se pronunciam de maneira diferente da que se pronunciam na Florença.[104] É compreensível que quando em diversas partes da Itália e até na capital o sentido do valor distintivo desta oposição se debilita, isto não pode deixar de exercer influência sobre o florentino. Que a grafia tenha contribuído, como muitas vezes na Fonologia, para debilitar esta oposição, compreende-se facilmente, desde que seja considerado que para ę: ẹ e para ọ: o` se empregam as mesmas formas gráficas (e e o), enquanto a oposição entre i: e e entre o: a, por exemplo, é indicada por sinais diferentes i: e, o: a (MALMBERG, 1942-3: 37).

Se a Fonologia no esquema do vocalismo italiano

a

ó   é

ô           ê

u                   i

tivesse que atribuir às oposições ẹ: ę, ọ: o¦, o mesmo valor funcional que as outras oposições, operaria de uma maneira esquemática, concebendo abusivamente o sistema vocálico italiano como algo homogêneo, e não como uma mescla de diversos sistemas vocálicos dialetais (MALMBERG, 1942-3: 36, 39, 43). Pois como no caso das oposições ẹ: ę no francês em final de palavra, também ẹ: ę e ọ: o` em italiano formam verdadeiras oposições num caso, e noutro são simples matizes ou variantes individuais, ou estilísticas, ou dialetais, etc. Ambos os casos são metodologicamente instrutivos, porque nos demonstram que a situação lingüística real de línguas como o italiano ou o francês é muito mais complicada e diversificada do que a Fonologia nos quer apresentar, e, ao mesmo tempo, com quanta precaução devemos manejar os sistemas fonológicos. Nada mostra melhor quão sérias são as deficiências do método fonológico neste aspecto do que a conclusão do fonologista Malmberg: “Vemos, pois, novamente a impossibilidade de fazer entrar num esquema todos os matizes e variações que a análise de um sistema fônico de uma língua nos revela. O esquema fonológico rigoroso só é exato até certo ponto, mas não está bastante matizado para refletir todos os aspectos variados e complexos que uma língua de cultura oferece” (MALMBERG, 1942-3: 43).[105]

Mais, porém, do que numa língua de cultura, a deficiência do método esquemático da Fonologia se faz patente nos dialetos, nos quais, como se sabe, podemos encontrar toda uma série de gradações fônicas e nos quais certos sons estão surgindo sem que os falantes do dialeto dêem conta disso (STRAKA, 1942: 65 e ss.; Veja-se DAUZAT, 1943: 75-6). Finalmente, a grafia, como vimos, tem na Fonologia uma participação mais importante do que normalmente se admite. Nos dialetos, efetivamente, as contínuas criações e desaparecimentos de sons, todas as inúmeras variantes e gradações sutis não podem ser fixadas gramaticamente e reguladas ou, ao menos, não na mesma medida que na língua literária (GILI GAYA, 1950: 78). A grafia, naturalmente, tem sobre o falante de um dialeto influência muito mais reduzida do que sobre o de uma língua literária. Nesta, a grafia representa as abstrações dos sons, os sons idealizados. Uma língua literária é, por assim dizer, uma língua “embalsamada” (PISANI, 1950: 188), já fonologizada. Por isto é que, no que se refere às línguas românicas, o campo de atividade da Fonologia está limitado quase exclusivamente às línguas literárias,[106] e a própria Fonologia reconhece que o seu método não é aplicável aos dialetos (GOUGENHEIM, 1935: 3-4). Não ocorrerá à Fonologia, mutatis mutandis, exatamente o mesmo que ocorreu à unilateral Fonética Histórica? Não são, por acaso, os dialetos que se opõem de um lado à regularidade e às leis fonéticas dos neogramáticos e de outro às abstrações fonéticas da Fonologia? Por acaso, uma e outra não se baseiam exclusiva e unilateralmente na língua literária?[107]

Estes obstáculos e outros parecidos deviam ser apresentados aos fonologistas, e na realidade já foram apresentados aos fundadores desta disciplina. Vimos repetidas vezes que um sistema fonológico não pode jamais ser homogêneo, visto que consiste numa mescla de sistemas diferentes cronológica e dialetalmente (Cf. WIJK, 1937: 99). Daí se segue que uma Fonologia rigorosamente sincrônica na realidade não pode nunca explicar um sistema fonológico, porque este deve ser mostrado numa perspectiva histórica, e ao mesmo tempo se vê o ponto fraco da tese de Saussure, que insistia numa separação absoluta entre a Lingüística Sincrônica e a Diacrônica. Em nada se vê melhor do que na Fonologia a necessidade de combinar o ponto de vista sincrônico com o diacrônico. O mesmo Trubetzkoy, que, segundo Roman Jakobson (outro dos fundadores da Fonologia), era “historiador por todo o seu passado e por suas preferências” (TRUBETZKOY, 1949: XXVI), desde a fundação da nova disciplina, viu a necessidade de uma Fonologia Histórica (TRUBETZKOY, 1949: XXV). Já em 1928, Roman Jakobson, Serge Karcevsky e Nikolai Trubetzkoy defendiam a oportunidade de combinar o método sincrônico com o diacrônico e o estudo da história dos sistemas fonológicos.[108] Desde então, diversos lingüistas não orientados estruturalmente se expressaram confiantemente a respeito da Fonologia Histórica (MARTINET, 1955: 15-7).

A missão da Fonologia Histórica é investigar cuidadosamente os fenômenos fonológicos sob o aspecto geográfico e cronológico. Em oposição ao método isolante dos neogramáticos, ela aplica o “método integral”, ou seja, o método adaptado ao conjunto, à estrutura; sua primeira afirmação básica é que “toda modificação deve ser tratada em função do sistema em cujo interior se realiza.” (JAKOBSON, 1931, reimpresso em TRUBETZKOY, 1949: 315-6) Desde 1931 a Fonologia Diacrônica[109] se tornou firme companheira da Fonologia Sincrônica fora do campo das línguas românicas (WIJK, 1939: 5-7) e os romanistas orientados para a Fonologia consideram a Fonologia Histórica como a premissa necessária da Sincrônica, que sem aquela está destinada a um seguro fracasso.[110]

O postulado da Fonologia Histórica é que todo sistema fonológico tende a manter-se em equilíbrio, a harmonizar-se no que for possível (WIJK, 1937: 93; MARTINET, 1938: 143; MALMBERG, 1945: 49), e que esta tendência ao equilíbrio e à harmonia deve ser, naturalmente, explicada com a tendência à economia dos recursos lingüísticos (MARTINET, 1938: 144 e 1955: 42 e ss.). A Fonologia Histórica deve, pois, conceber as mudanças fonéticas, não como algo isolado, mas explicá-los partindo do equilíbrio, da harmonia e da economia de todo o sistema fonológico (WIJK, 1937: 96).

Vejamos agora se a Fonologia Histórica cumpriu até hoje sua missão a respeito das línguas românicas e se conseguiu explicar fonologicamente as evoluções fonéticas, isto é, partindo do sistema integral da língua.

A perda do elemento labial no italiano chi, che (< latim qui, quid) foi explicada pela Fonologia Histórica do seguinte modo.[111] Palatalizando-se ke e ki em latim, formaram-se duas casas vazias (cases vides, holes in the pattern).[112] Para restabelecer o equilíbrio, a harmonia do sistema, qui e que perderam seu elemento labial e passaram a ocupar os lugares de ki e ke que haviam ficado vagos por causa da palatalização[113]:          

 


 

 

 

 

Tya

tyo

tyu

Ki

ke

Ka

ko

ku

qui

que

Qua

quo

 

A objeção mais evidente contra esta explicação é que quando no início do século III de nossa era se palatalizaram ki e ke, não somente em geral, mas na mesma cidade, até na mesma família, por parte da mesma pessoa, durante longos anos em latim ao lado de ke e ki se pronunciaram če e či palatalizados; isto é, existiu uma flutuação na pronúncia (PISANI, 1950: 187-8). Tais mudanças fonéticas não podem vir nunca de chofre; noutras palavras: as “casas” ki e ke não ficaram vazias longo tempo. Mas se tivéssemos de admitir que imediatamente depois que a indicada palatalização aconteceu, no início do século III, se começou imediata e exclusivamente a pronunciar či, če e que os lugares de ki, ke ficaram vazios, deveríamos perguntar-nos como é possível que este sistema desarmônico, privado de seu equilíbrio, durante tão longo tempo, provavelmente durante séculos, tenha podido existir e esperar que, por fim, qui e que preenchessem suas “casas vazias”, isto é, até o momento em que o latim qui e quĭd dessem em italiano chi e che. A deficiência mais notável do método fonológico é, pois, neste caso, que espera esquematicamente e não leva em conta a realidade lingüística.

Finalmente, vejamos um exemplo metologicamente instrutivo. A Fonologia Histórica quer considerar a palatalização do latim ū em ü em território galo-românico, nos dialetos galo-itálicos (excetuando os de Emília e Romanha), em parte do reto-românico e localmente nos dialetos portugueses, que até hoje havia sido atribuída com certas reservas a uma tendência palatalizadora procedente do substrato céltico,[114] de um ponto de vista estrutural, eliminando o substrato céltico. Quer também demonstrar a possibilidade de uma “solução lingüística” deste problema, sobre o que já se discutiu muito. Para demonstrá-lo, Haudricourt e Juilland afirmam (HAUDRICOURT-JUILLAND, 1949: 100 e ss) que no sueco e no grego, línguas cujos sistemas vocálicos apresentam quatro graus de abertura, o u se muda em ü, e que junto com esta mudança ocorre a de o em u. Elas crêem poderem admitir o mesmo para o galo-românico do século VIII, aproximadamente, no qual também o sistema vocálico apresenta quatro graus de abertura, o u se muda em ü e esta mudança é seguida também pela de o em u.[115] Nas três línguas, portanto, a palatalização de u em ü, ou seja, o deslocamento da articulação da parte posterior à anterior do palato, é explicada como uma conseqüência da desigualdade dos órgãos articuladores.

Efetivamente, é bem sabido que o espaço articulatório e a possibilidade de deslocar a língua para as quatro vogais a, ę, e, i, ou seja, ao longo da linha A—C, é quase duas vezes maior do que para as vogais posteriores a, o`, o, u ao longo da linha B—D.[116]

 

 

 

IMAGEM

(copiar da página 132)

 

 

Para ampliar o espaço de articulação ao longo da linha B—D e, desta maneira, fazer mais clara a articulação da série das vogais posteriores apertadas umas com as outras pela disposição anatômica dos órgãos fonadores, o fonema u se desloca, segundo Haudricourt-Juilland, ao longo da linha A—B para diante no palato até o ponto E, de modo que o espaço de articulação originário B—D se prolongue com o espaço B—E. A conseqüência do deslocamento do fonema u para diante, segundo estes autores, é que se produz uma “casa vazia”, a qual é preenchida com o fonema o,[117] que eles representam por meio do esquema anterior e do seguinte:

 

 

IMAGEM

(copiar da página 132)

 

 

 

O ponto mais fraco de toda a explicação estrutural da palatalização de u > ü é a pressuposição esquemática e equivocada de que em galo-românico temos que operar somente com u ou com ü, ou seja, a dita explicação não admite, com base no método fonológico, nenhuma fase intermediária de palatalização e a representa como uma mudança de fonema efetuada de uma vez. Inclusive, no sueco, ao qual se referem os dois autores, o ü tem duas variantes, uma das quais é mais vizinha do u e a outra mais vizinha do i (WARTBURG, 1936: 41-2). Pode ser demonstrado que os autores descuidaram, neste processo, da fase intermediária com o fato de que em alguns casos no francês a palatalização de k diante de ü não se realizou logo; o latim cūra, cūprum, cūlus, cūpa deram em francês cure, cuivre, cul, cuve. Se no tempo da palatalização de k ou u se pronunciasse ü, ou seja, como palatal, deveríamos ter obtido nesses casos, em vez de k, uma consoante palatalizada, como, por exemplo, no francês cire (< latim cera). Por isto devemos admitir, com A. Wallensköld (1930: 387-91), que na época da palatalização de k, o ü não se pronunciava ainda como uma verdadeira palatal, como o i ou o e, mas parecida ao u longo do sueco hus ‘casa’, entre u e ü. É claro, portanto, e até fica provado que o u se alongou em direção ao ü, ocupando diversas posições intermediárias e durante algum tempo. Visto que a situação real é esta, a “casa” do u em galo-românico não ficou vazia de chofre e desta maneira não surgiu uma hole in the pattern que tivesse de ser preenchida com o o para restabelecer o equilíbrio do sistema.

Mas toda a explicação estrutural dos autores, que se funda no sistema de quatro graus de abertura dos fonemas em galo-românico, é inaceitável. Efetivamente, afirma-se que o ü se propagou da França Meridional para a Setentrional e para os dialetos do norte da Itália, mas não ao italiano nem ao valão, porque estes, graças a seu sistema de fonemas de três graus de abertura, ofereceram resistência à palatalização. Ambas as afirmações são inteiramente errôneas. Tanto o italiano como o valão têm, como o francês, um sistema não de três, mas de quatro graus de abertura.[118] Todavia, o italiano e o valão, apesar de seu sistema fonológico de quatro graus de abertura não tiveram necessidade de converter o u em ü, nem aceitaram a importação deste último som de suas comunidades lingüísticas norte-italianas e francesas. Assim como no caso da palatalização de ke e ki, também no do u, a deficiência mais notável do método fonológico é que volta a operar muito esquematicamente, e desta maneira não pode levar em conta a realidade lingüística. No entanto, a tentativa da Fonologia Histórica de dar uma explicação científica e de nos aproximar mais de uma solução, é preferível à simples afirmação que não diz nada, de que o ü francês corresponde ao ū latino.[119]

Cabe-nos ainda ilustrar outra tentativa histórico-estruturalista para explicar a palatalização do u em ü no galo-românico. A mudança de u em ü havia posto fim à insustentável situação fonológica produzida pela coincidência de ū2 (= latim clássico ō) e de ū1 (= latim clássico ū) (POERCK, 1953: 23-92). Esta teoria construída sobre base funcional, historicamente bem fundada e metodologicamente digna de consideração, parte, no entanto, de duas premissas discutíveis e concretamente contraditórias entre si: que nos textos escritos no latim da época merovíngea, em que o ō aparece muitas vezes como ū2, tal grafia represente a efetiva pronúncia do galo-românico,[120] mas que, por outro lado, nos mesmos textos, a grafia o por ŭ não represente nenhum desenvolvimento fonético, mas um valor puramente gráfico (POERCK, 1953: 41). Na rara forma gráfica o por ŭ dos textos merovíngios, no entanto, se reflete a mudança fonética ŭ > ô e o u que aparece amiúde nos mesmos textos em vez de o é uma forma gráfica inversa, devida ao hiperurbanismo. Sobre o fato de que a língua dos diplomas merovíngios é um latim artificial e áulico e não representa em nenhum caso a pronúncia do galo-românico, mas que, não obstante, se mostram através dela os vulgarismos da língua popular.[121]

Finalmente, preparemo-nos para considerar ainda mais de perto a Lingüística Estrutural. Tem sido observado, há tempos, que como o resultado da evolução podem ocorrer vazios num sistema lingüístico e que voltam a ficar cheios no quadro de uma estrutura lingüística. Já em 1905, e, portanto, antes que o conceito de estrutura entrasse em circulação, Gilliéron, com base em sua reflexão lingüística sincrônica, surgida da “sincronia geográfica”, pôde observar vazios numa situação lingüística, que haviam sido preenchidos novamente no quadro da estrutura lingüística.[122] Ninguém, com efeito, pode duvidar da existência de tais vazios. No entanto, metodologicamente, tudo depende de que um vazio na estrutura — tanto fonológica como não fonológica[123] — seja verdadeiramente um vazio.

Já pudemos constatar que Gilliéron atribui uma tendência teleológica aos falantes quando afirma que, desaparecendo gat ‘galo’ e moudre ‘ordenhar’ por homonímia, os falantes procuraram meios de preencher os vazios e chamaram ao galo bigey (vicaire) ‘vigário’ e ao ordenhar traire ‘tirar’. A posição de Gilliéron é equivocada, porque nestes dois casos, como também em outros, não se pode falar de vazios, já que para os conceitos ‘galo’ e ‘ordenhar’ estavam sempre presentes, respectivamente, a palavra jocosa ‘vigário’ (vicaire) e o verbo ‘tirar’ (traire).

A este propósito vimos no mesmo lugar que tomber, por exemplo, foi introduzido no lugar de choir ‘cair’ antes mesmo que este último desaparecesse. Gilliéron é aqui o predecessor involuntário do ponto de vista teleológico, que evidentemente é inseparável do método fonológico.[124] Os casos bigey, traire e tomber são refutações luminosas de uma consideração lingüística teleológica, já que aqui não se pode falar, em absoluto, de uma tendência a restabelecer uma situação lingüística que tenha perdido o equilíbrio e que aja segundo determinado fim, pois não se trata de vazios produzidos na estrutura da língua.

Assim também, os casos tratados há pouco de ki, ke e u, não se tornaram vazios na estrutura, porque ao lado de , e ü se pronunciou por longo tempo ki, ke e variantes de u; daí se segue que qui, que e o não tinham necessidade de vir a ocupar os lugares deixados vagos por ki, ke e u. A explicação fonológica e teleológica é, portanto, também aqui equivocada,[125] e seria correta somente se fôssemos obrigados a admitir mudanças fonéticas improvisadas e a saltos, o que nos casos examinados está em contradição com a situação real, ou melhor, mudanças fonológicas graduais, o que seria o mesmo que admitir termos contraditórios.[126] Finalmente, teria que ser demonstrado ainda que se trata de uma tal mudança fonológica “a saltos” quando realmente se apresenta um vazio de uma estrutura fonética. Meillet, por exemplo, explica que o lugar vazio do v, existente até fins do século I de nossa era, ao lado do f no sistema das consoantes latinas, foi ocupado mediante a evolução fonética do u e não com mudanças fonológicas “a saltos”, e muito antes da Fonologia já fala de uma “casa vazia”.[127]

 

 

 

***

Se quisermos fazer agora o balanço da Lingüística Estrutural no tocante às línguas românicas, deveremos dizer que a Lingüística Estrutural e a Fonologia Sincrônica, que dela deriva, podem integrar a Fonética, como vimos, de maneira útil e dar um sentido ao “positivismo fonetizante”, aproximando-o do homem. No entanto, a Fonologia Sincrônica, a julgar pelos casos tratados, não pode explicar as estruturas fonológicas estáticas sem perspectiva histórica, e, portanto, deve ser complementada pela Fonologia Diacrônica.

Se a Fonologia adota, como princípio fundamental, que um fonema é um som abstrato, idealizado, do seu ponto de vista tem razão. Também tem razão ao sustentar que não há fonemas de transição e que não pode havê-los, e que, por isto, as mudanças fonológicas devem sempre ser feitas “a saltos”. Mas com a série de exemplos apresentados pôde ser visto que a Lingüística Diacrônica e a Fonética Histórica, operando com variedade de sons, com sons de transição e com mudanças fônicas graduais, dificilmente podem trabalhar partindo de semelhantes posições. Quando muito, a Fonologia Histórica poderia existir no domínio das línguas românicas somente se sobre a base dos dados concretos pudesse ser demonstrado com segurança que certas mudanças fonéticas são devidas à estrutura lingüística, isto é, a determinados sistemas fonológicos, o que até agora não se conseguiu em nenhum caso no domínio das referidas línguas.[128]

Não obstante, foi conseguida — e precisamente no campo da Dialetologia Românica, onde não era absolutamente de se esperar — a demonstração, com base em certos dados concretos, de como o sistema fonológico de um dialeto românico, concretamente o de Moena, reagiu contra fatores extra-estruturais, ou seja, contra a admissão de fonemas estranhos procedentes de outro dialeto, e como restabeleceu o equilíbrio fonológico.

O dialeto de Moena, que pertence ao reto-românico central é falado no vale do Avísio, nas fronteiras com o dialeto de Val di Fassa ao norte e de Val di Fiemme ao sul. Estando situado, portanto, numa zona de transição dialetal, o dialeto de Moena nos fornece dados preciosos para solucionar o problema de como um sistema lingüístico reage contra fatores não lingüísticos, por cuja causa havia sido posto em movimento. Os fatores não lingüísticos que entram em consideração neste caso são: 1. que Moena, no século XI, é o ponto extremo da colonização em direção ao sul em Val di Fassa (uma colonização que vem de Bressanone, mais ao norte, e, portanto, de um território lingüisticamente reto-românico); 2. que mais tarde Moena pertence ao Principado de Trento (ao sul) e, por isto, constitui parte do Município de Fiemme.

Eis aqui como o sistema lingüístico reto-românico de Moena reagiu contra a perturbação do equilíbrio provocada pela penetração que vinha do sul (de Trento e de Veneza). Uma das características mais evidentes do reto-românico é a conservação dos grupos de consoantes latinas PL–, BL–, FL–, CL–, GL– em início de palavra. No dialeto de Val di Fassa e no de Moena, em conseqüência de uma inovação do século XIX procedente do sul (Val di Fiemme), estes grupos de consoantes com exceção de CL– foram mudados por pi–, bi–, fi–, ģ-. Enquanto, CL–, que no dialeto de Trento deu ‘c, teve o mesmo resultado no dialeto de Val di Fiemme, o dialeto de Val di Fassa (Moema) ficou na fase ki9– sem chegar à fase ć-.

pi-

bi-

fi-

ki-

ģ

FASSA (Moena)

 

pi-

bi-

fi-

ć-

ģ

TRENTO – FIEMME

 

PL-

BL-

FL-

CL-

GL-

 

O sistema do dialeto de Moena se defendeu também contra o desenvolvimento tardio de ki9– a ć, porque este poderia ter posto em perigo no mesmo dialeto as seguintes oposições fonológicas: ki9ar ‘claro’ (< claru): ćar ‘carro’ (< carru); ki9ara ‘clara de ovo’ (< clara): ćara ‘cara’ (< cara); ki9au ‘chave’ (< clave): ćau9 ‘cabeça’ (< capu); ki9au99ć ‘cravo’ (< cla(v)u): ćau8ć ‘cal’ (< calce). Pelo contrário, não se resistiu à admissão do som ģ (< GL-), procedente do tridentino, porque, como este fonema só se encontra pouquíssimas vezes e sua genuinidade não é segura no dialeto de Moena e de Fassa, o rendimento da oposição ģ–, *gi9– (< GL-) : ģ– (< GL-) não teria corrido perigo, como no caso de *ć, ki9– (< CL-) : ć– (< CA-) (HEILMANN, 1955a: 151-6; HEILMANN, 1955: 119 e ss.).

Por isto nós nos vemos obrigados a estabelecer uma distinção clara entre as explicações de mudanças fonéticas provocadas por fatores estruturais, internos, puramente lingüísticos e as provocadas por fatores não lingüísticos, por exemplo, históricos (veja a convincente explicação da conservação da fase ki9– no dialeto de Moena) (MARTINET, 1955: 54, 191-2; HEILMANN, 1955a: 155-6).

A maior dificuldade no campo da Fonologia Histórica advém do fato de ser quase impossível estabelecer a estrutura fonológica de uma língua românica num tempo determinado.[129] Para os períodos mais antigos devemos satisfazer-nos com a interpretação das grafias medievais, o que em diversos aspectos, por exemplo, no referente aos ditongos, é bastante difícil (GOUGENHEIM, 1939: 262). Logo, temos como meio o estudo das assonâncias e das rimas, no qual, evidentemente, em muitos casos não pode conduzir a resultados seguros. Finalmente temos as observações dos filólogos e outros especialistas sobre a pronúncia própria ou de outrem. Ao tratar da oposição ẹ: ę no francês atual vimos quão contraditórias e inseguras são semelhantes declarações. Se não podemos ter nenhuma noção segura referente às condições fonológicas que se desenvolvem, por assim dizer, sob nossos ouvidos, que deveremos pensar desses esquemas que querem representar-nos as condições fonológicas de cinco, nove e até vinte séculos atrás?

No latim clássico, o sistema das vogais fundamentais, no qual podiam ser encontradas em oposição as palatais com as velares, as longas com as breves e, inclusive, as fechadas com as abertas, era um sistema triangular:

a

e        o

i                u

No latim vulgar, o mesmo sistema continuou triangular, com a diferença de que as correlações de quantidade foram eliminadas e só manteve seu significado fonológico o grau de abertura das vogais:

a

ê       ô

é              ó

i                      u[130]

No século XI, o sistema vocálico do francês, em conseqüência da palatalização do u em ü, é o seguinte:

a

e        o

i                 ü

(com e e o abertos e fechados e com e de qualidade insegura). O sistema vocálico do francês do século XVI é mais ou menos o mesmo de hoje:

a

e     oe     o

i           ü           u

(GOUGENHEIM, 1939: 263-5

Estes e outros esquemas parecidos, triangulares ou quadrangulares, quando muito, podem nos informar foneticamente alguma coisa, mas fonologicamente não podem nos dizer quase nada. Qual era, por exemplo, a freqüência e o rendimento da correlação entre vogais abertas e fechadas (por exemplo, entre ẹ: ę) no latim vulgar e no francês do século XI? Não sabemos absolutamente nada (ALARCOS LLORACH, 1954: 129). E como poderíamos saber algo disse se no francês moderno, conforme vimos, nos encontramos na incerteza diante de problemas do mesmo tipo?

A deficiência metodológica mais evidente na Fonologia Histórica é que é muito pouco concreta e em suas demonstrações quase nunca se apóia nas palavras, mas exclusivamente nos fonemas, como se o fonema pudesse existir sem a palavra. Quando se opera deste modo, os representantes da Lingüística Estrutural não têm direito a estigmatizar com o nome de “atomismo” (HAUDRICOURT-JUILLAND, 1949: 1) o método dos positivistas e o aproveitamento dos petits faits. Ambos os métodos são “atomísticos”, com a diferença de que ao menos o “atomismo” dos positivistas se baseia em exemplos.

Apesar de todas as deficiências, a tentativa da Lingüística Estrutural de explicar as mudanças e, em particular, as mudanças fonéticas das línguas românicas de um ponto de vista fonológico, partindo da estrutura, é certamente justo e digno de avaliação ou apreço. Não obstante, ainda se deverá esperar que a Fonologia Histórica alcance também aqui alguns resultados. Disso depende ainda, naturalmente, a importância que a Fonologia Sincrônica poderá ter para a Lingüística Românica. No entanto, até hoje, a Fonologia, este promissor capítulo da Lingüística Estrutural, não conseguiu em nosso domínio nenhum resultado digno de menção. Por isto também, recentemente, por parte dos mesmos romanistas orientados em sentido estrutural, só se falava, ao lado das “aquisições da Lingüística Histórica”, das “tarefas da Lingüística Estrutural” (WAGNER, 1947: 29 e ss., 37 e ss.).

 

 

 

***

Quanto à Fonologia Sincrônica e Diacrônica, estas duas importantes criações da Lingüística Estrutural (a primeira não podia e a segunda não queria libertar-se da perspectiva histórica), desde 1931 está a caminho um movimento lingüístico que não só a libertou da sincronia e da diacronia, mas também, em última análise, por paradoxal que pareça, de toda a Lingüística. Este movimento, denominado “fonemática” em sua fase inicial, e posto em evidência por parte de um grupo de lingüistas de Copenhague com o fim de precisar sua posição a respeito da Fonologia ortodoxa, foi introduzido definitivamente em 1935 com as comunicações de Louis Hjelmslev e H. J. Uldall, respectivamente, sobre The Principles of Phonematics e The Phonematics of Danish, no II International Congress of Phonetic Sciences de Londres (MARTINET, 1942-5: 20-1; SIERTSEMA, 1954: 14-6). Logo que apareceu, a chamada “fonemática” recebeu o nome de “cinemática”, entrando a fazer parte de um estudo mais extenso, o da “glossemática”

Nesta terminologia, a substituição de fonemas por “cenemas” (ou seja, as unidades da língua que não têm significado, grego keros ‘vazio’) significa que a Glossemática, fundamentando-se na afirmação de Saussure “A língua é uma forma e não uma substância” (SAUSSURE, 1949: 169), está posta numa base mais ampla do que a Fonologia. A Glossemática deveria, efetivamente, estudar não só os elementos da língua falada, os fonemas concebidos com a máxima exatidão, mas ainda os “cenemas”, a língua que se manifesta com a escrita e com os gestos. Já que a língua deveria ser forma e não substância, é absolutamente indiferente, segundo a Glossemática, que seja usada uma matéria ou substância visível, audível ou sensível (por exemplo, os gestos são a substância da expressão para os surdos-mudos). Diante da “cinemática” está o estudo do conteúdo, a “Pleremática” (plérématique, plerematics), cujas unidades, os “pleremas” (plérèmes, pleremes) (do grego pleres ‘cheio’) possuem, no entanto, um significado.

Quando forem encontrados os diversos “cenemas” e “pleremas” de uma língua, devem ser indicadas todas as possíveis combinações de cada “cenema” ou “plerema” com uma espécie de notação algébrica; noutros termos, eles poderão ser descritos. Segundo Louis Hjelmslev (1953: 50),

Uma tal Lingüística, distinta da Lingüística convencional, seria aquela cuja ciência da expressão não é uma Fonética e cuja ciência do conteúdo não é uma Semântica. Uma tal ciência seria uma Álgebra da Linguagem operando com entidades anônimas, isto é, entidades nomeadas arbitrariamente sem designação natural, que só receberia uma designação motivada ao ser confrontada com a substância (MARTINET, 1949: 21; SIERTSEMA, 1954: 17-22).

Enquanto não considera qualquer substância, seja fonética, seja semântica,[131] a Glossemática se move sobre terreno absolutamente platônico, não é uma ciência de realidades concretas e históricas, mas somente de possibilidades (COSERIU, 1954: 201 e ss., 195). Toda a Lingüística é posta pela Glossemática numa esfera vazia, completamente abstrata. A Glossemática faz o mesmo que faria um botânico que, ao estudar as plantas, só estudasse algumas formas universais de vida que elas têm em comum inclusive com o reino animal, como o nascimento, o crescimento, a fecundação, a multiplicação, deixando deliberadamente fora de consideração a essência específica (substance) e as propriedades particulares das mesmas plantas. Um botânico desse quilate não praticaria a Botânica, mas muito mais a Biologia, isto é, uma ciência que não está em contradição com a Botânica (COSERIU, 1954: 211). Assim também a Glossemática é uma ciência mais geral do que a Lingüística. Enquanto estas duas ciências são consideradas separadamente, não há conflito entre elas, e a teoria de Hjelmslev não tem por que ser combatida. Mas quando a Glossemática se aplica à Lingüística, quando esta é reduzida à Glossemática, as duas ciências se chocam, porque se trata de duas ciências diferentes.[132]

Por isto não devemos estranhar que nos falte completamente a demonstração de como seja na prática esta Álgebra Lingüística, mesmo depois do aparecimento da Outline of Glossematics (ULDALL. A study in the methodology...; HJELMSLEV-ULDALL. 1957).[133]

O modo de operar da Lingüística Estrutural é, na prática, absolutamente abstrato, teórico, esquemático e dedutivo, apesar de, em princípio, parecer não se separarem os que a praticam, ao menos no início, do método empírico e de quererem evitar um modo esquemático de trabalhar.[134] Não se têm levantado, portanto, tão negativamente contra os petits faits vrais, contra o concreto, contra o chamado “atomismo” dos positivistas (BRÖNDAL-HJELMSLEV,1939: 2). Mais tarde, a Glossemática, com a aplicação do chamado método estritamente “imanente” e com o rompimento dos laços com os pontos de vista fonético, psicológico, sociológico e, naturalmente, também histórico,[135] se converteu numa Álgebra Lingüística (“Álgebra da Linguagem”), uma ciência de caráter matemático construída com método dedutivo (ALARCOS LLORACH, 1951: 25, 28, 44).

O chamado método “imanente”[136] só foi aplicado uma vez até hoje para o estudo de uma língua românica, concretamente do francês (TOGEBY, 1951).[137] Da leitura da obra de Knud Togeby não se torna claro o que é exatamente este “método imanente”.[138] Parece ser sinônimo de “funcional” (TOGEBY, 1951: 171), exceto nas últimas páginas da obra, em que é interpretado como característico para o estudo do francês em comparação com outras línguas e se diz que serve para estabelecer “uma tipologia das línguas independente de seu parentesco e de fatores exteriores” (TOGEBY, 1951: 266). O prognóstico do autor desse trabalho (TOGEBY, 1950: 80) de que a influência da Glossemática “se fará certamente sentir um dia sobre o estudo das línguas românicas”, deve ser considerado demasiadamente otimista, ao menos por enquanto.

 


 

 

 

 

 

 

Quinto Capítulo

Revisão e Previsões
(Referentes à Metodologia

SUMÁRIO

 

Uma revisão sobre o desenvolvimento dos vários métodos da Lingüística Românica nos faz ver claramente que esta é uma ciência histórica e que ao praticá-la é conveniente a aplicação do método histórico. Já que sincronia e diacronia são inseparáveis, o método sincrônico forma a natural integração do histórico. Esta integração sincrônica da diacronia, que já foi apresentada no aspecto comparativo do método histórico-comparativo, realiza-se por meio da Geografia Lingüística derivada da Dialetologia. A Geografia Lingüística é, sem dúvida, o passo mais importante no desenvolvimento metodológico de nossa disciplina. A realização do método sincrônico aproxima da vida da linguagem o método histórico-comparativo, que é amiúde fundamentado unilateralmente na língua literária e nos aspectos fonéticos, positivistas e evolucionistas, e põe em relevo os aspectos individuais, sociais e humanos e o espírito. O aspecto sincrônico do método histórico foi posto em evidência pela primeira vez pela Geografia Lingüística de Gilliéron, pelo método idealista de Vossler e pelo sociológico-estruturalista de Saussure.

Com a Fonologia, chegamos ao ponto extremo deste processo de desenvolvimento. A Fonologia puramente sincrônica deve ser completada, por sua vez, pelo método histórico. Assim, portanto, todo o processo de desenvolvimento metodológico pode ser resumido como se segue. O método histórico, unilateral, foi completado por meio da Geografia Lingüística, da Lingüística Idealista e da Lingüística Estrutural, ou seja, no plano sincrônico, enquanto o método unilateral sincrônico, por sua vez, é obrigado a recorrer ao histórico, e desta maneira passamos da diacronia à sincronia e desta voltamos de novo à diacronia: a Fonética Histórica se faz Fonologia Sincrônica, e esta, por sua vez, Fonologia Histórica. Todo o processo de desenvolvimento nos faz ver claramente que não podemos praticar a Lingüística Românica sem o método histórico. Se o método se distancia completamente da perspectiva histórica, se a rompe com a diacronia, naturalmente, já nem sequer pode ser sincrônica, e se torna “Psicologia Sublingüística” Glossemática, Álgebra Lingüística etc.

A Lingüística Românica é mais histórica do que todas as outras disciplinas lingüísticas, porque neste caso o ponto de origem, o latim, é conhecido, ao contrário do que ocorre nas demais. Esta orientação demasiadamente diacrônica tem como conseqüência que a integração sincrônica da diacronia vem, praticamente, das línguas românicas. A importância metodológica desta disciplina é, portanto, decisiva neste aspecto.

Eis aqui como, na prática, a Lingüística Românica faz a sincronia progredir. O método comparativo é uma visão sincrônica, praticado na Lingüística Românica, cujo ponto de partida, o latim, é conhecido, demonstrou a importância deste método para os outros domínios lingüísticos, nos quais a língua primitiva (Ursprache) é desconhecida.[139] A reação contra os neogramáticos e seu método unilateralmente histórico vem da Lingüística Românica (Ascoli, Schuchardt, Gilliéron). À Lingüística Românica devem, ainda, a Dialetologia como ciência, a Geografia Lingüística e a corrente Palavras e Coisas (Wörter und Sachen), a Onomasiologia, a Estratigrafia Lingüística e a Lingüística Espacial que derivam da Geografia Lingüística. Ainda que de um ponto de vista teórico a diacronia tenha sido completada com a sincronia, não pela Lingüística Românica, mas pela Geral e Indo-Européia, mais concretamente, por Saussure, e pela importante contribuição deste à Lingüística Sincrônica, antes inconsciente, se tenha tornado consciente , a Lingüística Românica favoreceu efetivamente esta integração. A situação privilegiada da Lingüística Românica tem como conseqüência o fato de esta disciplina ser considerada a Praeceptrix Lingüisticae.[140]

No que diz respeito à Fonologia, para a qual, em princípio, a Lingüística Românica devia ser súdita de outras disciplinas, já existem sinais evidentes de que nossa disciplina, graças a seu método histórico rigoroso, está predestinada, nas investigações fonológicas, a representar papel inverso com a integração da sincronia na diacronia, e a dar as diretrizes também neste caso, ou seja, na Fonologia Histórica.

Se levarmos em conta que, no terreno das línguas românicas – pelo fato de ser conhecido o latim, que é seu ponto de origem, e por ser riquíssimo seu material documental –, tudo ou quase tudo acontece às claras e controlado pela história e que, por conseguinte, só resta um espaço mínimo para reconstruções, suposições e hipóteses, fica claro que no futuro, como no passado, o método que tiver de ser aplicado na Lingüística Românica deverá seguir a direção do concreto para o abstrato;[141] como toda ciência indutiva – e a Lingüística é indutiva sem dúvida alguma –, a Lingüística Românica deve operar empiricamente; noutras palavras, deve partir da observação dos fatos e esforçar-se para chegar ao conjunto, ao geral (DAUZAT, 1949: 200, 274 e ss.).

Assim, portanto, do particular ao geral, do “microscópico” ao “macroscópico”.[142] Também o ideal da Lingüística Românica foi e continuará sendo o de chegar à síntese, mas o caminho para chegar a ela deve partir, como em qualquer outra ciência indutiva, da análise. Esta era a convicção de Wilhelm von Humboldt (TERRACINI, 1949: 68), lingüista de ampla visão sintética, ao qual apelam satisfeitos os que desejam pôr a síntese acima da análise (JABERG, 1926: 18).

O caminho da análise à síntese, ao conjunto, ao geral, foi e ainda deverá ser seguido metodologicamente na Lingüística Românica: deverão ser resguardados o amor aos detalhes e à matéria e a admiração e o desejo de chegar ao geral, à síntese (Veja SHUCHARDT. 1922: 253). Quem quer que se ocupe seriamente dos problemas de nossa disciplina deverá chegar a esta convicção metodológica, uma convicção que é exclusivamente o resultado da prática e nunca da teoria. Este caminho a seguir metodologicamente pode muito bem ser assinalado pelos representantes da Lingüística Estrutural como “positivista” e “atomista”, mas não pode ser estigmatizado como um interesse exclusivo e como um contentamento e uma diversão com os petits faits vrais.[143] Para o método verdadeiramente positivo, ao contrário, tratados de caráter geral e investigações detalhadas são companheiros inseparáveis e de igual valor.[144]

No entanto, se quiséssemos empreender o caminho oposto e chegar na Lingüística Românica do abstrato ao concreto, e aplicar, como nas ciências exatas (por exemplo, na Matemática), o método dedutivo (DAUZAT, 1949: 313 e ss.), chegaríamos, em conseqüência de um modo de operar esquemático e generalizador, ao método esquemático da Lingüística Espacial, às generalizações idealistas, à “Psicologia Sublingüística”, aos esquemas da Fonologia, ou então às abstrações estruturalistas, mas em tal caso nosso método se tornaria de todo especulativo, já não observaríamos os petits faits vrais, o que teria como conseqüência o nosso completo distanciamento da realidade lingüística. Se a Lingüística Românica é a Praeceptrix Linguisticae, devemos, em seu nome, pôr-nos de sobreaviso sobretudo contra o estruturalismo exagerado, para o qual a Lingüística pode ser desnaturalizada num abstrato e especulativo “conceptualismo formalista.” (LEROY, 1952: 529 (cf. DAUZAT, 1953: 307-8).[145]

Enfim, é importante reconhecer metodologicamente (o que uma vez mais nos ensina a prática e não a teoria) que o método indutivo aplicado na Lingüística Românica está continuamente em estreita correlação com o dedutivo. Esta correlação, no entanto, é tal que a dedução recebe da indução sua razão de ser, podendo também ser dito que o método a ser seguido em nossa disciplina é a intuição baseada nos fatos. Entendendo-se assim, a afirmação de que “a indução é no fundo uma dedução disfarçada” (BRÖNDAL, 1939: 4) é na verdade justa, e até se confirma pela prática. Efetivamente, cada vez que se começa a observação, a análise dos fenômenos lingüísticos, começa-se ao mesmo tempo com a experimentação, a generalização, a abstração, a síntese, que, no entanto, por sua vez, é guiada e moderada pela indução. No quadro desta concepção metodológica fundamental podem ser revividos os fenômenos lingüísticos das mais diferentes maneiras (Methode ist Erlebnis), positivista, idealista, sociológica, estruturalisticamente etc., e com qualquer outro método até hoje desconhecido, inclusive, amiúde, com a combinação de diversos métodos,[146] desde que não nos distancie da realidade lingüística.

 


 

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[1]

[2] “Preferi expor-lhes minhas próprias experiências também porque o caminho básico do investigador individual, condicionado como está por suas primeiras experiências – por suas Erlebnis como dizem os alemães – determina seu método: Methode ist Erlebnis, disse Gundolf” (1929-30: I,  4; SPITZER, 1948: 1, 23 e 38.)

[3] GRÖBER, 194-6: I, 26; MEYER-LÜBKE, 1935: 847; GAMILLSCHEG, 1928: 508; WARTBURG, 1928 e ss.: I, 190; III, 339-41 e 1931: 222 e ss.

[4] “...O método, considerado independentemente da busca laboriosa do estudioso, não existe concretamente, mas é apenas uma abstração de nossa mente. O método mesmo é “conhecimento” e forma mentis; e é sempre bom ou mau não em si mesmo, mas enquanto são bons ou maus os resultados a que se chega.” (BERTONI, 1933:171.)

[5] “Volto a viver somente na Idade Média, cujo brilho a turva época atual quer apagar” diz Friedrich Diez (RICHERT, 1913: 56; CURTIUS, 1947: 398-9).

[6] ROUSSELOT, 1891; GAUCHAT, 1905: 175-232; Cf. IORDAN-ORR, 1937: 36 e ss.; POP, 1950: I, XLII, 307-15, 187-96.

[7] Referente à polêmica contra o behavior approach de Bloomfield, veja PORZIG, 1950: 92, 94 e cf. BONNARD, 1956: 205-12.

[8] O mesmo Bloomfield, um discípulo dos neográmaticos, declara expressamente que os motivos das mudanças fonéticas são desconhecidos. “Embora muitas mudanças de sons abreviem formas lingüísticas, simplifiquem o mesmo sistema fonético ou minorem de alguma outra maneira o trabalho de pronúncia, nenhum investigador conseguiu, apesar disso, estabelecer uma correlação entre uma mudança de som e um fenômeno antecedente. As causas da mudança fonética são desconhecidas” (BLOOMFIELD, 1954: 385). Sobre o método de Bloomfield, veja HALL, 1946: 273-83; 1951: 108-11 e 1952: 1-2. Quanto a Bloomfield e sua escola, veja entre outros, OTTO, 1954:103.

[9] “Se o único meio de reconstruir é comparar, reciprocamente, a comparação não tem outro fim senão a reconstrução” (SAUSSURE, 1949:299).

[10] TOBLER, 1908: 81 e ss.; VOSSLER, 1929:. 164 e ss.; SNEYDERS DE VOGEL, 1927: 17 e ss.; WARTBURG, 1946: 139-40.

[11] FESTO, 202, 13: orata genus piscis appellatur a colore auri quod rusticiorum dicebant,ut auriculas ‘oriculas’, onde rustici e dicebant indicam de igual modo a origem popular de orum e oriculas (MEYER-LÜBKE, 1904: 465).

[12] GRANDGENT, 1928: 291; MEYER-LÜBKE, 1904: 465-6; MEILLET, 1923: 8 e 1928: 248-9; PUŞCARIU, 1937: 100; BERTOLDI, 1940: 28 e ss.; BATTISTI, 1939: 106-7.

[13] GRÖBER, 1884: 539 e 1888: 457 e ss.; MEYER-LÜBKE, 1890-92: II, 154 e REW, 1451, n° 7586; WARTBURG, 1928: II, 24 e ss.; BLOCH-WARTBURG, 1932: 147 e 1950: 258; BATTISTI, 1949: 58 e ss.

[14] A. Tobler, um dos mais profundos conhecedores da sintaxe românica, já nos últimos vinte anos do século passado ressaltou a relatividade de toda “lei” de sintaxe histórica (BATTISTI, 1937: 9 da separata.

[15] “Tobler - diz Boer em outro lugar (TOBLER: 1946-7: 16) e aplica este princípio em muitos pontos - compreendeu que, no estudo da sintaxe francesa, a comparação do francês com outras línguas (o grifo é nosso) deve ocupar um lugar ao menos tão importante como uma comparação do francês com o latim. “Certamente, a sintaxe francesa deve também ser comparada com a de outras línguas, e não só com a do holandês, húngaro etc.” Sem dúvida, Tobler, ao dizer “outras línguas”, queria indicar as línguas românicas. Se é exata a afirmação de Boer, de que Tobler, em suas Vernischte Beiträge zur französischen Grammatik só se refere um par de vezes ao latim vulgar (cf. BOER, 1950: I, 15-20), não obstante ele compare também a sintaxe francesa com a de outras línguas românicas, e mais de um par de vezes, por exemplo, com a italiana, provençal, espanhola e portuguesa (Cf. TOBLER, 1921: I, 63, 67-8, 139-41, 176-8, 251-3, 255-6, 274-5 e 277-8). O velho Tobler (1912: V,  3-29) ainda se refere à sintaxe e confronta também, sempre, o francês com as outras línguas românicas.

[16] Em italiano o uso do subjuntivo depende do acento particular do predicado psicológico. Diz-se, por exemplo, Gli chiesi se egli voleva essere dei nostri; mas, quando dei nostri deve ser particularmente sublinhado, emprega-se o subjuntivo: Gli chiesi se egli volesse dei nostri (STROHMEYER, 1950: 310-1).

[17] Por exemplo: Dove potesse sedere, in quell’anticamera, un visitatore, non si riusciva a capire, o Come poi sia finita, o l’amico non lo raccontava, o m’è uscito di mente (STROHMEYER, 1950: 298-9).

[18] Não é necessário provar que nas línguas românicas tenha continuado uma tradição sintática latino-vulgar.

[19] “Que na sintaxe ocorra de outro modo, é dificilmente aceitável. Em todo caso, só poderia ser aceito se existissem para isso motivos muito evidentes. Enquanto estes não apareçam, considero não só permitido, mas também necessário reconstruirmos a sintaxe românica primitiva, inclusive correndo o risco de um erro eventual” (MEYER-LÜBKE, 1895: 309). Cf., não obstante, Meyer-Lübke (1920: 10), onde ele se mostra muito mais cético.

[20] É interessante, para a importância da pancronia, e digna de ser estudada mais profundamente, a participação que o ritmo e a simetria tiveram na uniformização dos tempos no período hipotético irreal, característico para as mais diversas línguas, por exemplo: latim si habuissem, dedissem; espanhol si tuviera dinero, fuera rico; si tendría, daría, alemão wenn ich Geld hätte, wäre ich reich; eslovaco  keby som mal, dal by som ‘se tivesse, daria’; húngaro ha pénzem volna, gazdag volnék ‘se tivesse dinheiro, seria rico’ (comum em húngaro) (GARCÍA DE DIEGO, 1952: 95-107).

[21] Cf. também Lerch (1925: 84, 86 e 90) e Marouzeau (1929: 112-5), ambos são contrários ao método pancrônico, não histórico, da sintaxe.

[22] Os fatores históricos não são aceitos por Weerenbeck (1938: 32-62).

[23] Sobre o método de reconstrução do latim vulgar, veja também VOSSLER, 1954: 72-6.

[24] MEYER-LÜBKE, 1890-92: I, 142-6; BOURCIEZ, 1937: 64 e 66; NYROP, 1899-903: I, 183-4; PIDAL, 1952:. 46; DAUZAT, 1949: 281 e ss..

[25] Sobre a segunda Lautverschiebung, diz Th Frings (1924: 9): “...não se deveria falar de mutação de sons, mas de palavras alteradas em seus sons”.

[26] “... os sons da linguagem não são fenômenos físicos, mas espirituais. Só se produzem pela escolha significativa, que naturalmente é uma atividade do espírito. Os sons não formam a palavra, como o leigo tende a crer, mas a palavra e, melhor ainda, o conjunto das palavras é que produz os sons como unidades determinadas. Até nessas formações inferiores e que parecem simplesmente naturais, a língua é espírito” (PORZIG, 1950: 54).

[27] Alusão à fada (da família do Rei Artur) que aparece em romances do ciclo bretão com o poder da cura.

[28] Vide recensões, metodologicamente importantes em TERRACHER. 1918: 231-42;  JABERG, 1920: 121-35; MEYER-LÜBKE, 1919: 371-86 e WARTBURG, 1928: I, 104-5.

[29] BOTTIGLIONI, 1919: 34; MEYER-LÜBKE, 1935, n° 2936; WARTBURG, 1928 e ss.: III, 257-8; TAGLIAVINI, 1949: 97.

[30] “A reflexão e os fatos estão de acordo para destruir esta falsa unidade lingüística chamada patois, essa concepção de um município ou inclusive de um grupo que teria ficado como depositário fiel de um patrimônio latino’. (GILLIÉRON-MONGIN, 1905: 27).

[31] DAUZAT, 1948: 170; WARTBURG, 1946: 132; TERRACINI, 1949:160, 168, 196 e 197; BERTOLDI, 1949: 87-88.

[32] “Foi necessário - disse Gilliéron (1912: 128) - procurar para o galo do poleiro um nome que não lhe suscitasse um adversário muito próximo e perigoso. Deve ter havido alguma vacilação e diversidade para escolher esse nome. Finalmente, chegou a se fazer do galo, ambiciosamente, um ‘faisão’, ou humoristicamente um ‘vigário’, o que era preferível a deixá-lo à mercê do gato. É possível, por outro lado, que os falantes tenham se divertido com essas denominações anormais e as tenham propagado com prazer...”

[33] O vocábulo gascão gàlhou ‘galo’ (em Arrens), distante deste ponto, é considerada efetivamente como um empréstimo do espanhol (ROHLFS, 1935: 63).

[34] “Palavras secundárias e da espécie semântica mais medíocre, pobre recurso de uma língua agonizante que perdeu o termo correspondente a uma operação perfeitamente determinada, singular, incomparável, verdadeiro ‘mal menor’ lexicológico” (GILLIÉRON-ROQUES, 1912: 12-13).

[35] “O atlas tira a palavra de seu isolamento no vocabulário, onde surge ao azar da ordem alfabética, recoloca-a em seu verdadeiro ambiente regional e proporciona ao lingüista uma grande quantidade de fatos sincrônicos devidamente transcritos e exatamente localizados” (JUD, 1928: 266).

[36] A semântica, que aqui é considerada ainda em relação à fonética, desde então está predestinada (graças também à fonologia) a se converter numa ciência independente, inclusive no que se refere às línguas românicas. Veja-se o informe de Fourquet-Mattews (1956: 103-5 e 108). Quanto à semântica histórica das línguas românicas, deve recuperar ainda muito terreno perdido. “Parece-me que a fonética românica hoje em dia é conhecida e superconhecida; mas a semântica medieval não nos entregou ainda todos os seus segredos” (SPITZER, 1951: 100-7), enquanto a semântica descritiva no terreno românico se encontra ainda em seu estado inicial.

[37] A opinião de Wartburg (1928 e ss.: III, 491 e ss.), segundo a qual ficátum é a forma mais antiga e fícatum a mais recente, não é compartilhada por Wagner (1952: 405-408. Wartburg (1954: 65-71) defende sua posição contra Wagner. Este último sustenta com outros argumentos seu ponto de vista na resposta (WAGNER,1955: 371-3). Veja a tréplica em WARTBURG, 1956: 295-7.

A forma fícatum mostra na realidade uma maior dependência do grego SYKOTÓN, porque, como noutros casos, as palavras gregas com o acento sobre a última sílaba se tornaram proparoxítonas em latim. Por exemplo: ORPHANÓS > órphanus, MONAKÓS > mónachus.

Ficátum é, pelo contrário, o resultado de uma latinização mais tardia, e é, portanto, mais recente. A forma ficátum vive no romeno ficát, venesiano figà, friulês fiát, engadinês fió e nos dialetos sardos meridionais (figáu). Todos os demais territórios românicos (italiano meridional fícatu, sardo central fígadu, italiano fégato, português fígado, espanhol hígado, aragonês fígado, catalão fetge, francês meridional fege (fedge), gascão hidge, francês foie) conservaram a forma fícatum. É evidente que precisamente os territórios lingüisticamente mais arcaicos (Sardenha Central, Itália Meridional, Península Ibérica) haviam conservado a forma mais antiga. Fícatum, pronunciado com ī [i longo], deu lugar ao espanhol hígado, português fígado, gascão hidge etc., enquanto o italiano fégato, francês meridional fege, francês foie etc. vêm de fícatum com ĭ [i breve] da antepenúltima sílaba breve. A abreviação do ī [i longo] e do ū [u longo] na antepenúltima sílaba parece ter existido já em latim na Itália Meridional (segundo os dialetos atuais) sobre um extenso território (*pŭlice, *cĭmice, *lĭmite, em lugar de pūlice, cīmice, līmite) (ROHLFS, 1954: 18-9 e 1949-54: I, 65. Cf. também BERTOLDI, 1952: 37-42).

[38] “... a Fonética é somente um acréscimo: as ‘leis fonéticas’ são sinais que nos guiam através do espesso bosque” (SCHUCHARDT,1922: 127).

[39] GILLIÉRON-MONGIN, 1905: 3-30; cf. SCHUCHARDT, 1922: 126; MEYER-LÜBKE. 1925, n° 7764 e 7867; GAMILLSCHEG, 1928:. 790 e 799; BLOCH-WARTBURG, 1932: II, 260-1 e 271-2; TERRACINI, 1949: 193-4; KRÜGER, 1949-50: 63-9; SCHEUERMEIER, 1953: 150-1.

[40] “... é o objeto real [ou seja, a ‘foice dentada’] do qual partem os impulsos lingüísticos cujos traços se prolongam e se perpetuam, inclusive depois que o objeto real desaparece” (GILLIÉRON-MONGIN, 1905: 23).

[41] [Ou melhor, uma deformação do catalão enganyapastor (adaptado a gagna) nome de diversos pássaros que enganam o camponês, e entre eles a alvéloa ou alvéola, pequeno passarinho que parece ser presa fácil, mas no último momento levanta vôo e não se deixa pegar.] (Nota do tradutor espanhol).

[42] O exemplo mais notável deste método se encontra ainda na obra de Wagner (1921).

[43] Esta última obra representa o tratado integral da Gegenstandskultur da região de alta montanha pirenaica (casa, curral, pastoreio, trabalhos campestres, transportes, cultivo de cereais, sega do feno, produção do vinho e do azeite, indústrias domésticas etc.).

[44] Notem-se as justas objeções de Wartburg (1937: 296-312, e 1946: 142 e ss.) contra o caráter demasiado absoluto do conceito de Feld segundo Trier e sua aplicabilidade em campo exclusivamente espiritual (cf. KRÖLL, 1950: 32-34 e BALDINGER, 1952: 80).

[45] Veja-se, no entanto, a tentativa de Tinsley (1953); e para o tratamento sincrônico e diacrônico de um problema sintático-lexicológico no quadro da Feldforschung o estudo de Baldinger (1954: 305-40).

[46] Embora Schöneweiss (1955: 183-203) reconheça a validade da teoria do Wortfeld, segundo ele, somente com base em muito material lingüístico e em numerosos estudos particulares deveria ser possível explicar a estrutura lingüística.

[47] Nas páginas 99-117 dá um exemplo, no caso dos conceitos art e artiste entre 1827 e 1834, do modo como, segundo ele, deveria ser estudado um “campo nocional”. Infelizmente não é possível tirar daí uma idéia precisa do método.

[48] “A sociologia oferece múltiplas semelhanças com a lexicologia... A lexicologia tem por objeto, portanto, como a sociologia, o estudo dos fatos sociais, e utilizará sempre que puder as contribuições de sua irmã mais velha. Tanto ou mais que sobre os estudos sintáticos e fonéticos, é sobre a sociologia que a lexicologia deve abrir suas portas...” (MATORÉ, 1953: 49-51; mas, veja também p. 30, 39, 40, 91 e 92).

[49] “Não há explicação se não for total. Também nossos estudos serão fundamentados não em palavras isoladas, mas em conjuntos, em organismos lexicológicos...” “Não estando isolada, a palavra não pode dissociar-se em nenhum caso do grupo a que pertence. As palavras no interior do grupo não têm todas o mesmo valor: constituem uma estrutura hierarquizada. Esta estrutura é móvel; os movimentos a que obedecem as palavras e os grupos de palavras têm uma maneira correlativa: um vocabulário é um todo como a época que ele representa” (MATORÉ, 1953: 6 e 62).

[50] As palavras não são “os testemunhos da história”, segundo o ponto de vista histórico (cf. BRUNOT, 1928), mas, conforme o ponto de vista sociológico-estruturalista, “o reflexo de um estado da sociedade” (MATORÉ, 1953: 43-65).

[51] “As livrarias não poderão ter mais de uma Boutique ou de um Magasin aberto para a venda de seus livros... Quer S. M. que diante de cada Boutique ou Magasin aberto, sejam colocados cartazes ou quadros (indicando)... que ali se vendem livros...” (KRAUSS, 1955: 385).

[52] Quanto aos campos nocionais, às palavras-testemunho e às palavras-chave, veja também GUIRAUD (1955: 77-9).

[53] Sobre o estado atual da semântica estrutural em geral, veja HJELMSLEV, 1957: 272-3 e BALDINGER, 1957: 15-19.

[54] Segundo Ullmann (1957: I, 289-303), o método estrutural pode ser aplicado com êxito à semântica histórica.

[55] “Ela mesma [a língua] não é uma obra (ERGON), mas uma atividade (ENÉRGEIA)... Ela é, com efeito, o trabalho do espírito que se repete perpetuamente, capaz de converter o som articulado na expressão do pensamento (HUMBOLDT, 1836: 41). Quanto à esterilidade atual do dilema de Humboldt, cf. DEVOTO (1951: 86).

[56] “Pois a língua não representa nunca os objetos, mas sempre as imagens dos mesmos formadas automaticamente pelo espírito na criação lingüística” (HUMBOLDT, 1936: 96). Cf. PAGLIARO, 1930: 56-7 e ÖHMAN, 1951: 34-6.

[57] Acerca dos laços da forma lingüística interior com o método dos sprachliche Felder (p. 66 e ss), veja TRIER,1931: 20: “É certo que as futuras doutrinas da forma interna da língua deverão aceitar como elemento importante a idéia da divisão de campos lingüísticos. Investigar a divisão de campos significa investigar num lugar limitado uma parcela da forma interna da língua, e precisamente uma forma interna ordenante, na qual, em contraposição à forma interna meramente figurada das palavras isoladas (Marty), a visão do mundo de uma língua se manifesta num determinado momento de maneira que não pode ser mal compreendido.”

[58] A respeito desta preferência espiritual do boiadeiro na América do Sul, as “preferências mentais na fala do gaúcho”, veja ALONSO, 1935: 148-50, 155, 164-8, 174-7 e 1953: 73-101.

[59] “A causa [de todas as mudanças lingüísticas] é o espírito humano com suas inesgotáveis intuições individuais, com sua AISTHESIS; e a rainha absoluta da Filologia é a Estética... Lingüística no sentido puro da palavra não é mais que a Estilística. Mas esta pertence à Estética. Lingüística é História da Arte” (VOSSLER, 1904: 63 e 42).

[60] “Os sentimentos da humanidade permaneceram psicologicamente os mesmos, mas foram buscadas outras formas de expressão. Sua mudança é uma modificação estética. Uma nova prova de que em Lingüística não se pode fazer nada baseado na Psicologia. Uma simples passagem pela estilística e pela estrutura da frase conduz ao laboratório do espírito e mostra os últimos e verdadeiros fundamentos das mudanças fonéticas” (VOSSLER, 1905: 132).

[61] ROHLFS, 1928: 6; PUŞCARIU, 1937: 141-2; IORDAN-ORR, 1937: 111 e ss.; TERRACINI, 1949: 30; ROHLFS, 1950: 458; DEVOTO, 1946: 75, 1950: 367 e ss. e 1951: 62).

[62] Reelaborado e publicado em 1929 com o título modificado: Frankreichs Kultur und Sprache. Geschichte der französischen Schriftsprache von den Anfängen bis zur Gegenswart.

[63] “Isto só é possível numa língua que se acostumou a contemplar as coisas com olhos de comerciante ou de político, para quem todas as qualidades podem ser medidas e trocadas. É um realismo tão prático, calculador, racional, que estendeu o genitivo partitivo às idéias concretas como às abstratas, às determinadas como às indeterminadas” (VOSSLER, 1929: 165).

[64] SPITZER, 19145: 141-2; HATZFELD, 1932: 439-40; ROHLFS, 1950-2: I, 74-5 e 1928: 7-8.

[65] A tradição sintática do latim vulgar permanece neste caso na mais conservadora das línguas românicas, o sardo, que atualmente usa ainda o de sem artigo: sardo de ábba vriska ‘água fresca’, de bínu ‘vinho’ (WAGNER, 1951: 372)

[66] Esta expressão foi formada por Lewy (1922: 71 e ss., reeditado em Meisterw., II, p. 299 e ss.).

[67] “... devemos concluir daqui que noutro tempo na França Setentrional se ‘uivava’ em vez de ‘chorar’” (LERCH, 1924: 111-2).

[68] Cf. Cid., verso 277 Lora de los oios..., 375 Lorando de los oios..., 1601 Del gozo que avien de los sos oios loraban etc. (BESZARD, 1903: 529-31).

[69] “Especialmente na época dos clássicos, mas concretamente até mesmo no século da Ilustração, mostra-se uma repugnância à impulsividade e à fantasia, aquela enorme consideração à inteligência do ouvinte, que se costuma chamar racionalismo” (LERCH, 1933: 284-5).

[70] AEBISCHER, 1936; Cf. BERTOLDI, 1939: 71-80; ROHLFS, 1954: 16-8

[71] JABERG, 1926: 10; PAGLIARO, 1930: 93-4; IORDAN-ORR, 1937: 125; NENCIONI, 1946: 74.

[72] Sobre Marty e a Filosofia da Linguagem, veja OTTO (1954: 3 e ss.); sobre a Filosofia da Linguagem em geral, consulte-se Heilmann (1957: 5, 11).

[73] “O que queremos reconhecer na Lingüística, na ciência da arte, na ciência da religião, são certas ‘formas’ que precisamos entender em seu estado puro antes de podermos fazê-las voltar a sua causa...” (CASSIRER, 1942: 96-112; cf. MALMBERG, 1945:. 23-4).

[74] Todo o processo de atualização com que Bally quer sustentar a distinção entre “língua” e “fala”, feita por Saussure, é rechaçada por ROGGER (1954: 341-75). Mas leva sofisticamente muito longe sua interessante e aguda discussão crítica, com a qual quer demonstrar a “inconceptibilidade de uma atualização”. “Toda a atualização nos parece especialmente problemática quando pensamos que só se fala do nome e do verbo, (do qual, por outro lado, se admite que já está atualizado na langue). Sobre a atualização da qualidade, Bally não chega a tomar posição no citado capítulo. Mas, por que não devem ser atualizadas também todas as outras classes de palavras, os advérbios, as preposições, as conjunções? Por que não também os mesmos atualizadores? Por que não os atualizadores dos atualizadores?”

[75] Ela estuda “... as relações lógicas e psicológicas que envolvem termos coexistentes e formando sistema, tal como são percebidos pela mesma consciência coletiva” (SAUSSURE, 1949: 140).

[76] Ela estuda “... as relações que envolvem termos sucessivos não percebidos por uma mesma consciência coletiva, e que são substituídos uns pelos outros sem formar entre si um sistema” (SAUSSURE, 1949: 140).

[77] Para a combinação de sincronia e diacronia e para a posição de diversos lingüistas a seu respeito, veja VITALE,1955: 152-3;  BALDINGER, 1956: II, 346-7, 353. A recíproca integração da lingüística sincrônica e diacrônica é sublinhada também do ponto de vista da Psicologia da Linguagem. Veja-se KAINZ, 1946: 91 e ss..

[78] Sobre voler e louer, veja GAMILLSCHEG, 1928: 896, 571; WARTBURG, 1928 e ss.: IV,  805; V, 206-8, 387-90; DAUZAT, 1938: 756, 443; BLOCH-WARTBURG, 1950: 646, 209, 457; BALLY, 1944: 119, 172, 175, 176, 190; ULLMANN, 1952: 221 e ss.; BENVENISTE, 1954: 251-2. Sobre a importância do contexto, cf. VERDRYES, 1953: 81 e ss.

[79] O princípio correto da “atualização implícita” de Bally (1944: 83 e ss., 294 e ss.), foi considerado de novo sofisticamente por Rogger (1954: 371-2). “Imparcialmente deveria ter sido dito que não é permitido supor, na língua, uma maneira de agir quando não existe nenhuma pista da mesma. É evidente que se vai além da língua quando se indica que neste caso precisamente o contexto ou a indicação demonstrativa substitui a atualização. Devemos considerar como língua a frase isolada. Se a atualização só ocorre no conjunto do “texto”, já não se dá lingüisticamente, visto que resulta da conexão ideológica, não lingüística, pois entre frases não existe nenhuma conexão lingüística, mas unicamente objetiva”.

[80] “... seu objeto [da nova Lingüística] será a “visão histórica” dos diversos períodos da língua. Ela deverá organizar os resultados analíticos e conceptuais obtidos pela inteligência, enchê-los de vida e reuni-los pela intuição numa visão histórica da criação lingüística. Esta intuição não é outra senão... explicação do passado, compreensão histórica” (SCHÜRR, 1925: 80).

[81] Nos lingüistas mais arraigados na História, como, por exemplo, Brunot (1936: XII-XIII, 6) e  Meillet, a sincronia está sempre presente, e o dualismo entre os dois aspectos não existe (TERRACINI, 1949: 168-9).

[82] SAUSSURE, 1949: 185-7; BALLY, 1919-21: I, 260 e ss.; PUŞCARIU, 1937: 382-3, 386; PAGLIARO, 1930: 140; TERRACINI, 1949: 213; FUNKE, 1956: II, 255-6.

[83] TOBLER, 1912: V, 477; cf. BALLY, 1919-21: I, 259 e ss.; BOER, 1947: 1 e ss.

[84] “A incompreensão dos fragmentos é, portanto, o critério do signo fracionado, e nisso está uma diferença essencial entre a sincronia e a diacronia: a Lingüística Histórica procura explicar o que os usuários não compreendem; a Lingüística Estática vê na incompreensão dos usuários um princípio de explicação” (BALLY, 1944: 146).

[85] Sobre a importância da língua materna para a Lingüística Sincrônica, veja Bally, 1919-21: I, 60 e ss., 78 e 1937: 348.

[86] “... se F. de Saussure foi um inovador, não foi tanto por ter emitido opiniões revolucionárias quanto por haver sistematizado sob uma forma muito densa umas noções que antes dele estavam um pouco flutuantes” (WAGNER, 1947: 21).

[87] Até recentemente não se pôde chegar a um acordo sobre a definição, teoria e método da Estilística, ciência criada há pouco; cf., além de BALLY, 1935: 79-109; MALMBERG, 1945: 14; ROQUES, 1946-7: 282; TERRACINI, 1949: 56; ROHLFS, 1950-2: I, 81-4 E II, 78-9; GUIRAUD, 1954: 94, 107; BRUNEAU, 1956: 65-8, sobretudo a discussão entre Bruneau (1951: 1 e ss.) e Spitzer (1952: 165-8). Naquele artigo o “criticismo estilístico” de Spitzer (nos Estados Unidos Stylistic Criticism), tal como está tratado em seu Linguistics and Literary History. Essay in Stylistics, Princeton (New Jersey), 1948, é criticado por Bruneau. O objetivo do criticismo estilístico (a Estilística dos Autores, a Estilística Literária, Estética) é lançar uma ponte, com ajuda da Estilística, entre a Lingüística e a História da Literatura, mas o método aplicado para este fim se distancia da Lingüística e se torna demasiadamente subjetivo (cf. GUIRAUD, 1954: 70-81; SCHIAFFINI, 1954: 2, 9, 19; SCHIAFFINI, 1953: 165-86).

[88] “No primeiro caso, empurrão, impulso, ataque; no segundo, retirada e reserva prudente” (BALLY, 1935: 29). Cf. JABERG, 1926: 21; IORDAN-ORR, 1937: 327-35; ROGGER, 1941: 161 e ss.; NENCIONI, 1946: 144; PAGLIARO, 1930: 88; BRUNOT, 1936: 539-40; DAUZAT, 1947: 279.

[89] Veja-se a crítica que da tese de Guillaume faz Yvon (1952: 101 e ss.) e cf. também Poerck (1953: 51 e ss.).

[90] WAGNER, 1947: 47, 48, 52; CRIADO DE VAL, 1948: 35-6; LERCH, 1949: 31-2; WAGNER, 1951: 243; DAUZAT, 1953:  306-7; GOUGENHEIM, 1954: 75.

[91] “A manifestação mais impressionante e mais facilmente compreensível desta oposição está, sem dúvida, no fato de aparecer o discurso como uma realidade alternativamente presente e ausente, cuja existência – essencialmente intermitente – engendra no contínuo desenvolvimento do tempo descontinuidades mais ou menos longas, enquanto a língua, como aquisição permanente e inalienável do pensamento, é em nós uma presença de todos os instantes... A LÍNGUA, que é fala em potência, contém virtual e provisoriamente a fala efetiva, que é o DISCURSO. A língua chega a estar assim, no que diz respeito ao discurso, numa relação como a da condição para a conseqüência, ou se se prefere, do potencial para o atual... Portanto, a dicotomia língua-discurso... se resume, essencialmente, na oposição de uma potencialidade permanente (língua) e de uma efetividade momentânea (discurso)” (VALIN, 1955: 32-9).

[92] “Eis aqui porque dizemos que ela [a analogia] é inteiramente gramatical e sincrônica” (SAUSSURE, 1949: 228).

[93] “Naquele tempo [a terceira década do século] a Psicologia da Estrutura (Gestaltpsychologie) ganhava cada vez mais terreno à antiga Psicologia Atomística. A ‘consideração da totalidade’ estava, por assim dizer, no ambiente” (ÖHMAN, 1951: 75). A teoria dos “campos lingüísticos” provém do mesmo espírito.

[94] Wagner, em Les temps modernes, março de 1948 (citado em SAUSSURE, 1949: 6), diz do Curso de Lingüística Geral: “... sua característica preeminente é ter aproximado a língua do homem e ter levado em conta – sem ceder por isso em nada ao princípio de autonomia da Lingüística – a função humana da linguagem”.

[95] “O significante lingüístico, em sua essência..., não é de nenhuma maneira fônico; é incorpóreo, constituído, não por sua substância material, mas unicamente pelas diferenças que separam sua imagem acústica de todas as demais” (SAUSSURE, 1949: 164).

[96] GRAMMONT, 1938: 205-11; POP, 1950: I, 688 e II, 1164-5; Cf. STRAKA, 1942: 65 e ss.; MARTINET, 1939: 5 e 1943: 197 e ss.; DAUZAT, 1943: 75-6.

[97].Este fato foi negado resolutamente por Grammont (1938: 205-6).

[98] Trata-se de uma pronúncia parisiense que, segundo Martinet (1945: 147 e ss.), se difundiu a partir da capital, sobretudo na bacia fluvial do Sena e ao longo do Canal da Mancha. Segundo Pottier (1953-5: 33, desapareceu em 1952 na maior parte dos parisienses, e já não existe como fonema em Paris.

[99] A Fonologia, com efeito, descuida dos empréstimos, não leva em conta os “fatores externos”, “não lingüísticos” e de substrato e deve trabalhar sempre com “exemplos imaginários simplificados até o extremo” (MARTINET, 1955: 46, 175, 186, 191-3).

[100] Hoje em dia o e no futuro e no condicional está cada vez mais em uso em Paris (DAUZAT, 1953: 237).

[101] “Quanto às ‘oposições’, atenho-me ao que tenho dito: são diferenças” (GRAMMONT, 1939: 38).

[102] “Eu não percebo nenhuma diferença entre estas duas formas do verbo, e esta distinção é tão rara que eu não suspeitava de sua existência antes de ler obras de fonética francesa” (DURAND, 1936: 264).

[103] “... Proclamo em voz alta... que existe um setor muito denso de parisienses de linguagem depurada que receberam por tradição lingüística a pronúncia em é [e fechado], e não só a transmitem a seus filhos, mas também por meios educativos conscientes procuram impedir que a percam no contato com elementos sociais menos refinados...” (PICHON, 1938: 112).

[104] Alle`gro, cntro, esmpio, intęro, lttera, ferce, crico, prgo, calnna, dpo, etc., em Florença: allgro, ce`ntro, ese`mpio, intro, le`ttera, fero`ce, co`rico, po`rgo, colnna, dopo etc., em Roma (BERTONI, 1940:101-3; MALMBERG, 1942-3: 38; TAGLIAVINI, 1949: 325-6).

[105] Acerca das deficiências da Fonologia para o francês e para as línguas românicas, veja-se uma advertência do fonologista G. GOUGENHEIM, em FM, XVIII (1950), p. 150, em sua resenha dos Principes de Trubetzkoy: “... ou a Fonologia de Trubetzkoy será o ponto de partida de uma nova escolástica que se distanciará da realidade tangível sobre a qual o autor edificou seu sistema e se encalhará nas abstrações, ou os lingüistas renovarão e impulsionarão as investigações de Trubetzkoy, não vacilarão em fazer notar tal ou qual insuficiência do mestre, enfrentarão os problemas que Trubetzkoy não abordou, as línguas que deixou de lado e que eles estudarão em sua própria singularidade. Assim, a Fonologia progredirá e se renovará, como toda ciência, e será para Trubetzkoy a glória de havê-la criado”. Assim pode ser compreendido que um romanista menos orientado estruturalmente tome uma atitude negativa diante da Fonologia (RO, 1955: 621-6).

[106] Martinet (1939: 1-86) é, que saibamos, a única tentativa para estudar o sistema fonológico de um dialeto românico. Veja-se, porém, o estudo fonético-fonológico de Heilmann (1955a)

[107] Objeções que, não obstante, segundo recentes investigações, deveriam poder ser superadas.

[108] “A Fonética Histórica se transforma assim numa história da evolução de um sistema fonológico” (Actes du Premier Congrès International de Linguistes à La Haye, de 10 a 15 de abril de 1928, p. 33).

[109] À Fonologia Diacrônica dedicou Wijk uma parte importante de sua Phonologie (WIJK, 1939: 144 e ss.) e o ensaio Umfang und Aufgabe der diachronischen Phonologie, em Mélanges van Ginneken. Paris, 1937, p. 93-9.

[110] “Pois felizmente a Fonologia não ficou detida numa sincronia estimuladora da paródia. Se não quer definitivamente acabar em métodos superficiais e em resultados banais, e certos produtos da ciência sincrônico-estrutural justificam este temor, deve buscar um aprofundamento histórico” (LAUSBERG, 1949: 257).

[111] MARTINET, 1952: 11-2; 1955: 60-2; em HAUDRICOURT-JUILLAND, 1949: XIII e Où en est la phonologie? em Língua, I, p. 55; HAUDRICOURT-JUILLAND, 1949: 86-90.

[112] Referente às expressões pattern, holes in the pattern, cases vides, casillas vacías, vejam-se, entre outros, SAPIR, 1921: 57, 58, 61, 63 e ss.; MARTINET, 1956: 121 e ss. e 1955: 80-1; HEILMANN, 1955a: 153.

[113] Para o esquema abaixo, cf. HAUDRICOURT-JUILLAND, 1949: 87-8.

[114] MEYER-LÜBKE, 1901: 127 e ss.; GIERACH, 1912-3: 103 e ss.; MEYER-LÜBKE, 1913: 1 e ss. e In: SPITZER (org.), 1929-30: I, 354; JACOBY, 1916; MEYER-LÜBKE, 1920: 227-33; ROHLFS, 1952: 77-8; RICHTER, 1934: 254-6; WARTBURG, 1950: 36-51; TAGLIAVINI, 1952: 88-100

[115]  Para uma análoga explicação fonológica, cf. LAUSBERG, 1947: 296 e ss. Veja-se também SCHÜRR, 1954: 133-40.

[116]  O esquema que segue é de HAUDRICOURT-JUILLAND, 1949: 111.

[117][117][117]  Já Bourciez (1937, § 73, na reimpressão de 1926), havia observado que o o francês em sílaba fechada ocupou o lugar vago de ū. Mas por que o o ocupou o lugar de u em sílaba fechada? Em sílaba aberta, de fato, o ó francês se ditongou primeiro em ou, daí resultando eu e mais tarde ö (flǒrem > fleur). De qualquer modo, no normando o ó em sílaba aberta não se ditongou, e talvez tenha sido convertido desde o primeiro momento em u (normando flur) (BOURCIEZ, 1937: 102; Nyrop, 1899-903: I, 199-200; SCHÜRR, 1954:135-6; LAUSBERG, 1956: I, 112). Também noutros territórios o u se mudou em ü, e precisamente no dialeto de Castelnovo (Província de Reggio Emília), no reto-românico (por exemplo, no sobresselvano) e no dialeto português de São Miguel, nos Açores parece que ó ocupou o lugar vazio de u (HAUDRICOURT, 1947-8: XLVI-XLVII; LAUSBERG, 1956: I, 111-4; MARTINET, 1955: 52-3). Ou também, ao contrário, segundo Poerck (1953:  84 e ss.), onde o ō latino se fechou em u2, ocorrendo a palatalização de u1.

[118] Para o que se refere ao italiano, veja mais adiante; para o valão, cf. REMACLE, 1951: 532.

[119] “Compreende-se que os bloomfildianos sejam, entre os estruturalistas, os menos inclinados e os menos preparados para ultrapassar a fase das equações metacrônicas do tipo ū latino = ü francês” (MARTINET, 1955: 14-5 e 1952: 1). O estruturalismo americano de Bloomfield e de sua escola identifica, equivocadamente, a ciência com a descrição. Mas a Lingüística não pode ser exclusivamente descrição de fatos objetivos (Veja COSERIU, 1954: 153-61, 213, onde a doutrina de Bloomfield é submetida a uma crítica benévola e objetiva). A respeito da admiração demasiadamente unilateral por Bloomfield na América, o presidente da Linguistc Society of America disse: “Raramente se vê, em escritos americanos sobre teoria lingüística, uma referência às obras de Saussure, Trubetzkoy ou outros europeus, apesar de terem sido eles os pensadores que nos deram os instrumentos com que trabalhamos. Não abro mão de minha admiração por Bloomfield e Sapir; mas me parece algo provinciano supor que toda a Fonética começou com eles” (HAUGEN, 1951: 211).

[120] “Cremos, portanto, numa identidade absoluta entre a pronúncia da língua falada (ou galo-românico) e a da língua escrita (ou latim), identidade que justifica ao historiador do francês que pesquisa nos textos da latinidade merovíngia indícios da pronúncia do galo-românico” (POERCK, 1953: 44).

[121] Acerca da tese de Poerck, leia-se também LÜDTKE ,1956: 69 e ss.

[122] Observe-se, por exemplo, a seguinte afirmação: “Ser(r)are, cansado de expressar um duplo sentido, deixa escapar um, o de serrar. Este vazio é preenchido por sectare” (GILLIÉRON-MONGIN, 1905: 16). Veja-se também MEILLET, 1925: 99.

[123] O francês dame, por exemplo, pôde sobreviver. No entanto, dan desapareceu motivado pela casa vazia (senior no galo-românico sem feminino) na estrutura semântica (HOLLYMAN, 1957: 95-7, 102-3, 107-9, 168; cf. WARTBURG, 1928 e ss.: III, 131; BLOCH-WARTBURG, 1950: 553).

[124] “Quando consideramos uma mudança lingüística no contexto da sincronia lingüística, nós a introduzimos na esfera dos problemas teleológicos” (JAKOBSON em TRUBETZKOY (1949: 334). “O ponto de vista teleológico é o da Fonologia” (WIJK, 1939: 156-7).

[125] Para sua atitude negativa a respeito das explicações teleológicas, cf., entre outros, DEVOTO, 1951: 62 e ss.; WARTBURG, 1946: 123 e ss. e 1936: 19 e MARTINET, 1955: 17-8.

[126] Sobre isto, veja como Malmberg (1945: 38) interpreta a opinião de Trubetzkoy “Do ponto de vista fonológico, toda mundança se faz de maneira brusca; um fonema cede seu lugar a outro...” “A mudança de sons da fala pode ser realizada por partes, paulatinamente. Isto eu admito. A mudança de fonemas é sempre brusca, pela simples razão de que não existem fonemas de transição” (e eu acrescentaria: “nem pode havê-los”)”.

[127] “O u consoante se fez também mais consoante. Mas o latim já possuía o f labiodental. A sonora correspondente, v, não existia. A forma consonântica do u veio preencher esta casa vazia [o negrito é meu] do sistema fonético’ (MEILLET, 1923: 99).

[128] O trabalho orientado em sentido estrutural, de JUNGEMANN. Teoría. p. 417-26, se fecha de modo bastante desfavorável a respeito da importância dos fatores estruturais internos, e atribui uma importância muito maior aos fatores extralingüísticos, ao substrato. De todos os problemas que trata, só há um  — o da articulação ápico-alveolar de ś e ź (espanhol casa [kaśa], catalão casa [kaźeo] em ibero românico e gascão — que não pode ser explicado pelo substrato, é certo, mas para o qual, por outro lado, não existe tampouco uma explicação estruturalista segura. Todos os outros problemas de que trata podem ser explicados, direta ou indiretamente, no todo ou em parte, pelo bilingüismo celto-latino ou basco-latino.

[129] Veja-se também de uma língua não românica (Cf. JUNGEMANN, 1955: 81, 98).

[130] Cf. GOUGENHEIM, 1939: 262-3; ALARCOS-LLORACH, 1951: II, 12-3; BRANDENSTEIN, In: ALTHEIM, 1951: 481-4; ALARCOS LLORACH, 1954: 180-4; LÜDTKE, 1956: 51 e ss.

[131] “Hjelmslelv e seus discípulos pretendem estudar os fatos da expressão sem qualquer referência à sua substância fônica, assim como focalizam as unidades de conteúdo fazendo abstração da substância a que correspondem, isto é, de seu significado” (MARTINET, 1949: 21). Com razão, L. L. Hammerich, em sua discussão com P. Diderichsen sobre a Glossemática (Acta Philologica Scandinavica, XXI, 1952, p. 104), chega à seguinte conclusão: “A Glossemática é uma teoria formalista que não facilita a observação dos fenômenos lingüísticos”. Veja-se a crítica negativa de Hammerich (1952: 1-21) a respeito da Glossemática.

[132] Coseriu (1954: 204, 211, 214) diz muito bem: “Portanto, a teoria de Hjelmslev seria inatacável, do ponto de vista da experiência, se se mantivesse em seu apriorismo declarado (o que Hjelmslev chama de sua “arbitrariedade”) e não se lhe acrescentasse a “aplicabilidade”. Se os glossematistas não pretendessem identificar a Glossemática (teoria a priori da essência) com a Lingüística (teoria da experiência), melhor dito, converter esta naquela... A Glossemática se justifica plenamente, mas num plano de abstração posterior ao plano em que se coloca a Lingüística propriamente dita (ciência da linguagem fônica)... A Glosemática se coloca num plano de formalização posterior ao plano da Lingüística. Logo, não pode haver conflito entre as duas ciências, dede que se mantenham distintas. Os conflitos que se registram se devem a uma contradição interna da Glossemática, entre o plano da teoria e o plano da aplicação”. Vejam-se as benévolas e não preconceituosas críticas de Coseriu (1954: 178-212) à Glossemática.

[133] A primeira parte desta obra, General principles (p. 1-35), trata da metolodogia das ciências do espírito, sobretudo da Lingüística, e representa uma elaboração e de um certo modo uma popularização de alguns dos princípios fundamentais de Omkring... (Prolegomena) de  Hjelmslev. É significativo que na segunda parte, Glossematic algebra (p. 36-87), que deveria ter a aplicação da Glossemática aos fatos lingüísticos como finalidade, assim como a demonstração do procedimento com exemplos, os autores, segundo a nota 1 da p. 39, não se considerem responsáveis pela validade conclusiva dos exemplos que dão. (“Deve ficar claro de uma vez por todas que os autores não se responsabilizam pela validade decisiva de seus exemplos. Se dão exemplos aqui e ali, fazem-no não por seu próprio valor, como “fatos”, mas para clarificar o caminho para o leitor, para fazer-lhe mais fácil e agradável a tarefa, que, às vezes, devemos reconhecer que é árdua, de seguir a exposição do método...”) (cf. SIERTSEMA, 1954: 15, 27).

[134] Hjelmslev, em seu primeiro trabalho (HJELMSLEV: 1928), no capítulo Grammaire inductive et empirique, sustenta ainda inteiramente o empirismo e o método indutivo na Lingüística. Disse literalmente (p. 39, 41, 42): “As categorias que constituem o sistema desta ciência [a Lingüística] devem ser estabelecidas segundo um método indutivo... O método indutivo é uma condição indispensável para poder tornar clara a verdade gramatical. Colocando-nos fora do terreno próprio da Lingüística para estabelecer categorias gramaticais, nós nos serviríamos, pelo contrário, de um método de dedução. Mas a Lingüística propriamente dita não pode jamais ser uma ciência a priori... Os princípios não devem nunca indicar o ponto de partida, mas, ao contrário, o fim das investigações... O método puramente indutivo nos parece, portanto, o único possível em gramática...” Dez anos mais tarde parece que ainda não desvaloriza a importância do empirismo: “Não se segue de  modo algum que menosprezemos o empírico: observações cada vez mais minuciosas, uma verificação cada vez mais completa, serão exigidas, pelo contrário, para preencher e verificar os quadros delineados pela construção teórica. Dos esquemas desta, forçosamente abstratos, não pretendemos de modo algum deduzir toda a diversidade dos fatos lingüísticos (BRÖNDAL-HJELMSLEV, 1939: 9). Mas rechaça completamente o método indutivo em HJELMSLEV, 1939: 69: “As formas gramaticais e seus significados constituem em qualquer língua uma hierarquia que não se esclarece senão dedutivamente”. Seu ponto de vista completamente modificado reaparece depois nos Prolegomena, 1943 [tradução 1953. (“Somente a experiência é suficiente para demonstrar claramente o curto alcance deste método [do método indutivo]”), p. 19-20, 39-40.

Quando depois Guevara (1953: 29) afirma que para Hjelmslev o método deve ser indutivo e empírico e que para ele uma Lingüística apriorística é inconcebível, fundamenta-se exclusivamente no primeiro trabalho de Hjelmslev, sem conhecer o método puramente apriorístico e dedutivo da Glossemática e sem levar em conta a radical mudança nas concepções metolodógicas de Hjelmslev nos últimos vinte e cinco anos (cf. SIERTSEMA, 1954: 31, 32, 48).

[135] Os representantes deste método “imanente” devem reconhecer, ao contrário, que não podem ser deixadas fora de consideração as explicações lingüísticas, e que “a Queda do Império Romano e as invasões bárbaras tiveram seu papel, assim como os substratos” (TOGEBY, 1952: 88; cf. NIELSEN, 1952: 1-7). Recentes investigações orientadas estruturalmente mostram com evidência que uma parte muito grande das mais notáveis mudanças fonéticas do ibero-românico e do gascão pode ser explicada pela influência do substrato, mas não exclusivamente por fatores estruturais (JUNGEMANN, 1955: 205-26, 227-43, 244-72, 273-88, 318-35,  336-61, 362-416).

[136] O método “imanente”, segundo Hjelmslev (1935: 49-50), é “um método exclusivamente lingüístico que se limita a buscar, por um procedimento empírico, as categorias refletidas diretamente na língua”. Agora ele diz sobre isto: “Iludindo o transcendente ponto de vista dominante até hoje, buscando uma compreensão imanente da língua como uma estrutura específica subsistente por si mesma e buscando uma constante não fora da própria língua, mas dentro dela, a teoria lingüística começa circunscrevendo a finalidade de seu objeto” (HJELMSLEV, 1953: 11).

[137] Veja as resenhas de HALLIG, 1952: 362-5; JUILLAND, 1953-4:  354-60 e LAUSBERG, 1954: 156-7.

[138] Pela simplíssima razão de, tratando-se de fatos concretos, só a duras penas poder ser realizado um método que foi construído abstratamente. Um método que não brote da experiência e da prática, na realidade não existe .

[139] Meillet (1923: 13) pergunta que valor tem a reconstrução de uma “língua primitiva” ou Ursprache, e responde que “quase nunca é possível comparar a reconstrução com a realidade conhecida. Mas há um caso em que é possível: o das línguas românicas”.

[140] “O indo-europeísta pode citar o romanista para um suposto fenômeno semântico ou fonético, porque precisamente a Romanística é a praeceptrix linguisticae...” (SPITZER, 1925: 149).  Schuchardt, apesar de seus múltiplos interesses e sua variada produção, permaneceu sempre fiel à Lingüística Românica. Em seu Brevier (SCHUCHARDT, 1922: 92, 93, 104, 252 e 256), entre outras coisas, diz desta ciência: “Só as línguas românicas tomam como objeto científico uma posição especial; elas oferecem à investigação, como há muito tempo se tem dito..., condições mais favoráveis do que qualquer outro grupo... Efetivamente, penso que também na ciência etimológica como em toda a Lingüística, corresponde aos romanistas a direção, porque eles chegaram à posse das medidas mais firmes e dos instrumentos de maior precisão... De todos os grupos lingüísticos, nenhum é mais instrutivo que o românico, graças às circunstâncias especiais de sua tradição histórica... Decididamente há um grupo de línguas cuja investigação deveria servir de modelo em todas as partes graças a circunstâncias exteriores: é o grupo românico”. Leiam-se também, sobre o que a Lingüística deve à Lingüística Românica, as opiniões de SAUSSURE, 1949: 18; MEILLET, 1925: 12 e ss., 1923: 80 e MILLARDET, 1923: 4-5. Wagner (1943: 26) declara sua esperança de que “também aqui [na disciplina etimológica] a Lingüística Românica siga atuando como praeceptrix”.

[141] “... os romanistas se encontravam em condições privilegiadas, desconhecidas dos indo-europeístas; pois, além de ser conhecido o latim, protótipo das línguas românicas, a abundância de documentos permitia seguir detalhadamente a evolução dos idiomas. Estas duas circunstâncias limitavam o campo das conjeturas e davam a toda esta investigação uma fisionomia particularmente concreta” (SAUSSURE, 1949: 18).

[142] “A união paritária de microscopia e macroscopia forma o ideal do trabalho científico...” (SCHUCHARDT, 1922: 2 e 346). O método de Schuchardt consistiu, efetivamente, em admitir que antes do geral existiram as infinitas variações dos fenômenos lingüísticos” (cf., por exemplo, NENCIONI, 1946: 119, e MIGLIORINI, 1948: 209 e ss.).

[143] “Inspirada no interesse pelos ‘pequenos fatos verdadeiros’, pela observação exata e minuciosa..., a gramática comparada (e histórica) se torna nitidamente positivista... Em qualquer lugar, o concreto é tomado como ponto de partida e, geralmente, nisso se compraz e nisso permanece” (BRÖNDAL, 1939: 2).

[144] “O ideal... me parece que seria a união de discussões gerais com a investigação de problemas científicos especiais ou a dedicação alternativa a questões gerais e especiais” (JABERG, 1926: 224). Um ideal, mas “na realidade, uma se torna, geralmente, muito curta diante da outra” (SCHUCHARDT, 1922:. 346).

[145] Por outro lado, é um indício favorável o desejarem os estruturalistas chamados “unitaristas’, apesar dos numerosos “extremistas”, unir a sincronia à diacronia, fundamentando-se tanto nos neogramáticos e nos neolingüistas quanto nos estruturalistas (LÜDTKE, 1956: 8-9).

[146] Acerca da coordenação dos diversos métodos, cf. MILLARDET, 1923: 54 e ss.; MILLARDET, 1924: 31; MILLARDET, 1933: 56; BOTTIGLIONI, 1946: 20-1; WAGNER, 1948: 9.